No aniversário de Martin Luther King, “I Have a Dream” permanece mais atual do que nunca

'Não poderemos estar satisfeitos enquanto a mobilidade básica do negro for passar de um gueto pequeno para um maior'

No aniversário de Martin Luther King, “I Have a Dream” permanece mais atual do que nunca

Opinião

Outubro de 2016. Ao lado da minha amiga Chris assisti a “O Topo da Montanha”, peça belíssima baseada no último discurso de Martin Luther King. A atuação magistral de Lázaro Ramos e Taís Araújo levou o Palácio das Artes, que estava lotado, às lágrimas. Terminada a apresentação em Belo Horizonte, ninguém ia embora. Com todo mundo de pé, um dos maiores teatros da América Latina foi tomado por uma salva de palmas que parecia não ter fim. Foi uma noite memorável.

 

 

Nesta semana, concedi uma entrevista a respeito do legado de Martin Luther King para a educação, por isso lembrei de “O Topo da Montanha”. Pesquisando na internet, descobri que 15 de janeiro é o dia do aniversário do ativista afro-americano nascido em Atlanta (1929), que nos anos 1960 foi imortalizado em razão de sua luta pelos direitos civis.

A entrevista foi a deixa para que eu relesse “I Have a Dream” (“Eu Tenho um Sonho”), discurso mais famoso de Martin, ouvido em Washington por mais de 250 mil pessoas. Quase seis décadas depois, as palavras do pastor da Igreja Batista, que influenciou os desejos de liberdade e do fim do racismo no mundo inteiro, permanecem mais atuais do que nunca, principalmente quando se trata da realidade brasileira.

Em 28 de agosto de 1963, Martin Luther King disse: “A vida do negro está ainda infelizmente dilacerada pelas algemas da segregação e pelas correntes da discriminação. (…) O negro ainda vive numa ilha isolada de pobreza no meio de um vasto oceano de prosperidade material”.

Infelizmente, essas palavras são um retrato bem acabado da realidade dos negros no Brasil. Apesar dos impactos positivos das políticas de combate à pobreza e de enfrentamento ao racismo promovidas, sobretudo, na primeira década dos anos 2000, a população negra ainda é submetida a condições precárias de existência, colocando-a na parte mais baixa da pirâmide social, com grandes dificuldades de acesso ao emprego, à moradia, à educação e aos mecanismos de Justiça.

No discurso, Martin denunciou a violência policial, um dos maiores desafios do Movimento Negro na atualidade. Estudos de órgãos governamentais e de organizações da sociedade civil dão conta de que um verdadeiro genocídio está em curso no País. Os alvos preferenciais já não são apenas os jovens negros, mas também meninos e meninas, que têm sido executados antes mesmo de terminar a primeira infância. Somente em 2020, 12 crianças negras foram mortas no Rio de Janeiro. Todas residiam em vilas e favelas. A política de extermínio se revela nas perfurações provocadas pelos tiros de fuzil. As primas Emily e Rebeca, assassinadas enquanto brincavam na porta de casa em uma comunidade de Duque de Caxias, foram atingidas na cabeça e no coração.

Mesmo num contexto de segregação racial e de ódio contra a comunidade negra estadunidense, Martin Luther King defendeu a não violência, a união dos povos e a necessidade de manter vivo o sonho de uma sociedade sem racismo e sem opressão: “Eu tenho um sonho de que meus quatro pequenos filhos um dia viverão em uma nação onde não serão julgados pela cor da pele”. Esse continua sendo um desejo de todos aqueles que lutam por uma educação antirracista, uma vez que pesquisas, depoimentos e dados referentes ao êxito escolar revelam que as crianças negras têm sido “apedrejadas moralmente” nas escolas.

Embora o cenário atual seja extremamente hostil à causa negra, com o desmanche de políticas públicas de promoção da justiça racial, com declarações racistas por parte de lideranças políticas, com tentativas de intimidação e deslegitimação de figuras históricas do Movimento Negro, “I Have a Dream” nos ensina que a luta deve ser constante.

Conforme apontou Martin Luther King, jamais devemos estar satisfeitos: “Não estaremos satisfeitos enquanto o negro for vítima dos indescritíveis horrores da brutalidade policial. (…) Não poderemos estar satisfeitos enquanto a mobilidade básica do negro for passar de um gueto pequeno para um maior. Não podemos estar satisfeitos enquanto nossas crianças forem destituídas de sua individualidade e privadas de sua dignidade. (…) Não haverá nem descanso nem tranquilidade (…) até o negro adquirir seus direitos como cidadão”.

Viva Martin Luther King!

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. Atualmente tem se dedicado à Formação Inicial e Continuada de Professores. É autora do livro Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula, lançado em 2018 pela Mazza Edições.

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