Nikkole Presotto

Fotógrafa e cinegrafista, apaixonada por arte, cinema, rock do fim dos anos 60, poesia e cultura psicodélica. Estudou Direção Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema (AIC).

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O choque psilocíbico que partiu a geração beat

Ao cruzarem o caminho de Timothy Leary, figuras centrais da geração beat descobriram que nem toda viagem leva ao mesmo destino

O choque psilocíbico que partiu a geração beat
O choque psilocíbico que partiu a geração beat
Leary e Cassady no ônibus mágico dos Merry Pranksters, grupo contracultural dos anos 60 (Foto: Allen Ginsberg/CORBIS)
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Na aurora dos experimentos psicodélicos, alguns personagens da geração beat cruzaram os caminhos do professor Timothy Leary. Dentre eles, o escritor Jack Kerouac, conhecido por ter escrito a “bíblia beatnik”, seu aclamado romance On the Road (1957); Allen Ginsberg, poeta queer e contracultural; e Neal Cassady, o intenso e cativante ladrão de carros — conhecido como Dean Moriarty em On the Road.

O encontro, articulado por Allen Ginsberg, que já havia tido experiências com cogumelos junto a Timothy Leary, ocorre inicialmente na universidade, quando Leary é visitado pelo excêntrico Neal Cassady, que prontamente se voluntaria para o experimento com as pílulas de psilocibina, isoladas dos ‘cogumelos mágicos’.

Cassady, no entanto, não se adapta ao modelo clínico. Recusa-se a submeter-se aos protocolos de controle científico — às regras, ao enquadramento experimental, à condução litúrgica. Em vez disso, leva Leary para Nova York.

No apartamento onde vive, organiza uma sessão informal. Ali, um encontro de quatro almas e alguns comprimidos funde suas mentes em uma experiência jamais registrada. O que era mediado por protocolos passa a se afirmar como experiência espiritual e fenomenológica, difícil de conter dentro de qualquer estrutura institucional.

Diferentemente de muitos participantes dos protocolos acadêmicos, Cassady não hesita. Entra com intensidade, tratando a experiência como algo próximo de um rito — não científico, mas cósmico, quase ancestral. Leary acompanha. O que antes era pesquisa começa a se transformar em outra coisa.

Pouco tempo depois, Leary visita Allen Ginsberg e Jack Kerouac, também em Nova York. O ambiente é descrito por Leary como caótico e improvisado, mas a presença de Ginsberg suaviza a tensão. É ali que começam a surgir, ainda de forma intuitiva, as questões de “set and setting” — e também onde a unidade implícita da geração beat começa a se desfazer, revelando incompatibilidades ideológicas entre os participantes.

Ginsberg já está aberto. Reconhece, na experiência, algo que dialoga com sua busca espiritual e poética, incentivando Leary a levar a psilocibina a outros artistas e figuras influentes, na expectativa de fomentar alguma transformação estrutural na sociedade.

Kerouac reage de forma oposta. Desde o início, demonstra resistência e insegurança: bebe, se agita, performa, grita e ironiza. Mostra-se cético diante da experiência e da proposta de “ligar” outras pessoas. Tenta manter o controle da experiência e da situação ao redor. O ambiente se torna instável e caótico.  O próprio Leary é levado a sua primeira “bad trip”. Ginsberg intervém, reorganiza o clima e impede que a situação se degrade por completo. Ali, torna-se evidente que a experiência psicodélica não apenas expande, mas também intensifica as disposições internas, tensões e limites já existentes.

Ao final, o contraste. Enquanto alguns atravessam a experiência e saem modificados, Kerouac permanece rígido. Não se abre a novos horizontes e, como um boêmio da velha guarda, parece perceber, ali, ao espiar, nervoso, pelas portas perceptivas entreabertas, que não há lugar para ele na expansão que começa a se formar no horizonte.

As consequências dessa fissura tornam-se visíveis ao longo da década. Allen Ginsberg integra-se plenamente ao movimento psicodélico, ao lado de Timothy Leary, participando de palestras, encontros e manifestações públicas, levando poesia e experiência para fora dos circuitos literários. Neal Cassady segue outro caminho, tornando-se figura central nos acid tests, ao lado de Ken Kesey e dos Merry Pranksters, conduzindo o famoso ônibus colorido em travessias que ajudariam a moldar o imaginário da contracultura.

Kerouac permanece à margem dessa transformação. Distancia-se progressivamente, assume posições conservadoras — chegando a se declarar favorável à Guerra do Vietnã – caminha em direção oposta ao movimento hippie.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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