Luiz Gonzaga Belluzzo

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Economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

Opinião

Nazifascismo estrutural

Essa camada de homenzinhos, como os peixinhos mergulhados em seu egocentrismo, não consegue reconhecer o ambiente social em que vive. Por isso, exerce seus desejos, medos e anseios em aras de agressividade contra os demais

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O nazifascismo voltou à baila, agora carregado nos ombros dos “influencers” Monark e Adrilles Jorge. Escoltados pelo liberalismo de Kim Kataguiri e acolhidos nas redes sociais e na mídia bolsonarista, os dois fizeram gestos e declarações de conivência com a tragédia inumana dos anos 20 e 30 do século passado. 

No clássico As origens da democracia e do totalitarismo, Hannah Arendt diz que a Grande Depressão dos anos 30 foi eficaz para persuadir a burguesia alemã a abandonar as coibições do liberalismo político. Foi esse fato que a levou a tirar a máscara da hipocrisia e a confessar abertamente seu parentesco com a escória”. A escória, na visão de Arendt, não tem a ver com a situação econômica e educacional dos indivíduos, “pois até os indivíduos altamente cultos se sentiam particularmente atraídos pelos movimentos da ralé”.

No livro The Mass Psychology of Fascism, Wilhem Reich cuida da estrutura das personalidades: as camadas que formam essa estrutura são receptáculos do desenvolvimento social. 

Na camada superficial de sua personalidade, o homem comum é reservado, educado, compassivo, responsável, consciente. Não haveria tragédia social do animal humano se essa camada superficial da personalidade estivesse em contato direto com o núcleo natural, profundo. Infelizmente, não é o caso. A camada superficial da cooperação social não está em contato com o núcleo biológico profundo, mas é suportada por uma camada de caráter intermediário, que consiste exclusivamente de impulsos cruéis, sádicos, lascivos, arrebatadores e invejosos. Representa o “inconsciente” freudiano ou “o que é reprimido”.

Reich assegura que a mentalidade nazifascista é a mentalidade do “homenzinho”: escravizado, ele anseia por autoridade e, ao mesmo tempo, é rebelde. Não é coincidência que todos os ditadores fascistas, ou aspirantes a essa condição, tenham surgido no meio reacionário do homenzinho.

A civilização mecanicista e despótica colhe do homenzinho humilhado apenas o que semeou nas massas de seres humanos subjugados, ao longo dos séculos, lançando o desgraçado nos descaminhos do misticismo, do militarismo e do automatismo.

Para ilustrar os passos dos que caminham nas trevas da autoincompreensão, vou recordar o apólogo dos peixinhos que já apresentei nesta coluna. Em palestra aos estudantes do Kenyon College, o escritor americano David Foster Wallace começou sua exposição com um apólogo: “Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz: Bom dia, meninos. Como está a água? Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta: Água? Que diabo é isso?”.

Wallace explica: “O ponto central da história dos peixes ensina que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser reconhecida… Os pensamentos e sentimentos dos outros precisam achar um caminho para ser captados, enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real. Não pensem que estou me preparando para fazer um sermão sobre compaixão, desprendimento ou outras ‘virtudes’. Essa não é uma questão de virtude – trata-se de optar por tentar alterar minha configuração-padrão original, impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo profundo e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes do meu ser”.

Essa camada de homenzinhos, como os peixinhos mergulhados em seu egocentrismo, não consegue reconhecer o ambiente social em que vive. Por isso, exerce seus desejos, medos e anseios em aras de agressividade contra os demais. Bolsonaro não tem empatia. Sua personalidade de homem humilhado e fracassado na carreira militar exige o confronto permanente com tudo e com todos. Com a cabeça no travesseiro, ele sofre as dores do sentimento de inferioridade cevado nos baixios de sua ignorância.

A insistência em contradizer as orientações da ciência só́ encontra paralelo na resistência de alguns economistas liberais em aceitar a necessidade de uma coordenação restauradora do Estado para religar os circuitos monetários, preservando a vida dos trabalhadores e a sobrevivência dos empreendimentos privados ameaçados pela disrupção.

Em vez de comandar ações efetivas para contrabalançar os danos sociais e econômicos da pandemia, o presidente-homenzinho dedicou-se a pressionar pela abertura de fábricas, lojas e outras atividades, ignorando o risco de as mortes se avolumarem. Sua inumanidade se expressou na frase: “70% vão ser contaminados. Eles estão com medo”.

Sua alma foi exposta em carne viva no episódio da demissão do ministro Luiz Henrique Mandetta. O presidente do Brasil sentiu-se humilhado diante do protagonismo do ministro e diminuído diante da argumentação científica do seu auxiliar. O homenzinho-presidente (ou presidente-homenzinho?) apareceu horas depois da demissão exibindo uma estampa de Jesus Cristo. O cristianismo de Bolsonaro e de seus asseclas-pastores é o cristianismo utilitarista. Utilizar a imagem de Cristo para fazer propaganda política ou surrupiar grana dos que têm pouco é uma infâmia. Um insulto e um desrespeito aos princípios de amor e compaixão ensinados pelo filho do Homem aos homens filhos de Deus.

 

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Luiz Gonzaga Belluzzo

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