Luiz Gonzaga Belluzzo

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Economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

Opinião

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O americanismo dos americanos

A embriaguez dos donos do dólar é o calvário dos emergentes

 Foto: Fernanda Carvalho/Fotos Públicas  Foto: Fernanda Carvalho/Fotos Públicas
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Abrimos a coluna com as palavras da secretária do Tesouro dos Estados Unidos, Janet Yellen, pronunciadas, dia 14 de abril, em evento do American Council:

“Nós, os países sancionadores, estamos dizendo à Rússia que, tendo exibido as regras, normas e valores que sustentam a economia internacional, não estenderemos mais a você o privilégio de negociar ou investir conosco.

“Ao nos unirmos, demonstramos que essas sanções não são motivadas pelos objetivos da política externa de nenhum país. Em vez disso, estamos agindo em apoio aos nossos princípios – nossa oposição à agressão, à violência generalizada contra os civis e em alinhamento com o nosso compromisso com uma ordem global baseada em regras que protegem a paz e a prosperidade.”

Na sequência, Yellen vai no gogó: “Não podemos permitir que os países usem sua posição de mercado em matérias-primas, tecnologias ou produtos importantes para ter o poder de perturbar nossa economia ou exercer uma alavancagem geopolítica indesejada”.

Yellen desenvolve uma parábola geopolítica prenhe do americanismo globalista e imperial, sestro cognitivo que acompanha invariavelmente o cosmopolitismo dos servidores de Tio Sam. Janet Yellen indispõe-se contra o poder de mercado dos produtores de “matérias-primas e outros produtos importantes”, mas escondeu o poder do dólar, força maior do poderio americanista. Também ocultou as intervenções democráticas perpetradas pelo americanismo desde a Guerra da Coreia, em 1950, até o Iraque, em 2003. Tampouco se lembrou dos golpes militares na América Latina guiados por princípios “morais e democráticos”.

Imediatamente lembrei-me da crítica desferida por um economista brasileiro ao artigo escrito por Fernando Haddad e Gabriel Galípolo. Os autores trataram de apresentar sugestões a respeito da formação de um espaço monetário regional – o SUR – nos pagos da Sul América. O iluminado anti-iluminista dos trópicos apontou o antiamericanismo como inspiração fundamental da proposta de ­Haddad-Galípolo. Explico: iluminado anti-iluminista caracteriza o pensamento binário de muitos que ignoram as contribuições dos filósofos do Esclarecimento.

Vou citar Peter Gay: “Voltaire escreveu em uma correspondência privada que sabia odiar porque sabia amar”. O antiamericanismo é o “outro” do americanismo. Saber odiar é saber amar.

A parábola americanista de Yellen estimulou também minhas inquietações. Elas se agitaram para instigar fabulações a respeito das relações entre o poder do dólar, o movimento de capitais e instabilidades nas economias ditas emergentes.

Nos tempos da finança global livre, leve e solta, a receita aviada nos laboratórios da sabedoria global passou a recomendar a abertura financeira para gregos e troianos. Os que advogaram tal providência partiam de um pressuposto duvidoso: na assembleia das moedas nacionais, todos os gatos são pardos.

A ideia não leva em conta as “imperfeições” que perturbam o mundo real: 1. O sistema monetário global é constituído por uma hierarquia de moedas, umas mais “líquidas” do que as outras. 2. Em todos os sistemas monetários conhecidos, inclusive no padrão-ouro, a moeda que denomina e liquida contratos e transações internacionais é a moeda do país hegemônico. 3. A ideia keynesiana de uma moeda verdadeiramente internacional foi derrotada em Bretton Woods.

Para simular as relações entre a volatilidade das moedas não conversíveis e os movimentos de capitais, imaginei uma família cujo pai é frequentador de cassinos clandestinos e alcoólatra. Todos os dias, os dois vícios encaminhavam esse cidadão para a jogatina. No permanente jogo de perde-ganha, as finanças da família ficaram em frangalhos. Durante o jantar, o bebum acusa o filho de desperdiçar dinheiro com a compra de roupa e livros para ir à escola.

Não preciso explicar ao leitor de ­CartaCapital que o pai faz o papel dos mercados financeiros internacionais, instáveis e voláteis, e o filho desempenha o dos países emergentes, sempre acusados de serem gastadores e fiscalmente irresponsáveis.

Nas economias de moedas sem reputação e “ilíquidas”, a abertura financeira tende a produzir ciclos de euforia e depressão. Valorizações indesejadas da moeda nacional são seguidas de desvalorizações abruptas e crises nos mercados financeiros domésticos.

Nos momentos de contração da liquidez internacional, ainda que a adoção de um regime de taxa de câmbio flutuante seja capaz de absorver, em parte, os choques, as autoridades do país de “moeda fraca” – com “ponto de compra” imprevisível – serão obrigadas a usar as reservas ou subir as taxas de juros para impedir uma derrocada do câmbio. Se as reservas são escassas, o preço a pagar é o ajustamento recessivo.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1205 DE CARTACAPITAL, EM 27 DE ABRIL DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “O americanismo dos americanos”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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