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Naturalização dos juros e a percepção da economia
Um novo estudo produzido pelo Corecon-SP coloca em xeque a insistência da mídia no ‘resultado primário’ e nos juros altos como consequência inevitável
Quem já terminou um relacionamento provavelmente conhece uma sensação: de repente, parece que o ex está em todo lugar. Uma música toca no mercado, alguém usa o mesmo perfume na rua ou a atendente da farmácia fala com o mesmo sotaque… tudo lembra assustadoramente a pessoa. Não é que o universo tenha reorganizado sua cidade inteira para provocar você. É o seu cérebro que ficou mais atento a qualquer coisa relacionada àquele assunto. Quanto mais um assunto aparece diante de nós, mais espaço ele ocupa na cabeça e mais frequente, importante ou ameaçador parece ser.
Na psicologia, esse fenômeno tem nome: heurística da disponibilidade. Na prática, tendemos a avaliar a importância ou a frequência de alguma coisa pela facilidade com que conseguimos nos lembrar dela. E lembramos com mais facilidade daquilo que vemos e ouvimos todos os dias. O problema é que a repetição pode fazer algo parecer muito maior ou diferente do que realmente é.
Na economia brasileira, esse mecanismo ajuda a entender por que quase todos os problemas parecem começar e terminar no mesmo lugar: gastos públicos. A alta da inflação? Risco fiscal. O dólar subiu? Risco fiscal. Os juros não caem? Falta confiança na política fiscal por parte dos agentes. São fenômenos diferentes, com causas e consequências próprias, mas a conversa retorna como bumerangue para déficit, dívida, rombo e resultado primário.
Essa repetição foi objeto do estudo “Fiscalismo Midiático e a Naturalização dos Juros Altos”, produzido pelo Núcleo de Estudos Estratégicos do Corecon-SP*. O trabalho analisa a presença, a partir de buscas abertas, de determinados termos na mídia e levanta uma questão importante: quando uma parte do problema é repetida muito mais do que as outras, qual espaço ela ocupa na percepção pública?
O estudo comparou a frequência das expressões “resultado primário”, “resultado fiscal” e “resultado nominal” em diferentes veículos de comunicação. Para quem não passa o dia mergulhado em economês, vale traduzir. O resultado primário mostra a diferença entre aquilo que o governo arrecada e aquilo que gasta. Nessa conta entram despesas com saúde, educação, previdência, programas sociais, salários públicos, investimentos e funcionamento do Estado. Os juros da dívida pública ficam de fora. O resultado nominal, por outro lado, inclui esse custo financeiro e mostra a real saúde das contas públicas.
Pode parecer apenas uma diferença técnica, mas observar cada um direciona nosso olhar para uma parte distinta do problema. Se um governo consegue gastar menos daquilo que recebe, mas paga um valor elevado em juros, ele pode apresentar superávit primário o tanto que ele quiser e, ainda assim, terminar o período com déficit nominal. Quando falamos apenas do primeiro resultado, mostramos uma parte importante da história, e deixamos outra que não somente ajuda a explicar, mas também ajuda a resolver.
Os números encontrados pelo estudo ao investigarem cinco grandes veículos de informação ajudam a visualizar essa diferença. No Valor Econômico, em 2025, a expressão “resultado primário” apareceu aproximadamente 1.250 vezes, enquanto “resultado nominal” foi mencionada cerca de 320 vezes. Colocando os dados numa base mais simples, para cada 100 referências ao resultado primário, houve apenas 26 ao nominal.
Folha de S.Paulo, Estadão e O Globo apresentaram proporções muito parecidas: entre 24 e 26 menções ao nominal para cada 100 ao primário. CartaCapital destoou desse padrão. Para cada 100 referências ao resultado primário, foram encontradas 53 menções ao resultado nominal. Na maioria dos veículos analisados, o indicador que deixa os juros de fora aparece aproximadamente quatro vezes mais do que aquele que os inclui.
É como tentar avaliar a saúde de um paciente olhando apenas para o colesterol. O colesterol importa, lógico, mas ninguém explicaria o funcionamento de um corpo inteiro olhando apenas para o tanto de gordura do contrafilé que você comeu no churrasco de domingo. O problema não está em olhar para o colesterol, mas em olhar apenas para ele.
Quando o resultado primário domina a conversa, despesas com saúde, educação, previdência e programas sociais aparecem constantemente como pressões sobre o orçamento. O custo dos juros, por outro lado, recebe menos atenção e corre o risco de ser tratado como uma consequência técnica e inevitável. Assim, cortar políticas públicas parece o caminho natural, enquanto os juros elevados passam a ser encarados quase como um parto dentro de um avião: longe do ideal, mas o que havia para hoje.
Resultado primário importa, seria absurdo imaginar que um governo pode arrecadar, gastar e se endividar sem qualquer preocupação com sustentabilidade, mas também importam o custo financeiro da dívida, a qualidade do gasto público, o crescimento, o emprego, a produtividade e tantos outros índices. Economia se parece muito mais com um check-up completo do que com um único exame de glicose.
A repetição estabelece prioridades, influencia as perguntas que serão feitas, molda a percepção pública e ajuda a definir as soluções possíveis. Depois de ouvir a mesma explicação durante muitos anos, arriscamos esquecer que ela é uma maneira de interpretar a realidade, não necessariamente a realidade inteira.
E, como acontece com o ex que começa a aparecer em todo lugar depois do término. Provavelmente, ele não está de fato em toda parte. Talvez seja apenas o assunto que passou a ocupar espaço demais na nossa cabeça.
*Agradeço ao Corecon-SP por ter, gentilmente, me disponibilizado previamente os dados e autorizado sua utilização nesta coluna.
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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