

Colunas
O céu que nos protege
Olhar para as estrelas significa reconhecer o valor da conservação do meio ambiente e superar a visão imediatista que destrói o planeta em nome do lucro rápido
“Por que a gente ama olhar para o céu? Tem gente que nem nota! Desde pequenas, olhamos pras estrelas, Lua, Sol.”
A coluna desta semana nasceu de uma troca de mensagens com minha irmã, Ariadini, sobre a chuva de meteoros da semana passada. Vocês souberam? Conseguiram observar? Desde meninas somos fascinadas pelos fenômenos celestes.
Minha irmã teve o nome abrasileirado por minha mãe a partir da mitologia grega. Ariadne – filha do rei Minos – foi a princesa que ajudou o herói Teseu a sair do labirinto do Minotauro, entregando-lhe um novelo de lã para que marcasse o caminho de volta. Um homem e uma mulher, seres humanos em parceria, como deve ser.
Ariadini, à semelhança da princesa que inspirou seu nome, já me mostrou – e continua a mostrar – caminhos de saída em muitas situações da vida. Lembro-me especialmente do início da pandemia de Covid-19, quando tentei alertar colegas médicos sobre a natureza trombótica da doença e acabei ridicularizada, levada a julgamento por charlatanismo no Conselho Federal de Medicina.
Na época, Ariadini me dizia para ter calma e persistência: a luta pela Ciência, em meio ao negacionismo, era travada no “macro e no microcosmo”; no nosso entorno, o trabalho precisava ser de formiguinha, até que a verdade se tornasse irrefutável.
Vários episódios depois ajudaram a resolver o caso – entre eles, uma ligação inesperada de uma repórter da revista Science, que publicou o link para o artigo científico de nosso grupo dois dias antes do julgamento, algo crucial para que eu não perdesse meu direito de exercer a medicina.
Mas essa é outra história, e merece um livro inteiro, que um dia ainda escreverei com meus amigos de trincheira.
Hoje quero falar dessa conversa com Ariadini, que me fez lembrar uma frase adaptada de uma peça de Oscar Wilde: “Somos todos iguais, mas alguns de nós olham para as estrelas”.
Olhar para as estrelas é olhar para fora de si. É compreender que não somos únicos, completos, fechados em nós mesmos. Talvez o primeiro passo seja olhar ao redor, para o nosso microcosmo: ajudar quem pudermos e preservar o meio ambiente, mesmo que seja a árvore da esquina da nossa rua.
A frase de Wilde nos lembra que, embora compartilhemos a mesma condição humana, alguns escolhem dirigir o olhar para ideais maiores e para o futuro.
No cenário global atual, olhar para as estrelas significa reconhecer o valor de longo prazo da conservação e superar a visão imediatista que destrói o planeta em nome do lucro rápido.
A própria ciência econômica já demonstra que preservar gera muito mais riqueza do que destruir. O relatório global State of Finance for Nature aponta que investimentos baseados na preservação da natureza oferecem retorno de 7 a 30 dólares para cada dólar aplicado.
A destruição dos ecossistemas – com a perda de polinização, proteção costeira e água limpa – poderá custar à economia global pelo menos 479 bilhões de dólares por ano até 2050.
Isso é assunto de saúde. Mesmo assim, o mercado segue na contramão da lógica financeira e da sobrevivência: o mundo gasta 30 vezes mais financiando atividades que destroem a natureza do que a protegendo.
É preciso compreender a lei do retorno: tudo volta, seja em forma de harmonia, seja de catástrofe. Basta observar os fenômenos climáticos que a Europa enfrenta agora, agravados pela poluição gerada por explosões e guerras intermináveis na região – e que nós enfrentaremos com mais intensidade no nosso verão, marcado pelo super El Niño.
Não há caminho melhor para o planeta do que a cooperação e o respeito. Comecemos, então, olhando para o nosso microcosmo.
Depois, olhemos para as estrelas, para entender o quanto somos pequenos e frágeis, flutuando neste universo em um planeta tão especial.
Estamos no decênio decisivo para enfrentar o negacionismo científico, o ódio e a intolerância – e para, quem sabe, transcendermos. Ainda há tempo de mudar ou seguiremos perdidos no labirinto que criamos. •
Publicado na edição n° 1425 de CartaCapital, em 12 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O céu que nos protege’
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