Opinião

O carnaval como uma ode à resistência cultural

Que a festa nos amplie a criatividade, nos resgate a imaginação, nos ajude a sermos homens e mulheres novos, mais pacíficos

Foto: Luiz Felipe Bessa Secult-PE/Fundarpe
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“Sabe por que aquela conversa é tão chata? Porque estamos presos à boa educação, incapazes de falar a partir do coração. Qualquer conversa pode se tornar vivida e interessante se começarmos a falar com sinceridade.”
Haemin Sunim.

A experiência de carnaval em Porto Alegre é de limpeza étnica: negros e pobres, “haus”! Fora do centro!

Na sexta-feira, vivi uma cena histórica: um pequeno bloquinho, o “Areal da Baronesa”, oriundo do Quilombo da Baronesa, desafiou as forças do obscurantismo (sete carros da Brigada com suas luzes giratórias, mais uma meia dúzia de cavaleiros) e desfilou pelo bairro boêmio, a Cidade Baixa, onde se encontram três quilombos urbanos.

Uma bela experiência de ancestralidade que não se deixa vencer por políticas e políticos episódicos, passageiros, menores, em suma.

De fato, a festa é acima de tudo uma ode à resistência cultural de todo um povo, oprimido, escravizado e desterritorializado, mas não vencido.

No posfácio da nova edição de “Pai contra mãe”, de Machado de Assis, da editora Cobogó,

Bianca Santana nota: “…entre 2017 e 2021, 103 [crianças] foram assassinadas só no Rio de Janeiro, 90% negras. A tentativa de controlar o corpo das mulheres é prioridade, e isso nada tem a ver com a defesa da vida ou das crianças.”

A autora complementa: “Se o colonialismo belga inventou as etnias tutsi e hutu em Ruanda e ofereceu toda a condição para o genocídio tutsi, em 1994, no Brasil o colonialismo escravocrata colocou negros como capitães do mato e caçadores de escravizados fugidos no Brasil.”

Uma outra característica do carnaval é a gratuidade. Nada visa ao lucro; o que nele busca o lucro é apenas excrescência, como cachês cobrados para participações etc.

Destarte, só os seres providos do dom da gratuidade podem dele gozar.

São pessoas que fruem ao sentarem em um banco de praça, de bar ou de mureta.

Nesse sentido, o carnaval também tem muito do índio, de sua capacidade de contemplação gratuita.

Outra marca do carnaval é a descaracterização da masculinidade tóxica: homens se vestem de mulher e, dessa forma, desafiam os próprios limites do machismo, ideologia de dominação e opressão.

Que falta faz o carnaval a todas as latitudes e longitudes!

Como a dominação dos interesses; de homens sobre mulheres; da guerra sobre a paz ainda se faz presente!

Em “Pensamentos de paz durante um ataque aéreo” (editora Nós), Virginia Woolf reflete: “No alto do céu, jovens ingleses e jovens alemães lutam uns contra os outros. Os defensores são homens, os atacantes são homens. Não se dão armas à mulher inglesa, nem para lutar contra o inimigo, nem para se defender. Ela tem de se deitar desarmada à noite…Mas existe outra maneira de lutar sem armas pela liberdade; podemos lutar usando a mente.”

Interessante notar que em “O sistema e o antissistema” (editora Autêntica), Ailton Krenak, vai além das dicotomias ideológicas eurocêntricas, resgatando nossa originalidade cultural: “Foi assim com Pierre Clastres quando veio viver com os nossos povos indígenas aqui na América do Sul. Quando retornou para a Europa, após suas pesquisas com os Aché, foi trucidado pela crítica de esquerda porque disse que tanto o socialismo quanto o fascismo negavam a possibilidade de outros pensamentos. Clastres havia sido contaminado pelo pensamento ameríndio. Ele tinha sido contaminado por uma visão de viver no meio de um povo que dizia e que mostrava, na prática, que era uma sociedade que estranhava o estado. Ao livro que escreveu sobre isso, deu o título de ‘A sociedade contra o estado’, a sua obra clássica. O que Clastres estava dizendo é que ele conheceu um povo que desconhecia o aparato, que ficou tão bem constituído nesses últimos anos, que são os Estados nacionais, e que são máquinas de fazer guerra. Independentemente de elas estarem sendo manejadas pela direita ou pela esquerda, são máquinas de fazer guerra.”

Vale notar que não era outra a orientação do filósofo político Antonio Gramsci, como podemos aferir da biografia dele, elaborada por Angelo d’Orsi (editora Expressão Popular): “Lutar por um mundo novo sempre significou, para Antonio Gramsci, lutar pou uma nova cultura, ou seja, ‘por uma nova vida moral, que não pode deixar de ser intimamente ligada à uma nova intuição da vida, até que esta se torne um novo modo de sentir e ver a realidade…Ou seja, quando se põe no assunto da ciência política, Gramsci de fato se questiona sobre as condições objetivas, das quais pode surgir a vontade coletiva nacional-popular. Isso postula a necessidade de olhar as situações dadas historicamente, as lutas sociais concretas, as relações socioeconômicas, abrindo mão, de partida, da ideia de uma ‘ciência abstrata e normativa’, mas recorrendo a uma ‘precisa e aprofundada pesquisa histórica e socioeconômica…Muito diferente da ciência política burguesa, essa gramsciana visa a sua própria socialização, ‘como elemento capaz de dar às pessoas o poder de se autogovernar’…é o que chamamos de ‘o moderno’: o que é divorciado do passado, isto é, que se contrapõe também às formas do presente, no qual domina a passividade, a inércia, a rigidez.”

Que o carnaval nos amplie a criatividade; nos resgate a imaginação; nos ajude a sermos homens e mulheres novos, mais pacíficos; respeitosos das culturas alheias; mais amantes da justiça e da paz coletivas.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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