Amarílis Costa

Advogada, doutoranda em Direitos Humanos na Faculdade de Direito USP, mestra em Ciências Humanas, pesquisadora do GEPPIS-EACH-USP, diretora executiva da Rede Liberdade.

Opinião

O Brasil não disfarça mais o seu racismo

As histórias mudam, mas o recado é sempre o mesmo: corpos negros em movimento, em fé ou em fala são vistos como ameaça

O Brasil não disfarça mais o seu racismo
O Brasil não disfarça mais o seu racismo
A vereadora Cris Monteiro (Novo-SP). Foto: Lucas Bassi / REDE CÂMARA SP
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“Uma mulher branca, bonita e rica incomoda muito vocês.” A frase dita por uma vereadora, em plena Câmara Municipal de São Paulo, não foi apenas uma provocação infeliz. Foi a materialização de um devaneio da branquitude — esse lugar simbólico em que basta ser branca, rica e estar num púlpito para se sentir autorizada a falar em nome do mérito. Ao mandar que Luana Alves, vereadora negra, “calasse a boca”, Cris Monteiro não apenas expôs sua visão de mundo. Escancarou o racismo institucional que ainda tenta silenciar vozes negras nos espaços de poder.

Esse caso não é isolado. É apenas o episódio mais recente de uma sequência de violências que, embora distintas, têm o mesmo DNA. Antes dele, houve o assassinato do ambulante senegalês Ngagne Mbaye, morto a tiros por um policial militar no Brás, centro de São Paulo. Depois, a denúncia de que uma paciente em tratamento contra o câncer teve seus fios de orixá descartados em um hospital universitário no Rio de Janeiro. Também houve a abordagem violenta a adolescentes negros em um shopping de alto padrão em São Paulo. As histórias mudam, mas a mensagem permanece: corpos negros em movimento, em fé ou em fala são lidos como ameaça.

Os rolezinhos já haviam escancarado, há mais de uma década, como a presença de corpos negros e periféricos em espaços de consumo é lida como risco. Não se tratava apenas de segurança, mas de controle simbólico sobre quem pode circular, ocupar e pertencer. A ordem que define quem pode estar no shopping, no plenário, na calçada. Quem pode ser ambulante. Quem pode ter fé. Quem pode falar. Quando jovens negros entram coletivamente em centros comerciais, quando mães de santo reivindicam respeito nos hospitais, quando parlamentares negras denunciam privilégios históricos, há sempre uma reação. E essa reação é, quase sempre, violenta.

Como já apontava Lélia Gonzalez, o racismo no Brasil se sustenta também pela naturalização da exclusão. Quando se assume que o corpo negro, sobretudo o periférico, só pode ser visto como suspeito — como pivete ou trombadinha —, abre-se espaço para que o Estado o trate com absoluto desprezo. O racismo institucional se manifesta assim: nos silêncios que validam as violências, nas estruturas que seguem intactas mesmo após as denúncias.

Por isso, denunciar não basta. É preciso tensionar as estruturas que sustentam essa lógica. Isso passa por responsabilização, por transformação institucional, mas também por uma disputa de narrativa. Porque, enquanto a fala racista for tratada como opinião, enquanto o assassinato for visto como “excesso”, enquanto a intolerância religiosa for chamada de “equívoco”, o racismo seguirá sendo a regra — e não a exceção.

Se o Brasil não disfarça mais o seu racismo, também não cabe a nós disfarçarmos nossa resposta. É hora de nomear, confrontar e derrubar o que ainda sustenta a desigualdade como norma. Porque o que incomoda, no fim das contas, não é a beleza, a riqueza ou a fala. É o fato de que seguimos vivos — e seguimos lutando. O corpo negro é também território. Quando se move, reza ou fala, rompe as cercas do que foi historicamente delimitado para ele. É isso que incomoda tanto: o corpo negro insiste em existir com dignidade, mesmo quando o sistema tenta reduzi-lo ao silêncio.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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