Jorge Chaloub

Professor do Departamento de Ciência Política da UFRJ e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFJF

Opinião

O caso Master e as lições da Lava Jato

Assim como há dez anos, o maior efeito político do escândalo pode ser a difusão de um sentimento de terra arrasada, fértil para aventuras autoritárias

O caso Master e as lições da Lava Jato
O caso Master e as lições da Lava Jato
A história recente mostra que o maior efeito de grandes escândalos não é jurídico, mas político (Fotos: STF/Esfera Brasil/Marcelo Camargo-Agência Brasil/STF)
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O caso do Banco Master e a divulgação de conversas extraídas do celular de Daniel Vorcaro recolocaram a corrupção no centro do debate público. O episódio ganha ainda mais destaque pelo envolvimento de ministros do Supremo Tribunal Federal, sobretudo do mais conhecido entre eles, Alexandre de Moraes. Diante da retórica mobilizada e dos métodos utilizados, é inevitável olhar para o passado recente e para as consequências políticas acumuladas ao longo dos últimos dez anos.

A retórica anticorrupção é parte constitutiva da política, presente nas mais diversas latitudes e momentos históricos. E, em regimes democráticos, é impossível dissociá-la da disputa em torno dos usos do Estado, da apropriação de recursos públicos e das suspeitas de favorecimento de determinados grupos.

O problema surge quando a corrupção passa a colonizar o debate público, transformando-se no principal critério para julgar governantes, decidir eleições e avaliar políticas públicas. Nesse cenário, é comum o surgimento de atores que, a partir de um diagnóstico de desordem generalizada da sociedade e da política, propõem rupturas radicais que supostamente superariam a decadência moral do presente. Ao menos na América do Sul, esses movimentos costumam se vincular a diferentes matizes da direita e justificar a defesa de golpes de Estado. Talvez o exemplo mais célebre — a ponto de dar nome a um estilo de fazer política, o udenismo — seja a União Democrática Nacional, partido que transformou o combate à corrupção em sua principal bandeira e ajudou a construir o ambiente político que desembocaria no golpe de 1964.

Isso não significa que a corrupção seja um tema a ser evitado por governos e atores progressistas. Denúncias contra práticas corruptas fazem parte da história da esquerda brasileira, por vezes com resultados expressivos. O PT das décadas de 1980 e 1990, por exemplo, ganhou notoriedade com esse tipo de atuação — o que levou Brizola a chamá-lo ironicamente de “UDN de macacão”. O próprio brizolismo também construiu parte de sua trajetória política apoiado nesse tipo de denúncia. Evitar o conceito é uma armadilha: sugere receio e tende a produzir efeitos ainda piores. O que se exige, contudo, é atenção constante aos usos e métodos envolvidos em denúncias dessa natureza.

O problema já não é mais apenas a capa da Veja no sábado seguinte, mas a mensagem de WhatsApp que chega instantaneamente a milhões de celulares

A Lava Jato “inovou” ao combinar a divulgação seletiva de informações sigilosas por meio da mídia com uma estratégia de ataque a determinados alvos políticos, apresentados como peças centrais dos esquemas de corrupção. É importante notar que, não apenas nos discursos de Sérgio Moro e Deltan Dallagnol, mas também nas declarações de entusiastas da operação — como o ex-ministro do STF Luís Roberto Barroso —, a corrupção aparece não só como roubo de dinheiro público. Ela é descrita também como um desvio moral sustentado por certas crenças e valores políticos que, segundo essa narrativa, estariam na base da ordem social brasileira.

Declaradamente inspirada na Operação Mãos Limpas, a Lava Jato articulou uma coalizão política que reunia, de um lado, lideranças do Ministério Público, do Judiciário e das forças policiais e, de outro, setores influentes da mídia. Seja pelo volume de dados produzido pelas novas formas de comunicação, seja pela aceleração do tempo público provocada pelas redes sociais, houve uma radicalização da lógica do “escândalo”, processo já descrito nos trabalhos de Marcos Otávio Bezerra sobre a corrupção nos anos 1990.

Essa radicalização amplia o impacto das informações tornadas públicas e aumenta a discricionariedade de quem decide vazá-las. Diante do enorme volume de dados disponível, torna-se ainda mais fácil recortar aquilo que beneficia alguns e prejudica outros. Ao mesmo tempo, a velocidade dos meios de comunicação atuais torna os efeitos da circulação de informações praticamente imediatos e muitas vezes irreversíveis. O problema já não é mais apenas a capa da Veja no sábado seguinte, mas a mensagem de WhatsApp que chega instantaneamente a milhões de celulares — muitas vezes combinada a informações falsas produzidas com facilidade por meio da inteligência artificial.

Boa parte da imprensa evita enfrentar essas questões recorrendo a um discurso pronto (e ingênuo) de neutralidade diante dos acontecimentos, como se jornalistas não escolhessem ativamente seus temas, enquadramentos e prioridades. Trata-se de uma crença funcional para a prática jornalística, mas que pouco corresponde ao modo como a mídia efetivamente opera.

A profunda e histórica assimetria de preferências entre direita e esquerda no debate público brasileiro torna o tema da corrupção particularmente sensível em um ano eleitoral. Na dinâmica midiática, qualquer malfeito associado a alguém de esquerda costuma ser apresentado de forma direta, de modo que o acusado é prontamente identificado como político ou liderança de esquerda. Já a direita tende a perder sua identidade quando comete crimes: seus erros são frequentemente atribuídos ao “sistema” ou à “classe política” como um todo. Além disso, figuras identificadas ao empresariado ou ao mercado quase sempre recebem tratamento mais brando, enquanto lideranças políticas se tornam alvos de ataques mais explícitos e contundentes.

Reconhecer essas disparidades não significa ignorar problemas ou indícios de crimes. Os dados e eventos divulgados contra Alexandre de Moraes indicam fundamentos jurídicos mais que suficientes para a abertura de um processo de impeachment. Sua conduta, porém, está longe de ser excepcional entre seus pares no tribunal. O episódio também revela como mesmo figuras com trajetória associada à direita se tornam mais vulneráveis quando passam a ser publicamente vinculadas a pautas que, ainda que relacionadas à defesa da ordem democrática, acabam favorecendo candidaturas de esquerda. Do ponto de vista das carreiras públicas, é significativamente mais arriscado adotar posições simpáticas ao campo progressista.

Há, por fim, um desdobramento menos evidente — mas talvez ainda mais preocupante — do atual escândalo: a construção de um sentimento difuso de colapso social e de terra arrasada. Esse foi, anos atrás, um dos efeitos mais profundos da Lava Jato, que ajudou a pavimentar o caminho para a formação de uma coalizão de ultradireita e para a vitória eleitoral de Bolsonaro. A repetição desse enredo pode produzir consequências menos dramáticas, já que hoje falta o elemento de novidade que, à época, desconcertou parte das elites políticas. Ainda assim, continuamos a caminhar à beira do precipício: uma eventual vitória da oposição significaria a consagração de um projeto abertamente golpista. Mesmo desdobramentos aparentemente mais brandos, portanto, podem se revelar decisivos para o futuro da democracia brasileira.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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