Nelson Sargento: o artista que não fazia questão de ser imortal

O sambista nos deixa justamente no momento que o Brasil agoniza: em razão da fome, do desemprego, do total desprezo pela vida humana

Foto: Divulgação/reprodução

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Opinião

Na manhã de quinta-feira, o Brasil perdeu uma de suas mais belas vozes. Embora tenha tomado as duas doses da vacina, como já estava com a saúde bastante debilitada pela idade avançada (96 anos), Nelson Sargento se junta aos mais de 456 mil brasileiros vitimados pela Covid-19, doença que em razão da política de morte implementada no País está longe de ser controlada.

 

 

Nascido em 1924, o artista ganhou o apelido pelo qual ficou conhecido em decorrência de sua passagem pelo Exército. Em entrevista ao também sambista Diogo Nogueira, Nelson afirmou que integrar os quadros militares foi a maneira que encontrou para deixar o trabalho pesado na construção civil. Ao chegar ao posto de sargento, foi destituído da ideia de fazer carreira por um superior: “Isso aqui não é lugar para preto!”, teria dito o oficial.

As portas fechadas pelo racismo no Exército no início dos anos 1950 ainda reverberam nas Forças Armadas. Em matéria publicada no dia 10 de maio, o jornal O Globo apontou que, entre os 228 militares do alto escalão da Marinha e da Aeronáutica, apenas três se declaram pretos. Entre os 400 oficiais-generais da ativa, foram encontrados apenas três autodeclarados negros.

Ao deixar a farda, Nelson Sargento nos brindou com 70 anos dedicados à música. Companheiro de Cartola, Nelson Cavaquinho, Elton Medeiros e de tantos outros bambas, fez da Mangueira sua segunda casa, com direito ao título de presidente de honra da agremiação. Mesmo com uma voz inconfundível e com as letras refinadas, Nelson gravou o primeiro disco somente aos 54 anos de idade, o que revela as dificuldades encontradas pelos artistas negros para se firmarem no cenário cultural/intelectual. Conceição Evaristo, escritora afro-brasileira que obteve reconhecimento nacional e internacional pouco antes de completar 70 anos, tem afirmado reiteradamente que o racismo é um dos maiores impeditivos para que as obras de indivíduos de pele escura alcancem o grande público.

É importante lembrar que Nelson Sargento não se manteve em silêncio diante do racismo. Conforme evidenciou a matéria publicada pela Folha de S.Paulo, o torcedor apaixonado pelo Vasco da Gama registrou na letra “Casaca, casaca” a luta antirracista do clube cruz-maltino: “São muitos anos de glórias / Enriquecendo a história do esporte bretão / Vasco da Gama baniu o preconceito / Em nome do direito, dando razão à razão / Formando atletas de escol, na regata / E no futebol, o seu nome está presente…”

Nelson Sargento ainda se dedicou à literatura e às artes plásticas. Com muita cor, registrava em seus quadros as rodas de samba e o cotidiano das favelas cariocas. Em 1994, lançou o livro de poemas “Prisioneiro do mundo”, relançado em 2012, com a inclusão de novos textos, pela editora Oficina Raquel.

Com o bom humor que lhe era peculiar, durante uma gravação, lembrou que seu maior sucesso, “Agoniza, mas não morre”, era conhecido por 11 em cada dez pessoas. Nelson Sargento nos deixa justamente no momento que o Brasil agoniza: em razão da fome, do desemprego, das ameaças à nossa frágil democracia, do total desprezo pela vida humana.

Há cerca de 15 anos, Nelson Sargento concedeu uma entrevista ao jornal Estado de Minas. Quando perguntado sobre a possibilidade de fazer parte da galeria de imortais da Academia Brasileira de Letras, afirmou que não fazia muita questão. E completou: “Imortal é quem faz algo que fica eternizado no coração das pessoas”.

Ao longo de quase um século, Nelson Sargento não fez outra coisa.

Descanse, Mestre. Já estamos com saudade de você.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. Atualmente tem se dedicado à Formação Inicial e Continuada de Professores. É autora do livro Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula, lançado em 2018 pela Mazza Edições.

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