Roberto Amaral

robertoamaral@cartcapital.com.br

Cientista político, ex-ministro da Ciência e Tecnologia e ex-presidente do PSB. Autor de História do presente- conciliação, desigualdade e desafios (Editora Expressão Popular e Books Kindle)

Colunas

O Brasil deseja a paz, mas está despreparado para a guerra

Como pensar uma cultura de defesa se as questões centrais da soberania não são discutidas com a nação?

O Brasil deseja a paz, mas está despreparado para a guerra
O Brasil deseja a paz, mas está despreparado para a guerra
A cerimônia do Dia do Exército em 16 de abril de 2025. Foto: Ricardo Stuckert/PR
Apoie Siga-nos no

“Não podemos confiar no fato de que, por sermos um país pacífico ninguém vai nos atacar” – Celso Amorim (CartaCapital, 19/02/2026)

Maior país da América do Sul, com território de 8.510 km², partilhando fronteira com dez países, quinta maior população do mundo (215 milhões de habitantes), uma costa de 7.401 km (8.500 km se considerarmos as baías e suas reentrâncias), décima economia do planeta, o Brasil é, no entanto, incapaz de se proteger da cobiça internacional.

Em um mundo em guerra, apresenta-se indefeso, apesar de sua posição estratégica no hemisfério. Indefeso quando é a maior costa do Atlântico Sul, largo corredor de rotas comerciais que levam ao continente africano. Somos país e território militarmente indefeso, apesar de sermos um dos maiores produtores de alimentos de um mundo que conhece a fome. Ainda indefeso apesar da posse de recursos minerais estratégicos, entre os quais a segunda ou terceira reserva mundial de terras raras, cobiçada por todas as potências guerreiras, a começar, evidentemente, pelos EUA. Chama-se “terras raras” o conjunto de 17 elementos químicos, base de toda a moderna tecnologia, inclusive militar; delas carecem desde reatores de submarinos nucleares a baterias para veículos elétricos.

Nosso país é indefeso porque ignora seu destino: sem projeto de ser, sem projeto de nação, sem projeto de país — o trágico mal de origem.

Ao fim e ao cabo, o Brasil não tem política de defesa, simplesmente porque não carece de política de defesa país que renuncia à sua autonomia estratégica. E foi o que fizemos quando, após a Segunda Guerra Mundial e no curso da Guerra Fria — à qual aderimos sem nada termos a ver com ela —, nossa capacidade militar passou a ser concebida como ancilar do poderio do Pentágono, conformada como mera continuidade de uma dependência político-ideológica que, renovada, vem de longe, regada pelo cantochão da classe dominante de sempre.

Joaquim Nabuco, monarquista na República, nosso embaixador (1905-1910) e primeira voz do “panamericanismo”, diria, discursando em Washington: “A aproximação do Brasil com os EUA não é política de ocasião; é política de destino. Entre as nações americanas, o Brasil reconhece naturalmente nos EUA o centro de gravidade do sistema continental.” Os primeiros idos da República anunciavam sua história, da qual ainda não conseguimos nos desapartar.

Essa visão ideologicamente subordinada dos primeiros momentos da República (herdeira do Império) chega aos tempos da última ditadura. E nada mais significativo do que o sempre lembrado discurso do general Juraci Magalhães, outro embaixador brasileiro nos EUA (1964-1965), também em Washington, desta feita para empresários e, evidentemente, sem a elegância do tribuno pernambucano: “O que é bom para os EUA é bom para o Brasil”. Esta voz indicava o que seriam os 21 anos do regime fardado: tempos de absoluta hegemonia dos EUA, que ditariam nossa presença subordinada na ordem internacional e também o armamento com o qual nos deveríamos equipar, cerceando-nos de qualquer autonomia operacional, mesmo em caso de defesa.

Desgraçadamente, os discursos de Nabuco e do general Juraci não representavam arroubos pessoais; estão, ainda hoje, vivos nos círculos da alienada classe dominante brasileira, que comporta, além da Faria Lima e dos barões do agronegócio, setores atrasados da caserna e o lamentável Congresso Nacional que aí está, incansável na destruição da promessa de Estado social com a qual acenaram os constituintes de 1987.

Essa velha e persistente opção pela dependência — o “complexo de vira-latas” apontado por Nelson Rodrigues —, que nos persegue desde a Colônia, pervade toda a vida nacional. Está na narrativa ideológica que escamoteia a realidade, habita os gabinetes do poder e define o papel das Forças Armadas, necessariamente secundário frente às demais nações. Nesses termos, nossas fracas “forças” revelam-se incapazes de oferecer a um eventual agressor, senão o combate, ao menos a advertência do poder de dissuasão.

O que se segue, conta a história, são consequências inevitáveis da alienação política, como a recusa do País, em todas as suas instâncias, de trabalhar com a sociedade as questões essenciais da defesa, que não pode ser tarefa estrita das fileiras e não pode prescindir de sua principal arma: o povo — não um povo qualquer, mas uma coletividade unificada pela consciência de pertencimento e pela partilha de uma mesma história, ponto de partida para a construção de um destino comum.

A defesa de um país se faz, sabidamente, com armas e soldados adestrados, mas, imprescindivelmente, com o apoio de uma população mobilizada na defesa de sua visão de mundo. É preciso lembrar quem, no Vietnã, derrotou o maior exército do mundo moderno, ao contrário do que vimos recentemente em Caracas, com o “strike” cirúrgico que, em horas, reduziu a nada um governo sem o apoio popular que alardeava possuir?

Qual o debate que se trava em nosso país sobre o conceito de defesa nacional, para além da retórica dos hinos? E como falar em soberania se não dispomos de meios ideológicos e materiais para promovê-la, exatamente quando a ordem internacional se transforma em caos e a guerra se aproxima de nossas fronteiras, na Amazônia, enquanto a direita neofascista avança na região?

Como pensar uma cultura de defesa se as questões centrais da soberania não são discutidas com a nação?

As consequências dessa visão equivocada do que deve ser a política de defesa de um país com as nossas características são amplas: compreendem tanto a formação profissional e ideológica das tropas quanto a compra de armamentos estrangeiros, norma dos tempos da ditadura, quando o País, já colonizado ideologicamente, já doutrinados seus oficiais comandantes, “passou a depender inteiramente de material bélico comprado dos EUA e de outros países da Otan, não se esforçando para criar uma indústria nacional de defesa que lhe concedesse qualquer capacidade de proteção autônoma” (Jorio Dauster e Rubens Barbosa — Insigh-Inteligência).

Vence o complexo de vira-latas.

Quem não possui tecnologia e indústria próprias pode ter uma caserna numerosa e cara, mas não tem e não terá Forças Armadas.

Este é o nosso caso, como se demonstra a seguir.

Após a ditadura, buscamos alternativas, fizemos crescer a Embraer e várias outras indústrias de armamentos bélicos leves. Pouco avançamos neste plano, e muitas indústrias nacionais fecharam suas portas. Passamos a projetar aviões para uso civil e militar, dos Bandeirante aos Tucanos e aos KC-9, mas suas turbinas e a aviônica são importadas; o programa Gripen depende de tecnologia sueca e seus caças são equipados com turbinas importadas dos EUA. Dependemos da importação de sistemas sensíveis, como radares e sensores, satélites (para comunicação em geral e defesa) e infraestrutura, além dos componentes do futuro submarino de propulsão — e propulsão apenas — nuclear. Dependemos de satélites e de infraestrutura espacial de que carecemos, em face do fracasso do programa espacial brasileiro, decorrente de inumeráveis causas, entre as quais se destacam os embargos tecnológicos e comerciais dos EUA.

Sem força aeronaval, não temos condições de defender nossa integridade territorial e menos ainda podemos assegurar a defesa de nossa projeção marítima, resguardando seus recursos biológicos e minerais, como as reservas e as plataformas de petróleo e a rede de cabos submarinos de dados.

Ademais, é por esta via que se processa o comércio exterior brasileiro, e ela precisa ser protegida. Em poucas palavras: da defesa desse extenso litoral, que nos liga das fronteiras do Caribe à Patagônia, depende o controle da entrada de amigos e aventureiros.

Só recentemente e, assim, perigosamente atrasados, como quase sempre quando nos desafiam questões estratégicas, estamos, ainda lentamente, tentando ter em nossa frota o primeiro submarino de propulsão nuclear, movido a tecnologia francesa. Seu primeiro mergulho no mar está prometido para 2030.

Até lá, não podemos, a sério, cogitar da defesa de nosso litoral.

A dependência segue e, com ela, se esvai nossa segurança. Todo o nosso sistema de comunicação, não só privada e governamental, como as telecomunicações (internet e telefonia) e mesmo as comunicações militares, subordina-se a satélites operados por empresas estrangeiras e uma infraestrutura digital vulnerável (aliás, por que não adotamos, ainda, software livre na administração federal, se o próprio presidente reconhece que vivemos sob dominação digital?)

No plano militar, não há registro de mínima capacidade de defesa. A dependência de fornecedores estrangeiros, posto que estamos à míngua de produzir nossos equipamentos, implica submissão às políticas de guerra dos países que os abrigam, os quais exercem o poder de embargo do uso de armas e equipamentos.

Em poucas palavras, os países importadores carecem de autonomia operacional, mesmo para sua defesa, como, para dar um exemplo próximo, ocorreu na guerra das Malvinas, em 1982, quando os EUA impuseram à Argentina (atacada) o bloqueio de peças e suporte para armamentos de sua fabricação.

A regra é esta: o fornecedor de tecnologia e equipamentos, armas e munições de toda e qualquer natureza pode impor ao comprador restrições da mais variada natureza do emprego dos recursos fornecidos, e ditar contra quem podem e contra quem não podem. O fabricante, ao seu talante, pode suspender o fornecimento de peças de reposição e munição. A capacidade de defesa do país importador cessa, dependente que se torna de suporte externo, condicionado por interesses político-militares que lhe são alheios e podem ser antagônicos.

Sem autonomia tecnológica e industrial, sem autonomia para o uso de suas ferramentas, não há capacidade de defesa, porque não há mais Forças Armadas dignas do nome.

Os importadores de tecnologia, equipamentos e armas, (o lamentável caso brasileiro) não possuem poder de dissuasão diante de uma ameaça, e não há justificativa para supor que esta hipótese, a necessidade de defesa militar, esteja fora de cogitação, simplesmente porque alardeamos nosso pacifismo em um mundo em guerra, uma guerra com a qual já convivemos.

É fato que, relativamente aos demais países cuja economia ou importância são nossas irmãs, o Brasil gasta pouco com suas forças; mas esta não é a verdade toda, nem o fulcro da questão, que reside no escandaloso desvio de finalidade do orçamento militar, que, originalmente destinado a custear as forças, isto é, à nossa defesa, se converteu em mero e injustificável fundo de pensões.

Assim: quando o orçamento da Defesa é o quinto maior do País, a saber, 133 bilhões de reais para o presente exercício, os gastos livres correspondem a menos de 10%, porque o que deveria ser destinado ao aparelhamento e modernização de nossos meios de defesa e adestramento da tropa é, irresponsavelmente, consumido com pessoal e encargos sociais, com destaque para inativos e pensionistas.

Deste modo, o que deveriam ser Forças Armadas adestradas e equipadas para defender o País (afinal, é para tais finalidades essenciais que foram inventadas e são sustentadas pelo contribuinte de um país que ostenta uma das maiores desigualdades do mundo), consiste, como observam Jorio Dauster e Rubens Barbosa, em “mais um instrumento de amparo social do que uma máquina bélica”.

Não há nem como nem por que escamotearmos a realidade dos dias presentes. Já convivemos com a guerra, repito, em seus variados contornos; seus desdobramentos políticos e econômicos percorrem o mundo organizado pela ordem capitalista intercomunicante e interdependente.

É certo que seu principal teatro, hoje, é o Golfo Pérsico, enquanto persistem o genocídio do povo palestino, os ataques ao Líbano, os assassinatos seletivos do sionismo no Irã. Mas estão à vista e presentes seus efeitos, para além do horror vivido pelas vítimas imediatas. Seus desdobramentos são planetários e já chegaram ao nosso continente, estão entre nós, ao Norte, na fronteira amazônica, e ao Sul, pois chegam à Tríplice Fronteira, com os já anunciados e ainda pouco conhecidos acordos firmados pelos EUA com o Paraguai, com quem dividimos Itaipu, que nos fornece algo como 10% de toda a energia elétrica que consumimos. Do pouco conhecido, nossos vizinhos terão cedido espaço para a presença de agentes e bases militares americanas, treinamento de suas tropas e instalação de centro “antiterrorista” próximo à fronteira.

É óbvio que essa presença militar, que não ficará por aí, altera o equilíbrio estratégico regional, e é óbvio que somos ou seremos o país mais afetado, e é plausível supor, ainda, que estamos no centro dessa operação.

Por sem dúvida que o Brasil é alvo de uma guerra híbrida, esta que compreende ameaças claras e veladas de intromissão na política interna, conhece o lawfare, exerce pressões políticas e econômicas (como o tarifaço) e impõe sanções as mais variadas. Nada, porém, que já não tenhamos conhecido.

É de bom conselho ter presente nossa história recente, e a presença dos EUA dando andamento a eventos como o golpe de 1º de abril e a ditadura que promoveu. A preeminência do colonialismo britânico, definindo o Império, dá as cartas na República.

Depois do tarifaço e das pressões políticas, Washington, que opera ao mesmo tempo com a ameaça da violência militar clássica e os instrumentos da guerra híbrida, com a força que o poder de gendarme do mundo que exibe, anuncia para breve declarar como terroristas os grupos que no Brasil comandariam o tráfico de drogas (PCC e CV), como já fez com outras tantas quadrilhas de outros tantos países, no México e no Caribe, com as consequências que estão nos jornais. Elas têm compreendido sanções internacionais (como bloqueio financeiro global), operações extraterritoriais e outras ações militares e operações encobertas, geralmente levadas a cabo pela CIA. Assim sempre agiram, aqui e no mundo. Mas é possível adicionar um fato novo, agravante para a paz e para o convívio pacífico entre povos e Estados, que é a coordenação, pela Casa Branca, da “internacional neofascista”, capacitada a intervir na domesticidade e na vida política de praticamente todo o mundo, por todos os meios, desde a intimidação, as sanções e os embargos até a guerra militar. Mas não é só. Essa internacional, que não economiza meios ilegais de agir, tem atrás de si a maior potência econômica e militar jamais conhecida pela humanidade.

O Brasil não está fora do mundo e pagará muito caro se, ingenuamente, se recusar a conviver com a realidade.

A opinião de colunistas e convidados não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , , , , , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Depois de anos bicudos, voltamos a um Brasil minimamente normal. Este novo normal, contudo, segue repleto de incertezas. A ameaça bolsonarista persiste e os apetites do mercado e do Congresso continuam a pressionar o governo. Lá fora, o avanço global da extrema-direita e a brutalidade em Gaza e na Ucrânia arriscam implodir os frágeis alicerces da governança mundial.

CartaCapital não tem o apoio de bancos e fundações. Sobrevive, unicamente, da venda de anúncios e projetos e das contribuições de seus leitores. E seu apoio, leitor, é cada vez mais fundamental.

Não deixe a Carta parar. Se você valoriza o bom jornalismo, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal da revista ou contribua com o quanto puder.

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo