O Brasil está à deriva

O cenário de terra arrasada antes da pandemia, sofreu uma parada traumática com a crise sanitária e fica mais complicado com possível apagão

Foto: Marcello Casal JrAgência Brasil

Foto: Marcello Casal JrAgência Brasil

Opinião

Divulgado esta semana, o resultado do PIB do segundo trimestre de 2021 — queda de 0,1% em relação aos trimestre anterior — é mais um dado preocupante em um país que que já anda tonto de receber más notícias.

 

 

 

Mas a queda do PIB, infelizmente, não é uma surpresa. Se a economia já ia muito mal antes da pandemia, o paradeiro econômico que começamos a viver com a chegada do coronavírus sempre exigiu uma política econômica inversa ao sadismo fiscalista que Bolsonaro e Paulo Guedes herdaram do governo Temer e se esforçaram em aprofundar.

Não é de agora que se vem alertando que o cenário econômico e social de 2021 seria desalentador.

Escorado em resultados positivos do PIB nos três trimestres anteriores ao tropeço agora divulgado, a dupla Guedes/Bolsonaro alardeava a “recuperação da economia”, como se escalar alguns metros de abismo pudesse dar conta da realidade: não existe crescimento econômico quando o povo está à míngua.

O cenário já era de terra arrasada antes da pandemia, sofreu uma parada traumática com a crise sanitária e fica ainda mais complicado com a real ameaça de um apagão energético.

Um apagão que, destaque-se, não será culpa de São Pedro, mas fruto da incúria e imprevidência do governo na gestão dos recursos hídricos.

Para temperar as trevas, temos a pertinácia do chefe do Executivo em fomentar a crise política.

Esse último ingrediente, aliás, expressa o cinismo do governo. De um lado, idolatra o arrocho e se empenha na retirada de direitos, alegando a necessidade de seduzir investidores. Do outro, age com afinco para tornar o Brasil um campo minado do qual qualquer investidor minimamente sério faz questão de manter distância.

Não acredito que aplastar direitos conquistados pelos trabalhadores ao longo de quase um século — direitos que foram essenciais para modernizar e civilizar o Brasil — seja uma prática que contribua para estimular a economia.
O mundo não se resume a uma carteira de investimentos. A saúde de uma economia deve ser medida pela prosperidade e bem-estar da população, não pelo resultado da rapina especulativa.

Mas, até mesmo do ponto de vista dos que celebraram as reformas trabalhista e da Previdência, as navalhadas na carne dos brasileiros e brasileiras tiveram um resultado decepcionante. O “projeto feudalismo” não decola.

Na última quarta-feira 1, o Senado enterrou mais uma ofensiva liberal contra os trabalhadores e trabalhadoras brasileiras. A Medida Provisória 1.045, vendida como panaceia para “gerar empregos para os jovens” foi rejeitada pelo expressivo placar de 47 votos contrários e 27 a favor.

O texto que chegou ao Senado trazia nada menos do que 69 “jabutis” (emendas que nada têm a ver com o objetivo original da matéria) e criava três novos regimes trabalhistas com vínculos precários e totalmente desidratados em direitos.

A maioria do Senado entendeu que não é a criação de novos regimes trabalhistas cheirando a Século 16 que vai criar empregos no Brasil.

O consumo das famílias é responsável por 60% do PIB brasileiro. Tanger o mercado de trabalho para o cercadinho da precariedade é um tiro na movimentação da economia e não cria novas ocupações. Apenas substitui os empregos qualificados, para os quais estão assegurados os mínimos civilizatórios — férias, 13º salário, aviso prévio, fundo de garantia.

A rejeição da MP 1.045 não resolve a nossa crise, mas é um fato a ser comemorado neste cenário tenebroso tecido pelo pior governo da nossa história.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É senador pelo PT do Rio Grande do Norte.

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