Marjorie Marona

Professora de Ciência Política da UNIRIO e pesquisadora do QualiGov - Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Qualidade de Governo e Políticas Públicas para o Desenvolvimento Sustentável.

Opinião

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O alerta de Wagner Moura

Em um país atravessado por traumas autoritários mal elaborados, defender a democracia é também disputar a memória

O alerta de Wagner Moura
O alerta de Wagner Moura
Wagner Moura, o primeiro ator brasileiro a vencer o Globo de Ouro como melhor ator de drama na categoria masculina – foto: Etienne Laurent/AFP
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O discurso de Wagner Moura ao receber o Globo de Ouro por sua atuação em O Agente ­Secreto repercutiu muito além do cinema. Ao dizer que o filme fala sobre memória – e sobre a falta dela – e sobre traumas que atravessam gerações, Moura tocou em um ponto sensível da democracia brasileira. Poucos dias após mais um 8 de Janeiro, marco simbólico da crise causada pelos repetidos ataques bolsonaristas às instituições republicanas, a mensagem ganha ainda mais força: democracias não caem apenas quando eleições são canceladas, mas quando seus valores deixam de ser transmitidos, cultivados e defendidos de geração em geração.

Num país que viveu recentemente uma tentativa explícita de golpe de Estado, a preocupação com o calendário eleitoral é compreensível – e necessária. Mas não basta. Democracia não é só votar de tempos em tempos. Ela depende de um conjunto mais amplo de compromissos: igualdade política, inclusão, participação real, debate público, mecanismos de responsabilização e autonomia cidadã. Quando esses valores se desgastam, o regime pode até continuar existindo no papel, mas por dentro vai se tornando vazio, frágil e cada vez mais exposto a projetos autoritários.

O Brasil vive hoje essa tensão. De um lado, demonstrou notável resiliência institucional. O sistema eleitoral funcionou, o resultado das urnas foi reconhecido e instituições centrais atuaram para conter a ruptura e responsabilizar seus agentes. Essa resistência não deve ser minimizada. Em contextos de erosão democrática, a preservação da institucionalidade é condição necessária para qualquer reconstrução. Sem eleições íntegras e garantias ao Estado de Direito, não há sequer terreno para disputar valores.

Mas há uma outra face do problema, ainda mais desconfortável: por que uma parcela significativa da sociedade brasileira passou a tolerar (ou até justificar) a destruição da democracia? Como o ataque às instituições pôde ser narrado como um gesto “patriótico”? A resposta não está apenas nas regras do jogo, mas no terreno dos valores: aquilo que uma sociedade aprende a considerar legítimo, aceitável e desejável na vida política.

É assim que surgem democracias que permanecem de pé externamente, mas se enfraquecem internamente. As eleições acontecem, mas a desigualdade de voz e influência cresce. Direitos existem, mas não se concretizam. A participação se torna retórica. E o debate público é capturado pela desinformação e pela lógica do conflito permanente, em que o adversário se transforma em inimigo. Aos poucos, a igualdade política se corrói — não por um golpe único, mas por desgaste contínuo.

O bolsonarismo prosperou exatamente nesse ambiente. Alimentou-se da frustração com instituições vistas como distantes, da sensação de abandono material e simbólico e da erosão da confiança pública. Transformou ressentimento em identidade e trauma em revanche. E, mesmo derrotado nas urnas, preservou ­capacidade­ de mobilização antidemocrática.

Por isso, o desafio democrático brasileiro não termina com a realização de eleições. Ele exige um esforço contínuo de reconstrução de valores. Democracia precisa voltar a significar, na prática, que todas e todos contam, que o conflito político tem regras, que adversários não são inimigos, que o poder deve poder ser controlado e cobrado, que mentira sistemática e violência política não podem ser tratadas como alternativas legítimas.

Esse trabalho é mais lento e menos visível do que proteger instituições, mas é igualmente urgente. Ele passa por organizar democraticamente o espaço informacional, enfrentar desigualdades e fortalecer formas de participação que tenham peso real nas decisões públicas. E passa, sobretudo, pela disputa da memória: lembrar o que foi a ditadura, o que são golpes de Estado e os custos humanos e sociais de deixar a democracia se esvaziar por dentro.

A democracia não morre apenas quando tanques ocupam as ruas. Ela se desfaz aos poucos, quando deixa de ser ensinada, praticada e acreditada. Em um ­país atravessado por traumas autoritários mal elaborados, defender a democracia é também disputar a memória: o que lembramos, o que esquecemos e o que aprendemos com o passado. Nesse processo, a cultura tem um papel insubstituível: ela cria linguagem, repertórios e afetos capazes de transformar sofrimento em consciência pública. No Brasil de hoje, proteger a democracia vai além de garantir eleições e instituições em funcionamento. É reafirmar, cotidianamente, os valores que lhes dão sentido. •

Publicado na edição n° 1396 de CartaCapital, em 21 de janeiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O alerta de Wagner Moura’

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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