Diversidade

‘Ninguém dança sozinho’: a intelectualidade do pensamento negro e o movimento contínuo em nós

Separação entre corporeidade e intelectualidade não está presente na sabedoria yorubá

Festa de Iemanjá, 2018. Foto: Paula Fróes/GOVBA
Festa de Iemanjá, 2018. Foto: Paula Fróes/GOVBA
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Os pais brancos nos disseram, “eu penso, logo existo”, e a Mãe Negra em cada um de nós — a Poeta — sussurra em nossos sonhos, “eu sinto, logo, posso ser livre”.

– Audre Lorde

Eu fui uma adolescente que adorava dançar. A genialidade circunscrita na carne do corpo gerava fascínios em mim. Mas eu não dançava. O meu corpo tremia ante a imensidão do som, dos instrumentos musicais diversos, das batidas do Rock ou do Samba e suas raízes negras; profundas e secretas. Eu não dançava, pois estava convencida de que não poderia fazê-lo e que ao transgredir tal ordem em meu imaginário, abandonaria a minha inteligência; e teria de abdicar da relés humanidade — que poderia escapar para sempre das minhas mãos de negra.

Nos pilares do pensamento político-filosófico ocidental, encontramos percepções que partiram da Grécia Clássica e escoaram para todo o mundo colonizado, “o Corpo é o mero cárcere da Alma”, como sustentava Platão e sua dicotomia. A alma, o pensamento por sua vez mais elevado, deveria ser priorizado.

E o corpo, em sua substância finita, exuberante e feroz, deveria ser relegado à servidão. Eu, como jovem escritora, uma mulher negra em busca do seu lugar ao sol na dita intelectualidade, assenti. O meu corpo não merecia os louros que deveriam ser destinados somente à minha alma.

E assim vivi, relegando ao corpo uma servidão aprendida com aqueles que escravizaram o outro e hoje escravizam a si mesmos. Nesse processo descontínuo e solitário, permitindo que o imaginário de outros manchasse de branco as cores cintilantes da minha alma.

Mas o tempo, Orixá e deus infinito que a tudo transforma, me tocou com suas mãos de marfim e eu pude finalmente enxergar: “O Corpo é a liberdade da Alma”. E ele dança, ainda que o desejem imóvel. Ele dança, e espalha a sua tessitura desmedida por toda a carne da ancestralidade. O corpo dança.

Na cultura yorubá, o corpo está em consonância com as leis da própria existência, em seu movimento circular e contínuo, tal como os astros, abriga em si o insondável mistério da vida. Ele carrega histórias que somente os seus movimentos podem nos sussurrar aos ouvidos, pois como diz a autora baiana Lívia Natália em seu livro Dia Bonito pra Chover, “o meu corpo / tem o seu próprio tempo”, e toda a sua dimensão.

Pois o corpo carrega em si milhares de outros corpos luminosos; a minha avó que dançava samba miudinho nas rodas da Bahia, o meu pai, que jogava Capoeira primorosa no Pelourinho, a minha mãe e o seu sorriso aberto. Imenso e imenso. O corpo se expande e abriga o doce cerne das nossas culturas, dos nossos afetos e do nosso ser e estar no mundo.

Audre Lorde e o seu pensamento radical, me ensinaram que a genialidade está circunscrita em cada célula do meu corpo, não se limita à consciência no altar da idolatria da filosofia ocidental, não se limita aos estereótipos que a afromisoginia talha na minha carne de negra, não se limita àquilo que desejam que ele seja.

O meu corpo está envolto no abraço sutil dos meus ancestrais, e quando o movimento, quando permito que ele se entregue à dança exuberante e misteriosa que o mantém todos os dias, eu estou vivendo e permitindo que o seu axé toque toda a tessitura do sonho e da vida.

Yasmin Morais

Yasmin Morais
Escritora, jornalista em formação pela Universidade Federal da Bahia com mobilidade acadêmica na Université Toulouse 2 Jean Jaurès, integrante do Centro de Estudo e Pesquisa em Análise do Discurso e Mídia (CEPAD) da UFBA e fundadora do projeto Vulva Negra.

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