Opinião

Não há capitão, nem general, capaz de abafar minha paixão

As incursões do capitão-presidente palmeirense nos subterrâneos da insanidade política, social e cultural desataram uma aluvião de protestos

Foto: Sociedade Esportiva Palmeiras/ Divulgação
Foto: Sociedade Esportiva Palmeiras/ Divulgação

Os palmeirenses, aqueles que deambulam entre o centro e a esquerda, abarrotaram meu extenuado celular com mensagens de despedida. Nem todos, mas muitos manifestavam desconforto com a paixão palestrina.

As incursões do capitão-presidente palmeirense nos subterrâneos da insanidade política, social e cultural desataram uma aluvião de inconformidades e protestos. Um dos mais exaltados proclamava com muitos pontos de exclamação: não dá mais!!!

A impaciência não é um defeito dos jovens, mas uma virtude que sustenta a inconformidade com o existente. Já os mais velhos, como eu, se não conseguem sufocar sua inconformidade com a degradação social de seus valores, estão condenados a reafirmar seus amores. Não há capitão, nem general, capaz de abafar minha paixão.

Pois, nos idos de 1942, um “paraíba”, capitão do Exército brasileiro, fincou essa paixão ítalo-brasileira em minha alma de nascituro. Prestes a abandonar o útero de minha mãe, ouvia meu pai narrar a Arrancada Heroica. Não acreditam? No dia 20 de setembro de 1942, Palmeiras nascia campeão das entranhas do Palestra Itália, assim como eu iria deixar as entranhas de minha mãe para viver esse amor intenso por toda a vida.

Transferido para São Paulo naqueles anos, o Capitão Adalberto Mendes apaixonou-se pelo clube dos italianinhos. Os Carcamanos eram massacrados pelos “patriotas” de então. Empenhados em surrupiar o patrimônio dos desqualificados “quintas-colunas”, os precursores nativos dos admiradores de Brilhante Ustra e Bolsonaro deflagraram uma campanha devastadora.

Em um depoimento à mídia palmeirense, o capitão Adalberto Mendes descreveu as ameaças que pairavam sobre o Palestra às vésperas da decisão contra o São Paulo Futebol Clube. “A pressão aumentava de forma espantosa. Jornais estampavam manchetes colocando o Palestra Itália como ‘camisas pretas’, uma alusão às nações inimigas do País. Foi quando o presidente Ítalo Adami decidiu, durante uma reunião que se estendeu até as 4 horas da madrugada e contra a minha vontade, alterar o nome do clube para Sociedade Esportiva Palmeiras.

Estávamos as vésperas de um jogo decisivo contra o São Paulo Futebol Clube, a equipe do Dr. Paulo Machado de Carvalho. Boatos diziam que haveria um clima de muita hostilidade por parte da torcida para com nossos jogadores, que realmente estavam preocupados. Percebi isso e notei também que nosso treinador, Del Debbio, tinha em mãos uma bandeira brasileira.

Eu sabia que a exibição do pavilhão nacional só era permitida em eventos internacionais, mas chamei a responsabilidade para mim e orientei nossos atletas a entrarem, ao meu lado, carregando-o e o exibindo à toda a torcida que superlotava o Estádio do Pacaembu. Após alguns segundos de surpresa por parte de todos, fomos muito aplaudidos e nenhum ato hostil nos foi desferido.

O capitão Adalberto Mendes não se acovardou. Na decisão contra o São Paulo FC, entrou à frente da esquadra ex-palestrina, agora palmeirense. Enfunada, a bandeira brasileira era empunhada por Oberdã, Waldemar Fiume, Cláudio Cristóvam Pinho, Og Moreira, Etchevarrieta, Lima.

PS: Homenageio outro capitão. Nos anos 60, eu batia minha bolinha no modesto, mas não menos vitorioso Buscapé FC: camisa grená, calções brancos, meias variadas. Meu maior troféu foi um hematoma na perna esquerda produzido por um tarugo de 2 metros, zagueirão do time do quartel da Abílio Soares. O praça não gostou da minha “caneta”, ou seja, da bola entre as pernas. “Não vem que não tem. Lugar de palhaço é no circo”, justificou o bate-estaca. O árbitro, um capitão, apitou a falta e expulsou o perna-de-pau: “Vai pra fora, você é muito grosso.”

Sábias palavras.

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