Não há outra saída: é preciso estimular a demanda pela oferta

É necessária uma forte, urgente e rápida política de privatizações, concessões e parcerias

Foto: Pixabay

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Opinião

Para entender realmente a gravíssima situação social e econômica a que fomos levados é preciso aceitar um fato simples: um país só pode consumir, investir ou exportar o que ele mesmo produziu ou tomou emprestado (o que tem de pagar no futuro). Tudo o que se produz numa unidade de tempo é resultado do trabalho dos cidadãos que podem, querem e estão trabalhando. É o que se chama de pessoal ocupado, que podemos chamar de (T). Em média, cada um produz uma certa quantidade de bens ou serviços (algodão, sapatos, serviços de todo tipo, etc.): é a sua produtividade (na mesma unidade de tempo), que podemos chamar de (P).

Pois bem. Por definição, o que cada um produz (P) multiplicado pelo número de todos os trabalhadores (T) é o PIB, a quantidade de bens e serviços à disposição da sociedade. Ou seja, PIB = P × T. Logo, o aumento do PIB depende do aumento da produtividade média (P) de cada trabalhador multiplicado pelo aumento do número de trabalhadores (T). Se os aumentos de P e T forem pequenos (digamos, abaixo de 7%), podemos escrever: % do aumento do PIB = % do aumento da produtividade + % do aumento dos trabalhadores. Por exemplo, se o número de trabalhadores cresceu 2% no ano e a produtividade média cresceu 1%, o PIB crescerá 3% no ano. Desenvolvimento econômico é, assim, apenas o outro nome dado à expansão da produtividade média do trabalho.

Com a avaliação pelo IBGE do PIB do segundo trimestre de 2019/2, revelam-se cinco anos de complicações derivadas da recessão iniciada no segundo trimestre de 2014/2. Se dermos o índice 100 para o PIB de 2014/2, o índice de 2019/2 será de 96,48, revelando uma queda média de 0,7% ao ano. Como a população total do país cresce a 0,8%, a queda do PIB per capita foi, na média do período, em torno de 1,5%, mesmo com a pequena recuperação a partir do segundo trimestre de 2017.

Para medir a produtividade do trabalho, entretanto, temos de considerar o número dos efetivamente empregados, isto é, da mão de obra diretamente envolvida no processo produtivo (carteira assinada, empreendedores, biscateiros, etc.) cuja melhor estimativa é o volume dos empregados na pesquisa do IBGE. Esse número era de 91,5 milhões em 2014/2 e cresceu para 93,5 milhões em 2019/2 (apesar do dramático aumento do desemprego), revelando um crescimento médio anual da ordem de 0,44% no período, o que nos deixa com: 1. Aumento da produtividade: – 1,1%; 2. Aumento do trabalho: 0,4%; 3. Aumento médio do PIB: – 0,7%.

Em outras palavras, a verdadeira tragédia da completa desarticulação do sistema produtivo no período 2014-2016 foi uma redução média da produtividade do trabalho de 1,1% ao ano! A partir de 2017/2, já no governo Temer, tivemos uma mudança de sinal. Nos últimos dois anos (2017/2 a 2019/2), o PIB cresceu 1,9%, revelando alguma recuperação da produtividade da mão de obra.

Esses números são aproximações grosseiras sujeitas às chuvas e trovoadas dos censores dos dois espectros ideológicos que empesteiam parte do pensamento econômico nacional. Sugerem, entretanto, que a despeito de nenhum de nossos problemas ter sido, de fato, resolvidos até agora, a política econômica implementada a partir do terceiro trimestre de 2016 vem apresentando pequenos ganhos incrementais mesmo nas atuais condições de pressão e temperatura que não são tranquilizadoras nem interna nem externamente.

A situação fiscal continua gravíssima. O investimento líquido é negativo (estamos consumindo o estoque de capital) e não há a menor esperança que o investimento público possa aumentar e garantir um crescimento robusto, equânime e estável. Todos concordamos que há um problema de demanda. O problema é como resolvê-lo: impulsionar diretamente a demanda com aumento da dívida pública, como sugerem os críticos ou impulsioná-la com uma política de oferta, como o governo está tentando fazer?

Para se convencer de que a primeira não funcionará e criará ainda mais confusão, basta saber que o investimento público previsto no orçamento de 2020 é de apenas 19,3 bilhões de reais e que Bolsonaro, para evitar um impeachment por descumprimento da “regra de ouro” precisará de um crédito suplementar de 370 bilhões que dissipará em despesas correntes! Não há outra saída que não estimular a demanda com uma forte, urgente e rápida (um fast track) política de oferta (privatizações, concessões e parcerias) que será financiada pelo capital nacional e estrangeiro se lhe for oferecida segurança jurídica.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Formado pela USP, é professor de Economia, além de ter sido ministro e deputado federal.

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