Renato Meirelles

Comunicólogo, presidente do Instituto Locomotiva e fundador do Data Favela, autor de 'Um País Chamado Favela' e 'Como Ser Uma Empresa Antirracista'

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O Brasil fora da planilha

O mercado quer saber quem oferece previsibilidade. O eleitor quer saber quem conhece o perrengue

O Brasil fora da planilha
O Brasil fora da planilha
O ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD). Foto: Alexandre Gajardoni/PSD
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Eleições 2026

A Faria Lima anda procurando um candidato para chamar de seu. Romeu Zema e Ronaldo Caiado aparecem com frequência nesse radar por razões compreensíveis: têm experiência administrativa, defendem responsabilidade fiscal, falam a língua da gestão e procuram se apresentar como alternativa aos dois polos que dominam a política brasileira.

São credenciais que tranquilizam uma mesa de investidores. O problema é imaginar que elas produzam, automaticamente, identificação com o eleitor. Talvez a dificuldade comece justamente aí. A Faria Lima procura o candidato olhando para aquilo que considera importante para o País. O brasileiro que acorda cedo para trabalhar faz outra conta: quer saber se aquele sujeito entende alguma coisa da vida que ele leva.

O debate da Band e as entrevistas do JN ajudaram a mostrar isso. Quando a conversa era sobre gestão, gasto público ou eficiência, os candidatos estavam em terreno conhecido. Bastava a pergunta descer alguns andares – para o posto de saúde, a prestação da moto, a escola do filho ou o medo de voltar para casa – e aparecia a distância entre o candidato que tranquiliza o mercado e aquele reconhecido pelo eleitor.

Zema foi talvez o exemplo mais didático. Chegou com o receituário conhecido: cortar gastos, privatizar, reduzir o Estado. O brasileiro também se irrita com desperdício, imposto alto e serviço ruim. A dificuldade começa na pergunta seguinte: cortar onde? Quando a conversa chegou à Caixa, aos programas sociais, à saúde e à educação, o Estado de Zema começou a crescer. Depois de defender privatizações, reconheceu que não privatizaria a Caixa e chegou a descrevê-la como braço da assistência social.

Foi o Brasil real fazendo revisão de texto na ideologia. Quem tem dinheiro consegue terceirizar boa parte do Estado. Compra plano de saúde, escola, segurança, previdência. Para a maioria, ele pode ser burocrático e irritante, mas também é a vaga na creche, a consulta da mãe, o financiamento da casa e a polícia que precisa aparecer quando o problema chega.

As pesquisas do Locomotiva mostram há anos que a classe C nunca coube direito nessa discussão de Estado mínimo contra Estado máximo. Ela pode reclamar do imposto e usar o SUS. Pode vender pelo celular, sonhar com o próprio negócio e querer uma escola pública boa para o filho. Não há contradição aí. Há vida. A Faria Lima costuma enxergar esse brasileiro pela planilha e, depois, estranhar quando a planilha não vota.

Zema esteve melhor na tevê quando abandonou o economês e explicou que o gasto público descontrolado também aparece nos juros e na prestação mais cara da moto ou do celular. Ali houve tradução. O brasileiro não compra equilíbrio fiscal no supermercado, compra arroz, geladeira, remédio. Não paga prêmio de risco, paga boleto.

Caiado mostrou outra porta. Na segurança, conseguiu falar de um problema nacional como experiência cotidiana. Para quem mora na periferia, segurança não é Código Penal, é voltar do trabalho à noite, deixar a filha pegar ônibus e poder tirar o celular do bolso na rua. Nesse momento, Caiado parece menos um candidato desenhado para ocupar um espaço político e mais alguém falando sobre um pedaço reconhecível da vida brasileira.

O debate da Band deixou a contradição ainda mais curiosa. Lula e Bolsonaro não estavam ali. Era a oportunidade para os candidatos alternativos mostrarem que havia vida fora da polarização. A avenida estava aberta. Ainda assim, ninguém saiu dali dono da rua. Talvez porque a terceira via continue sendo construída de cima para baixo. O mercado quer saber quem oferece previsibilidade. O eleitor quer saber quem conhece o perrengue. O mercado pergunta quem organiza as contas do Estado. A maioria pergunta quem ajuda a organizar a vida. Lula e Bolsonaro, goste-se ou não deles, construíram esse reconhecimento. Seus eleitores sabem quais medos, raivas, esperanças e conflitos cada um representa. Já muitos dos candidatos vendidos como alternativa chegam com currículo e experiência, mas não respondem a uma pergunta elementar: por que alguém que acorda às 5 da manhã deveria se enxergar em mim?

Isso não se resolve contratando um marqueteiro melhor. Marketing pode trocar uma palavra, encontrar uma imagem, deixar um discurso mais simpático. Não consegue fabricar intimidade com um país que o candidato conhece apenas por PowerPoint. O problema da terceira via talvez não seja a falta de espaço entre Lula e Bolsonaro. O espaço existe, o que falta é ponte.

A Faria Lima continua procurando quem sabe organizar o Brasil na planilha. A eleição será decidida por quem convencer milhões de brasileiros de que conhece a vida fora dela. •

Publicado na edição n° 1428 de CartaCapital, em 02 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O Brasil fora da planilha’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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