Alberto Villas

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Jornalista e escritor, edita a newsletter 'O Sol' e está escrevendo o livro 'O ano em que você nasceu'

Opinião

O colecionador

Quando chegou aos setenta e poucos anos, começou a perder o gosto pelas coleções. Não via mais muito sentido e decidiu desfazer de tudo

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
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Era um cara que, desde pequenininho, começou a guardar coisas. Só algum tempo depois é que aquele seu acervo virou coleções.

Primeiro, começou a guardar as figurinhas dos chicletes Ping-Pong. Conseguiu todas elas, quarenta. Depois vieram as caixinhas de fósforo. A primeira foi uma caixinha da Bardahl, depois uma da Pirelli e por aí foi.

Das caixinhas de fósforo passou para as tampinhas de refrigerante, para os maços de cigarro, para os chaveiros.

Na infância, colecionou muitos selos. Começou com uma grande quantidade dada por seu pai, que recebia cartas de todas as partes do mundo. Os selos das Filipinas, de Cuba e do Paraguai eram os mais bonitos, ele lembra.

Carrinhos da Matchbox, perdeu de conta quantos tinha. Uns cem, mais ou menos. O mais bonitinho era um Interlagos amarelo com o número 22 escrito no capô.

Na era dos fascículos, fez a festa. Colecionou Conhecer, Ciência Ilustrada, Gênios da Pintura, Os Cientistas, Grandes Compositores, História da Música Popular Brasileira e os Grandes Escritores da Literatura Universal.

Na juventude, teve a coleção mais bizarra de todas. Começou a colecionar pinga, desde o dia em que ganhou uma garrafa rara, uma Massangano, de Ponte Nova. Formou uma adega, não tinha mais onde acomodar as garrafas. A última foi uma pinga que sua amiga trouxe do Paraguai pra ele.

Não foram poucas as coisas que ele colecionou: pedras, que ele ia escrevendo em cada uma a origem. Tinha pedras de tudo quanto é lugar, o seu sonho era ter uma da lua. Nunca conseguiu.

Colecionou embalagem de hashi, cada uma mais linda que a outra. Colecionou marcadores de livros, guardanapos de avião, cinzeiros, xícaras roubadas dos cafés, porta chaves de hotel, cardápios, rótulos de vinho, bottons e muitas revistas. Começou com a Realidade e, dizem, hoje coleciona a piaui.

Ele chegou a ter 15 mil vinis, CDs, 12 mil livros, perdeu a conta.

Quando chegou aos setenta e poucos anos, começou a perder o gosto pelas coleções. Não via mais muito sentido naquele museu dentro de casa e decidiu desfazer de tudo.

Começou pelas pedras, depois as caixinhas de fósforo, os chaveiros e por aí foi.

Só sobraram os CDs, que foram colocados em 20 caixas de papelão, das grandes. O que achou que seria um show foi um fiasco. Ninguém queria. Mas ninguém mesmo.

Uma ONG ficou de levar tudo, mas quando o carinha chegou num Kangoo, disse que só levaria uma caixa porque o carro já estava cheio. Nunca mais voltou.

Nem mesmo a neta, louca com Belchior, quis levar a coleção de saudoso compositor cearense, nem mesmo aquele que musicou poemas de Drummond. Nem mesmo aquele que o Zé Ramalho gravou com o Lula Côrtes e que ela era doida pra ter.

Hoje ele tem 19 caixas de CDs, ocupando todo o hall de entrada da sua casa. Quem procurar vai achar, por exemplo, aquele que o Fagner gravou com a nata da MPB, numa campanha para amenizar as vítimas da seca no Nordeste, o Chega de Mágoa.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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