O Brasil saiu mais plural das eleições

'Mais partidos governam; mais mulheres estarão nas câmaras legislativas; mais negras e negros; mais indígenas; mais LGBTI+s', escreve Rondó

Foto: Nelson Jr./ ASICS/ TSE

Foto: Nelson Jr./ ASICS/ TSE

Opinião

“As pessoas que tentam forçar as circunstâncias tornam-se suas escravas. As que as usam tornam-se seus senhores.”
O Talmude.

O Brasil saiu mais plural das recentes eleições municipais: mais partidos governam; mais mulheres estarão presentes nas câmaras legislativas; mais negras e negros; mais indígenas; mais LGBTI+s.

Não é esse o sentido e destino da “poli”s (“polis”, “cidade” em grego, mas também “poli”, prefixo que indica multiplicidade)?

Simbolicamente em senso contrário, o governo de ultradireita retirou o ipê da lista internacional de espécies ameaçadas.

Vale notar que o ipê é a árvore símbolo do Brasil.

Trata-se daquela que se sacrifica pelo coletivo, florindo no auge do inverno, da seca, superando o próprio instinto de sobrevivência para a perpetuação da espécie, de sorte a não interromper a polinização, fonte da fertilidade.

Para um governo cujo objetivo é a morte, a promoção da vida é, evidentemente, um acinte, que tem de ser eliminado também.

Pior, vemos retornar a inflação ao país, pela concentração de renda e riqueza, promovidas pelo desgoverno. Cabe, então, lembrar as palavras do Prêmio Nobel de Literatura, Willian Faulkner, em “Enquanto Agonizo”: “Em nenhum lugar deste mundo pecaminoso pode um homem honesto, trabalhador, ganhar alguma coisa. Quem ganha são os donos de lojas nas cidades, sem nenhum suor, vivendo à custa de quem sua. Não é o que trabalha duro, o lavrador. Às vezes penso por que insistimos. É porque existe uma recompensa para nós nas alturas, onde não podem levar seus carros e outras coisas. Todos os homens serão iguais lá e será tomado daqueles que têm e dado àqueles que não têm por Deus”.

Em “Dias e noites de amor e de guerra”, Eduardo Galeano nos recorda: “Orlando Letelier escreveu em The Nation que a economia não é neutra, nem os técnicos. Duas semanas depois, Letelier voou aos pedaços numa rua de Washington. As teorias de Milton Friedman significam, para ele, um Prêmio Nobel: para os chilenos, significam Pinochet.

Um ministro da Economia declarava no Uruguai: ‘A desigualdade na distribuição de renda é o que gera a poupança’. Ao mesmo tempo, confessava que as torturas o horrorizavam. Como vencer essa desigualdade se não for a golpes de choque elétrico? A direita ama as ideias gerais. Ao generalizar, absolve”.

Em “Odeio os indiferentes”, Antonio Gramsci, no artigo “A história é sempre contemporânea”, afirma: “O filósofo Croce escreveu um par de monografias para demonstrar que a ‘história’ é sempre, e não pode ser senão sempre, ‘contemporânea’. Um fato passado…deve ser repensado e neste repensamento se contemporaniza, uma vez que a valoração, a ordem que se dá aos seus elementos constitutivos depende necessariamente da consciência ‘contemporânea’ de quem faz a história mesmo passada, de quem repensa o fato passado”.

Nesse sentido, nas referidas eleições municipais, mais uma vez, a religião teve centralidade. Destarte, vale revisitar a obra de Fábio Régio Bento “Frei Betto e o Socialismo Pós-Ateísta”, em que cita Rosa Luxemburgo, a propósito do papel da religião na política: “A social-democracia não retira a fé de ninguém e não combate a religião. Ao contrário, exige a completa liberdade de consciência para cada um e o respeito a qualquer confissão e convicção. Mas se os padres se aproveitam do púlpito como meio de luta política contra a classe trabalhadora, os trabalhadores devem se voltar contra eles, como contra todos os inimigos de seus direitos e de sua libertação. Porque quem defende os exploradores e opressores e deseja eternizar esta ordem social abjeta é propriamente o inimigo mortal do povo, quer vista uma batina de padre ou um uniforme de polícia”.

Brilhantemente, Rosa Luxemburgo complementa: “…cada um é livre para ter sua fé e opinião, que lhe dê tranquilidade de espírito; e a ninguém é dada a liberdade para perseguir ou ofender a convicção religiosa de outras pessoas. É isto que defendem os social-democratas…A social-democracia considera que perseguição pela fé ou pela falta dela é uma barbaridade, indigna da liberdade cidadã e da civilização…a completa liberdade de consciência não existe onde alguma fé é considerada como do Estado”.

No entanto, alguns padres e pastores seguem fazendo proselitismo contra as forças progressistas, utilizando os púlpitos para fins de propaganda político-partidária.

De forma a valorizar a multiplicidade e a diversidade social, Rosa Luxemburgo arremata: “…é preciso que toda a massa popular participe. Senão o socialismo é decretado, outorgado por uma dúzia de intelectuais fechados num gabinete”.

As eleições municipais parecem ter demonstrado isso: o desejo do eleitorado em buscar a pluralidade, não colocando “todos os ovos na mesma cesta”, na aparente tentativa de diminuir as frustrações e na impossibilidade de suprimi-las totalmente.

Como nos recomenda o Talmude, entendamos as eleições e suas aparentes contradições, transformemos as frustrações em sabedoria, ajamos para que as cidades e o mundo, urbi et orbe, tenham mais consciência de si e do coletivo da criação, toda ela em grande risco.

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da Organização das Nações Unidas (ONU) e representante, alterno, do Ministério das Relações Exteriores no extinto Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

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