Opinião

Não temos atletas, mas heróis

Poderíamos ter muitas Rayssas e Rebecas, e muitos Isaías se a mesma atenção que o futebol recebe fosse ofertada a outros esportes

Rebeca Andrade. Foto: Loic VENANCE / AFP
Rebeca Andrade. Foto: Loic VENANCE / AFP

A CPI entrou em recesso e eu fiquei órfã de Omar Aziz, Randolfe Rodrigues e Renan Calheiros entretendo minhas tardes com as mais diversas bizarrices políticas do nosso querido Brasil. Quando os Jogos Olímpicos começaram, não tive outra opção senão passar o bastão e ocupar as minhas duas últimas semanas com as peripécias do esporte brasileiro em Tóquio.

O engraçado é que, depois de tudo que passamos nas eleições de 2018, na pandemia que atravessou 2020 e nestes primeiros sete meses de 2021, não achei que meu espírito torcedor conseguiria renascer e vibrar novamente pela camisa verde-amarela. Não acreditava que ainda poderia torcer pela nossa bandeira e me emocionar em vê-la no alto do pódio. Trauma da onda bolsonarista que nos atropelou.

Mas foi só a coisa começar que entrei numa espiral maluca de noites sem dormir e tardes ansiosas para o recomeço dos jogos. Sempre fui uma apaixonada por olimpíadas. Atletas fazem o impossível, quebram recordes, expandem os limites do corpo humano. E todo esse evento extraordinário pode ser acompanhado ao vivo do meu sofá com uma boa caneca de café.

Peguei então meu caderninho, fiz as minhas apostas e organizei os horários dos eventos imperdíveis: vôlei feminino e masculino, ginástica artística, natação, Isaías na canoagem e as novas modalidades em que o Brasil tinha grandes chances de medalha, como surfe e skate.

Nos anos 2000, assisti com devoção à seleção de vôlei masculina, capitaneada por Bernardinho, ganhar títulos nos campeonatos mundiais, ligas mundiais e as Olimpíadas. Em 2016, chorei com o ouro.

Mas, depois que a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) aceitou que ­Wallace, Maurício Souza e William apoiassem Bolsonaro numa vitória brasileira e denunciou a atleta Carol Solberg por ela ter gritado “Fora Bolsonaro” na frente das câmeras, minha admiração pelo time brasileiro minguou. No entanto, depois da descoberta de Douglas (ponteiro da seleção masculina de vôlei) nas redes sociais, posso dizer que fiz as pazes com a seleção. Torci pelos meninos, apesar de acreditar que aquela pálida e triste derrota por 3×1 sets contra a Rússia foi o peso do bolsonarismo nas costas deles.

Já as meninas do vôlei, que não chegaram como favoritas, foram comendo pelas beiradas e conquistaram uma medalha de prata, com cheirinho de ouro, contra as americanas, primeiras no ranking mundial.

Foi emocionante acompanhar Rebeca Andrade, com sua calma e concentração. Ítalo Ferreira com suas manobras e seu choro solto, sincero. Isaías e sua extraordinária força. Ana Marcela, nadando sempre na frente de forma avassaladora. A pequena Rayssa fazendo história nas olimpíadas como gente grande. Hebert Conceição com um soco certeiro no boxe. Mayra Aguiar e sua terceira medalha de bronze, tricampeonato para a atleta tão doce nas entrevistas e tão brava no tatame.

Não vou listar todos os atletas, pois foram muitos, mas deixo aqui registrada a minha admiração por eles. Não deve ser nada fácil ser atleta no Brasil. E isso me perturbou.

Os comentaristas das redes transmissoras do evento gritavam a cada vitória: “É do Brasil!” “É nossa!” “Heróis do nosso país!” “Mais uma medalha para o Brasil”. Fiquei pensando sobre essa ideia de a medalha ser nossa, ser do nosso país, do Brasil. Todos nos sentimos orgulhosos como se fizéssemos parte daquela conquista, mas não fazemos.
Como um país com tão poucos recursos direcionados para o esporte pode se sentir parte do esforço, da disciplina e da dor de um atleta brasileiro? Não temos atletas no Brasil, temos heróis. E os comentaristas não param de repetir essa ideia. São pessoas que sacrificam a vida, vivem com pouco, lutam sem ter apoio ou recurso financeiro para se manterem confortavelmente e com estrutura para treinar. É claro que existem exceções e são elas que, na maioria das vezes, chegam ao pódio.

Foram para a Olimpíada de Tóquio 302 atletas brasileiros. Desses, 21 conquistaram medalhas. Não é pouco para um país com tão pouco investimento. Mas é pouco para um país do tamanho do Brasil, com a capacidade e o talento que demonstramos para o esporte.

Poderíamos ter muitas Rayssas e Rebecas, e muitos Isaías se a mesma atenção e o mesmo investimento que o futebol brasileiro recebe fossem ofertados aos outros esportes. Se crianças de todas as classes sociais tivessem acesso à possibilidade de vencer, daí, sim, não teríamos heróis, mas atletas.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1170 DE CARTACAPITAL, EM 13 DE AGOSTO DE 2021.

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