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O choque psilocíbico que partiu a geração beat
Ao cruzarem o caminho de Timothy Leary, figuras centrais da geração beat descobriram que nem toda viagem leva ao mesmo destino
Na aurora dos experimentos psicodélicos, alguns personagens da geração beat cruzaram os caminhos do professor Timothy Leary. Dentre eles, o escritor Jack Kerouac, conhecido por ter escrito a “bíblia beatnik”, seu aclamado romance On the Road (1957); Allen Ginsberg, poeta queer e contracultural; e Neal Cassady, o intenso e cativante ladrão de carros — conhecido como Dean Moriarty em On the Road.
O encontro, articulado por Allen Ginsberg, que já havia tido experiências com cogumelos junto a Timothy Leary, ocorre inicialmente na universidade, quando Leary é visitado pelo excêntrico Neal Cassady, que prontamente se voluntaria para o experimento com as pílulas de psilocibina, isoladas dos ‘cogumelos mágicos’.
Cassady, no entanto, não se adapta ao modelo clínico. Recusa-se a submeter-se aos protocolos de controle científico — às regras, ao enquadramento experimental, à condução litúrgica. Em vez disso, leva Leary para Nova York.
No apartamento onde vive, organiza uma sessão informal. Ali, um encontro de quatro almas e alguns comprimidos funde suas mentes em uma experiência jamais registrada. O que era mediado por protocolos passa a se afirmar como experiência espiritual e fenomenológica, difícil de conter dentro de qualquer estrutura institucional.
Diferentemente de muitos participantes dos protocolos acadêmicos, Cassady não hesita. Entra com intensidade, tratando a experiência como algo próximo de um rito — não científico, mas cósmico, quase ancestral. Leary acompanha. O que antes era pesquisa começa a se transformar em outra coisa.
Pouco tempo depois, Leary visita Allen Ginsberg e Jack Kerouac, também em Nova York. O ambiente é descrito por Leary como caótico e improvisado, mas a presença de Ginsberg suaviza a tensão. É ali que começam a surgir, ainda de forma intuitiva, as questões de “set and setting” — e também onde a unidade implícita da geração beat começa a se desfazer, revelando incompatibilidades ideológicas entre os participantes.
Ginsberg já está aberto. Reconhece, na experiência, algo que dialoga com sua busca espiritual e poética, incentivando Leary a levar a psilocibina a outros artistas e figuras influentes, na expectativa de fomentar alguma transformação estrutural na sociedade.
Kerouac reage de forma oposta. Desde o início, demonstra resistência e insegurança: bebe, se agita, performa, grita e ironiza. Mostra-se cético diante da experiência e da proposta de “ligar” outras pessoas. Tenta manter o controle da experiência e da situação ao redor. O ambiente se torna instável e caótico. O próprio Leary é levado a sua primeira “bad trip”. Ginsberg intervém, reorganiza o clima e impede que a situação se degrade por completo. Ali, torna-se evidente que a experiência psicodélica não apenas expande, mas também intensifica as disposições internas, tensões e limites já existentes.
Ao final, o contraste. Enquanto alguns atravessam a experiência e saem modificados, Kerouac permanece rígido. Não se abre a novos horizontes e, como um boêmio da velha guarda, parece perceber, ali, ao espiar, nervoso, pelas portas perceptivas entreabertas, que não há lugar para ele na expansão que começa a se formar no horizonte.
As consequências dessa fissura tornam-se visíveis ao longo da década. Allen Ginsberg integra-se plenamente ao movimento psicodélico, ao lado de Timothy Leary, participando de palestras, encontros e manifestações públicas, levando poesia e experiência para fora dos circuitos literários. Neal Cassady segue outro caminho, tornando-se figura central nos acid tests, ao lado de Ken Kesey e dos Merry Pranksters, conduzindo o famoso ônibus colorido em travessias que ajudariam a moldar o imaginário da contracultura.
Kerouac permanece à margem dessa transformação. Distancia-se progressivamente, assume posições conservadoras — chegando a se declarar favorável à Guerra do Vietnã – caminha em direção oposta ao movimento hippie.
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