O caso Prevent Senior é apogeu, não inauguração

Descobrimos, muito antes do caso da operadora, que centenas de milhares de médicos preferem curandeirismos a evidências científicas

Protesto em frente à sede da Prevent Senior, em São Paulo (Foto: Divulgação/Levante Popular da Juventude

Protesto em frente à sede da Prevent Senior, em São Paulo (Foto: Divulgação/Levante Popular da Juventude

Opinião

O que é a verdade? Esta é, obviamente, uma provocação. Mas também representa uma longa tradição de reflexões, debates e embates na Filosofia, mais propriamente na Epistemologia. Afinal, o que é a verdade? Quem a detém? Por quais caminhos chegamos à ela e qual a razão de sua importância?

Logicamente, se pensarmos sob o ponto de vista das doutrinas religiosas, a verdade costuma advir de revelações e exegeses de textos sagrados e de representações mundanas das vontades de entidades superioras e/ou sobrenaturais. Certos grupos sociais também costumam criar seus próprios sistemas de crenças, valores e critérios para interpretar as realidades percebidas. Seus próprios vieses e enquadramentos.

É o que chamamos de epistemologia tribal: a conformação de determinadas identidades sociais e culturais mediante uma partilha comum de verdades particulares.

Se tomarmos a tradição do pensamento moderno ocidental, entretanto, a noção de verdade advém de um contrato social estabelecido com instituições socialmente credenciadas para arbitrar sobre determinados fatos e fenômenos. 

O maior flagelo derivado da pandemia foi revelar os interesses, convicções e práticas que orientam a atuação da classe médica brasileira

São as chamadas autoridades epistêmicas: aqueles que são treinados por meio de instituições para desenvolver competências sobre determinadas áreas do saber e produzir conhecimento. Referências que, se não apresentam a verdade propriamente, contribuem para reduzir dúvidas. O nome disso é Ciência.

Se quisermos aprender sobre epidemias, a sensatez moderna recomenda que consultemos um epidemiologista. Se o assunto for abalos sísmicos, um geólogo. Agricultura, um agrônomo. Nutrição, nutricionistas. Se questões de saúde, um médico, certo?

Errado. Ao menos no Brasil do bolsonarismo, temos uma flagrante ruptura contratual de confiança nesses que deveriam ser as referências para tratar de assuntos médicos. Tendo a defender que o maior flagelo derivado da pandemia no Brasil foi a revelação dos interesses, convicções e práticas que orientam a atuação da classe médica brasileira: o descompromisso com as evidências científicas e a promiscuidade político-ideológica que faz a ciência ser trocada pelo curandeirismo e pelo charlatanismo, à revelia do compromisso com os fatos, a verdade e, mesmo com os Direitos Humanos, outra obra da modernidade e do Liberalismo.

Chegamos ao ponto de entidades da classe, como o Conselho Federal de Medicina, abrigarem e defenderem o obscurantismo de práticas medievais e anticientíficas. Há exceções, obviamente. Mas são elas que confirmam a regra.

A quem ainda resta um pouco de humanidade e decência, o caso da operadora de saúde Prevent Senior, que tudo parece indicar ter abrigado um experimento nazista/mengeliano, é de revirar o estômago. Mas trata-se mais do apogeu de um processo iniciado há muito mais tempo, com requintes medonhos de crueldade e desumanidade, do que um evento isolado. Obviamente, ainda precisamos da devida apuração. Mas tudo parece indicar que há uma relação evidente entre ideologia e interesses governamentais nessa lama de atrocidades anticientíficas.

Voltando à questão central: a verdade se estabelece por meio de relações fiduciárias. No plano individual, não há distinções entre os diversos modos de se chegar à verdade: para buscar conhecimento, depositamos confiança em determinados indivíduos para buscar conhecimento. O religioso, em suas lideranças religiosas e livros sagrados, o antivacina nos posts que lê no Facebook ou no WhatsApp. E há o indivíduo que deposita confiança em autoridades científicas.

Como ensinam Russel Muirhead e Nancy L. Rosenblum no livro A Lot of People are Saying: The News Conspiracism and the Assult on Democracy (sem tradução para o português), a diferença entre esses grupos se dá nas características que definem a comunidade em que se aceita confiar. E é exatamente nesse ponto que encontramos uma diferença substantiva.

No caso da ciência, há uma comunidade definida por seu compromisso em tornar públicas as evidências em que suas conclusões estão baseadas e submetê-las ao escrutínio dos pares. Fosse Didier Raoult uma liderança religiosa e não um sujeito forjado e inserido na comunidade científica, seu estudo fraudulento sobre a eficácia da hidroxicloroquina teria se tornado um dogma a ser seguido. Mas, na ciência, reside o princípio da falseabilidade e do escrutínio dos pares – que não demoraram para detectar a farsa dos resultados publicados, como, mais à frente, demonstraram a ineficácia desses fármacos.

A desgraça dessa história reside no fato de que Raoult tornou-se, efetivamente, uma espécie de líder carismático, abraçado por públicos e lideranças populistas como Donald Trump e Jair Bolsonaro. Como nada é tão ruim que não possa piorar, autoridades a quem deveríamos depositar confiança sobre questões de saúde no Brasil seguiram este mesmo caminho de obscurantismo anticientífico.

Descobrimos (e muito antes do caso da Prevent Senior) que centenas de milhares de médicos preferem rifar as evidências científicas e adotar curandeirismos – que costumam chamar, numa clara distorção do conceito, de método observacional. Talvez eles sequer saibam a diferença entre evidência anedótica e evidência científica, entre realidade e idiossincrasias. Entre verdade e mentira.

Em maio de 2020, o infectologista Mauro Schechter relatou em entrevista ao jornal O Globo um episódio de recusa à hidroxicloroquina. Interpelado por um colega médico, ele afirmou: “Me respeite. Eu respeito a Ciência”. Na mesma entrevista, ele conta ele e seus colegas, aprendem muito pouco sobre verdade e métodos científicos nos cursos de graduação em medicina.

 

Os sinais estão todos aí. Temos uma crise epistêmica, de contornos obscurantistas, com requintes de perversidade, que afeta uma das classes profissionais mais importantes para, literalmente, a saúde de uma sociedade.

Eu, que ouvi a antiga pediatra de minhas duas filhas gêmeas dizer que tomaria cloroquina se pegasse Covid-19, enfrento uma crise de confiança em relação aos profissionais brasileiros de medicina. Não sei bem onde estamos e para onde vamos, mas tenho certeza de que ainda não consigo ver o fundo do poço.

O que sei é que a classe médica brasileira precisa criar frentes amplas e públicas de médicos comprometidos com a ciência e com os Direitos Humanos. Se montarem uma operadora de saúde com essas bandeiras e princípios – que, por força da natureza, é antibolsonarista na essência – é para lá que migro junto com minha família. Por enquanto, aceito recomendações de médicos com esse perfil. Alguém tem?

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, membro do Grupos de Pesquisa em Democracia e Justiça (Margem) e pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD).

Compartilhar postagem