Frente Ampla

Em 2023, o Brasil voltou

‘Reconstruir é muito mais difícil do que destruir. Mesmo assim, as vitórias do governo Lula em apenas um ano foram muitas’, escreve Jandira Feghali

Foto: Gustavo Lima/Câmara dos Deputaods
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Em 2004, cunhou-se durante o primeiro governo Lula criou uma frase emblemática: “Sou brasileiro e não desisto nunca”. Depois de todo o período de trevas e ameaças que vivemos nos últimos anos, foi desta frase que me lembrei ao ler as manchetes no último dia 19 de dezembro: “Brasil salta duas posições e se torna a nona economia do mundo em 2023”. Em seu mais recente relatório, o Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou nossa posição, que sob a terceira gestão de Lula superou Rússia, Canadá e as previsões pessimistas do “mercado financeiro” para voltar a figurar entre os maiores do mundo. A expectativa do mercado era de crescimento de apenas 0,8% no Produto Interno Bruto brasileiro em 2023. A realidade: um PIB de 3,1% e um país que busca voltar à normalidade.

As palavras não são minhas, mas da tradicional (e conservadora) revista britânica The Economist, ao destacar o Brasil por sua capacidade de resiliência na escolha do “País do Ano” de 2023.* “O Brasil empossou um presidente de centro-esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva, após quatro anos de populismo mentiroso sob Jair Bolsonaro, que espalhou teorias conspiratórias divisivas, mimou policiais violentos, apoiou agricultores que incendiaram florestas tropicais, recusou-se a aceitar a derrota eleitoral e encorajou seus devotos a tentar uma insurreição”, escreveu a revista.

Na realidade, não foram quatro, mas seis anos de grandes adversidades e retrocessos. De 2016 a 2022, uma sequência maquiavélica de acontecimentos nos levou à beira do abismo, e o Brasil se afastou perigosamente de si mesmo. Houve o impeachment fraudulento da primeira mulher a presidir o Brasil, em 2016 (na verdade, um golpe); dois anos depois, às vésperas de uma eleição presidencial decisiva, a prisão ilegal e célere do maior líder popular da nossa História, abduzindo Lula do processo eleitoral. Foi assim, roubando no jogo político, utilizando-se do lawfare, que nossa “elite” mais reacionária retornou ao governo central do país e se associou a um candidato autoritário, de extrema direita, que se revelou um completo e criminoso desastre.

O país foi jogado de volta a seu passado mais terrível. Voltaram a fome, o desemprego e a insegurança em milhões de lares. Retornaram com força o desmatamento, o garimpo ilegal, os crimes no campo, os ataques a indígenas e quilombolas. Aumentou  a discriminação e violência de gênero e raça. Uma produção exponencial de fake news na campanha e no decurso do governo trouxe de volta doenças já erradicadas e levou milhares a minimizarem uma pandemia letal que vitimou 700 mil pessoas. Voltou também o fantasma de uma ditadura militar, incentivada pelo conjunto da parcela mais selvagem, racista, misógina, homofóbica e corrupta do Brasil. Vivenciamos os momentos mais angustiantes e perigosos desde a redemocratização. Por tudo isso, ver o país chegar ao fim de um ano tão desafiador, como a nona maior economia global, confirma os novos tempos em que vivemos: o “normal” do Brasil é ter grandeza, autonomia e liderança.

Em nossa História, sempre houve os que investiram no povo brasileiro e os que apostaram contra a nossa população. Lula e sua base governista, ainda instável,  abraçamos a primeira opção, mesmo reconhecendo votações majoritariamente conservadoras em determinados temas e desafios. A oposição apostou na mentira, na pauta de costumes para tentar desviar o foco das denúncias e provas de corrupção e golpismo de Bolsonaro e seus seguidores. Nada construíram  para o bom desfecho do ano de 2023.

A equação é simples e já foi testada anteriormente: quanto mais se investe nas pessoas, melhores os resultados do país. Foi com o desempenho de programas como Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida que o Brasil deixou o mapa da Fome da ONU, em 2014. O Sistema Único de Saúde é referência mundial, capaz de inspirar até mesmo o tradicional National Health Service (NHS) britânico. Nossa cultura é igualmente exemplar: o Programa Cultura Viva, criado em 2004 e tornado política de Estado em 2014 com lei de minha autoria, hoje é replicado e amplificado pela  América Latina e já chegou à Espanha. As leis Aldir Blanc 1 e 2 e a lei Paulo Gustavo mudaram a política de fomento no país. A diplomacia brasileira, da mesma forma, sempre foi uma voz ativa no cenário internacional.

Com a transferência de renda e demais investimentos sociais enfraquecidos  nos anos Temer e Bolsonaro, a desigualdade social cresceu velozmente. Nosso lugar no mundo encolheu, tanto econômica como politicamente. O relatório do FMI é também uma lição e tanto aos adoradores do “deus mercado” que tanto apostaram (e apostam) contra o país – se é que ainda têm alguma capacidade de aprendizado e de enxergar saídas para o mundo além da velha cantilena neoliberal.

Eles não têm imaginação, mas nós, sim. Reconstruir é muito mais difícil do que destruir (e destruição é o único legado da era Bolsonaro). Mesmo assim, as vitórias do governo Lula em apenas um ano foram muitas – e imensas. No Congresso, conseguimos passar todas as pautas cruciais. A Reforma Tributária, aprovada após mais de 40 anos de tentativas frustradas, foi um passo histórico e fundamental para concretizar o Brasil mais justo com que sonhamos. No terceiro trimestre, a taxa de desemprego recuou a 7,7%, menor patamar para esse intervalo desde 2014. O salário mínimo voltou a ter aumento real, o programa Desenrola está livrando milhões de pessoas do endividamento e a taxação dos super-ricos agora é realidade, e precisa se consolidar com a nova etapa que precisaremos aprovar da reforma tributária progressiva.

As políticas de transferência de renda foram retomadas e ampliadas. O Governo zerou as dívidas do Minha Casa, Minha Vida para quem recebe Bolsa Família ou o Benefício Prestação Continuada. As bolsas estudantis e de pesquisa científica retornaram, inclusive para manter em sala de aula alunos e alunas do Ensino Médio, segmento que mais sofre com a evasão escolar. A inovação retomou seu caminho com investimentos mais robustos. A ciência voltou a ser referência das políticas públicas. O diálogo com a sociedade organizada foi retomado e os movimentos sociais com liberdade de reivindicar e cobrar avanços. Os moradores de rua ganharam uma política pública inédita. A Cultura agora conta com R$ 3 bilhões anuais para o fomento, assegurados pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) criada a partir de lei de minha autoria. A indústria audiovisual brasileira ganhou novo impulso com as cotas de ocupação nos cinemas e TV paga.O desmatamento na Amazônia foi reduzido em 22,3% em apenas um ano. Sem contar o trabalho excepcional e incansável no cenário internacional, da presidência do G20 ao resgate de brasileiros e familiares em Gaza.

Claro, ainda há muito a fazer. É preciso ter nítido o projeto nacional de desenvolvimento, executar plenamente o PAC com aumento dos investimentos. Após vencer as eleições e o golpismo bolsonarista, o novo governo se esforçou em um ano de retomada, sob o lema União e Reconstrução. Pusemos mãos à obra, e seguiremos firmes nesta batida. Não esqueceremos jamais dos repetidos ataques à nossa democracia, antes e depois do 8 de Janeiro, e seguiremos vigilantes até que o último golpista esteja na cadeia. Sonhamos com um Brasil que supere a fome, a desigualdade, desenvolvido, soberano e reforçando a cultura de paz e solidariedade. Trabalharemos incansavelmente para que 2024 seja um ano de consolidação das políticas do governo Lula, da renovação da esperança do nosso povo num mundo melhor. Um Feliz Ano Novo!

*A Grécia venceu a escolha do “País do Ano”. A eurocêntrica revista explicou que só não deu o “prêmio” ao Brasil por sua proximidade com Rússia e Venezuela. A Economist ainda não está prestando a devida atenção ao Sul Global.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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