Para o presidente desta República, governar um país é como ‘descascar abacaxi’
Bolsonaro é engolido pela ignorância. Não pelo cansaço dos 100 primeiros dias. Ele voltou para uma tarefa que não conhece, entre tantas outras: fazer política com o Congresso.
Vai ter de ir à luta, enfiar a mão na lama. Trata-se de construir rapidamente o apoio do seu governo, ou melhor, do seu “abacaxi”. O vice-presidente Hamilton Mourão vai ajudar nessa missão. E não esconde o que se faz necessário: abrir espaço para conquistar aliados.
Mourão explica, com naturalidade, que os parceiros terão de ser aquinhoados “com cargos nos estados e em algum ministério”. É o que chamam de velha política, já que a nova não existe.
Por esta estrada também passou Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados pela segunda vez, após anunciar uma trégua entre ele e Bolsonaro. Troca de farpas. A emergência, no entanto, foi salva pelos “bombeiros” do Congresso. Com um senão: temporariamente.
Reclamam da falta de diálogo com o presidente. E vai ser assim. Bolsonaro não conhece uma boa parte dos parlamentares, senadores e deputados que pela primeira vez chegaram a Brasília.
“Ele é presidente do Sindicato dos Soldados”, disse o ex-prefeito carioca Cesar Maia, sobre a identidade política do presidente Jair Bolsonaro
O confronto entre o presidente da República e o da Câmara não é tudo. Na avaliação do Diap, “a polarização desta vez” se dará entre o PSL e o PT, “o primeiro representando (…) uma linha dura e o segundo representando a esquerda e o retorno às políticas sociais”.
Bolsonaro, certamente, tentará ser o que é. Um capitão da reserva que sempre espera a continência mesmo após deixar o quartel. Enquanto visitava Israel, incumbiu o ministro secretário de Governo, general Santos Cruz de almoçar com senadores. Amável conversa, que, no entanto, teve seu preço.

Bolsonaro e Araújo: Qual a graça (Foto: Marcos Côrrea/PR)
O ministro voltou para o Palácio carregando muitas demandas. Um dos convivas disse abertamente que o governo tem que dividir “ônus e bônus”. Ou seja, verbas para as bases, nomeações e soluções para os problemas regionais. Tem mais: querem convites para cerimônias, sobretudo nas de entrega de obras e equipamentos.
Santos Cruz disse aos repórteres que levaria uma lista de “uns 20 itens de interesse dos parlamentares”. “É o trabalho normal do governo”, explicou. É tradicional esse jogo de toma lá dá cá. Sem isso, a base política no Congresso não se consolida. Às vezes, até se desmancha.
É apenas um exemplo. Embora com sete mandatos de deputado nas costas, Jair Bolsonaro terá de virar político. Isto significa também engolir batráquios. Estará disposto a lidar com a receita indigesta?
Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.
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