Luiz Gonzaga Belluzzo

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Economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

Opinião

No auge do despencar das bolsas, quem está disposto a comprar?

A crise chegou no coração do sistema de crédito. Contaminou o âmago do mercado monetário

Foto: Jorge Araújo/Fotos Públicas
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O Federal Reserve informa: vai despejar 1,5 trilhão de dólares no mercado de operações compromissadas, também conhecido como Repo, onde ocorrem as operações de Repurchase Agreement. Esse mercado regula as operações entre instituições financeiras no curtíssimo prazo. Se a instituição A precisa de grana no curto-prazo, oferece um título seguro (elegível) para a instituição B que “aluga” o papel por alguns dias, mediante a cobrança de uma taxa de juro.

O jornal Valor também informa: “Na reunião de hoje, o Conselho do Banco Central Europeu anunciou um pacote de medidas de política monetária, começando pela ampliação do programa de compras de ativos. Serão feitas compras adicionais de ativos líquidos de 120 bilhões de euros até o final do ano, “garantindo uma forte contribuição dos programas de compras do setor privado”, diz o comunicado.

Na auge do despencar das Bolsas de Valores, a tigrada dos mercados está à cata de um distraído disposto a comprar. Como disse um entrevistado da Globonews, para espanto de seus doutos comentaristas, nesse momento todos querem vender. (Ah é, é? Rumina o distraído. “Sempre me disseram que os mercados são eficientes, os preços respondem aos fundamentos. Agora tudo indica que eles respondem aos afundamentos.)

A crise chegou no coração do sistema de crédito. Contaminou o âmago do mercado monetário. No âmbito das transações de liquidez entre às instituições a grana está secando. Os mais parrudos sussurram para os mais fracotes: “Como não conheço sua situação, tenho medo de te financiar.”

Quando tudo vai bem, os felizes gestores da riqueza acham que ativos sob sua administração ou as mercadorias que produzem são dinheiro ou podem virar dinheiro sem perda de valor. Quando o bicho pega, só o dinheiro em sua natureza de instituição pública salva a derrocada dos dinheiros privados.

Conta o site Zero Hedge que depois do anúncio do Fed, a captação foi de minúsculos 15,7%. As instituições detentoras dos títulos só enviaram US$ 78,4 bilhões para a operação de recompra de 3 meses de hoje que oferecia US$ 500 bilhões. Assim, as ações caíram de volta para as mínimas da sessão …

Do alto de minhas dúvidas imagino que a incerteza atingiu o ápice e as instituições preferem encostar o traseiro na parede e guardar os títulos do Tesouro americano como reserva de valor. Isso aliás atesta a sua qualidade de quase-moeda.

O capítulo XVII da Teoria Geral de John Maynard Keynes é uma digressão sobre as decisões sobre a posse da riqueza na economia capitalista. A avaliação prospectiva dos ativos reais e financeiros está subjugada à incerteza radical quanto à possibilidade da conversão dos valores à forma geral da riqueza.

“Este é o resultado inevitável dos mercados financeiros organizados em torno da chamada ‘liquidez’. Entre as máximas da finança ortodoxa, seguramente nenhuma é mais antissocial que o fetiche da liquidez, a doutrina que diz ser uma das virtudes positivas das instituições investidoras concentrar seus recursos na posse de valores ‘líquidos’. Ela ignora que não existe algo como a liquidez do investimento para a comunidade como um todo. A finalidade social do investimento bem orientado deveria ser o domínio das forças obscuras do tempo e da ignorância que rodeiam o nosso futuro. O objetivo real e secreto dos investimentos mais habilmente efetuados em nossos dias é ‘sair disparado na frente’ como se diz coloquialmente, estimular a multidão e transferir adiante a moeda falsa ou em depreciação”.

Prossegue Keynes: “Esta luta de esperteza para prever com alguns meses de antecedência as bases de avaliação convencional, muito mais do que a renda provável de um investimento durante anos, nem sequer exige que haja idiotas no público para encher a pança dos profissionais, a partida pode ser jogada entre estes mesmos. Também não é necessário que alguns continuem acreditando, ingenuamente, que a base convencional de avaliação tenha qualquer validade real a longo prazo. Trata-se, por assim dizer, de brincadeiras como o jogo do anel, a cabra-cega, as cadeiras musicais. É preciso passar o anel ao vizinho antes de o jogo acabar, agarrar o outro para ser por este substituído, encontrar uma cadeira antes que a música pare. Esses passatempos podem constituir agradáveis distrações e despertar muito entusiasmo, embora todos os participantes saibam que é a cabra-cega que está dando voltas a esmo ou que, quando a música para, alguém ficará sem assento”. (Keynes, Teoria Geral, p.129, 1936)

Luiz Gonzaga Belluzzo

Luiz Gonzaga Belluzzo Economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

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