Não há capitalistas no Brasil, mas pré-capitalistas preguiçosos

O maior atraso brasileiro é a sua classe dominante que se pensa liberal, mas ainda mantém relações pré-capitalistas

O ministro Paulo Guedes e o presidente Jair Bolsonaro (Foto: Carolina Antunes / PR)

O ministro Paulo Guedes e o presidente Jair Bolsonaro (Foto: Carolina Antunes / PR)

Economia,Opinião

“Uma explicação para o atraso brasileiro” foi um editorial do jornal “Gazeta do Povo” publicado em novembro de 2017, um ano depois do Golpe de 2016 contra a presidenta Dilma Rousseff e as políticas sociais do Lulismo. No editorial, constatou-se que “a mera mudança de governo não pode fazer muito pelo empreendedorismo”, pois a divulgação do relatório do Banco Mundial para medir a facilidade de se fazer negócios em 190 países para 2018, o “Doing Business”, demonstrou que mesmo com algumas “reformas”, como a trabalhista, o Brasil amargava a 125ª posição atrás do México, do Chile e de todos os países que “há poucas décadas estavam afundados no absoluto estatismo socialista conseguiram fazer enormes progressos”.

Por isso, o editorial termina indicando a principal saída para a superação do atraso brasileiro e o progresso do empreendedorismo: além do fim das dificuldades formais e tributárias”, uma mudança cultural para superar o “ranço ideológico que vê no patrão o explorador ganancioso”.

O comportamento da classe dominante brasileira nos últimos anos nos obriga a formular o problema de outra maneira: o único setor absurdamente atrasado e preguiçoso no Brasil é a sua classe dominante, que se arvora neoliberal no discurso, mas é pré-capitalista-preguiçosa-genocida na prática.

Comecemos pelo fim das dificuldades formais e tributárias. Um dos temas mais espinhosos dos governos petistas foi a política de desoneração da folha de pagamento do primeiro governo da presidenta Dilma Rousseff, cuja lei ficou permanente pela assinatura do presidente em exercício Michel Temer, em 2014. Trata-se de uma política de diminuição de encargos sobre 56 setores empresariais para estimular a um só tempo a criação de novos empregos, o fortalecimento do mercado interno e a competitividade da economia brasileira.

No entanto, o comportamento do empresariado brasileiro foi vergonhoso. A tabela abaixo elaborada por PESSANHA (2019) a partir dos dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA), demonstra a natureza da classe dominante brasileira:

 

Evolução do patrimônio total dos fundos financeiros no Brasil (2008-2018), em valores absoltos em R$ trilhão

2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018
1,125 1,403 1,671 1,941 2,270 2,469 2,691 2,994 3,489 4,148 4,618

PESSANHA, Roberto Moraes. “A indústria dos fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo”. Rio de Janeiro: Consequência, 2019, p.107.

 

Em 2019, patrimônio líquido acumulado pelos fundos financeiros no Brasil foi de 5,018 trilhões, senhoras e senhores.

Durante a pandemia da COVID-19, em 2020, o patrimônio líquido acumulado pelos fundos financeiros no Brasil foi de 5,800 trilhões. Esses dados escancaram o atraso dos capitalistas no Brasil: no lugar de se comportarem como capitalistas e criarem novos empregos para o fortalecimento da economia nacional, essa turma aplicou o dinheiro das desonerações no rentismo com o objetivo de lucro rápido e sem trabalho enquanto condenava as políticas de transferência de renda, Bolsa Família, para as populações de miseráveis e exigia que o Estado desse “a vara” para os pobres aprenderem a pescar. Vejamos:

 

Evolução da taxa de desemprego no Brasil (2012-2018), média anual em %

2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018
7,9 8,1 7 5,9 5,5 5,4 5,8 6,8 11,5 12,7 12,3

Fonte: IBGE

 

Os dados acima demonstram que com a crise global do capitalismo em 2008. Preguiçosa e cínica, boa parte dos empresários do centro-sul aproveitou-se da crise política e dos processos de desindustrialização e reprimarização da economia, que ela mesma produziu, para apoiar um projeto de país que afastou a classe trabalhadora das estruturas internas do Estado ao preço de aprofundar as assimetrias regionais e reduzir substancialmente sua capacidade de controlar estratégias de acumulação, tornando-a mais vulnerável às oscilações internacionais.

Não obstante as críticas sobre os valores que o Estado deixou de arrecadar com as desonerações desde 2014, a classe dominante brasileira apoiou a política econômica de Jair Messias Bolsonas nas eleições de 2018, que entre privatizações e desmonte do Estado de Bem-Estar Social dos governos petistas, o atual ministro da economia, Paulo Guedes, prometeu desonerar todos os encargos que incidiam sobre a folha de pagamento das empresas, vejam só.

Preguiçosos, cínicos e com as mãos sujas de sangue. Prova disso foram os acontecimentos escandalosos nos últimos dias, deflagrados pelo grupo de empresários que contrataram uma falsa enfermeira e pagaram R$ 600,00 por ampola de soro fisiológico aplicado na veia como se fosse a vacina Coronavac.

Dias depois, apesar das mais de 340 mil mortes por Covid-19, ou justamente por isso, fomos brindados com a notícia do convescote regado a champanhe e camarão no qual o ainda presidente Jair Bolsonaro, mundialmente conhecido por atrapalhar o combate ao coronavírus, foi ovacionado por um grupo de empresários famintos por desonerações, sangue, suor e negacionismos de toda sorte.

Estiveram presente no fúnebre banquete, perdoem-me a rima infame, o presidente do Banco Safra, David Safra; o presidente do Conselho de Administração do Bradesco, Luiz Carlos Trabucco, o fundador do BTG Pactual, André Esteves, nomes ligados à construção civil, planos de saúde, indústria farmacêutica, veículos de comunicação e varejo, totalizando 25 empresários, além de ministros de Estado: Paulo Guedes (Economia), Marcelo Queiroga (Saúde), Tarcísio de Freitas (Infraestrutura) e Fábio Faria (Comunicações).

 

Como se não bastasse tanto atraso e tantas mortes, enquanto o jornal “Financial Times”, porta-voz dos capitalistas internacionais, sugeriu para a resolução da atual crise um cavalo de pau na política econômica de ajustes fiscais adotada nas últimas quatro décadas – indicando a necessidade de reformas radicais como imposto progressivo, papel mais ativo do governo na economia e auxílio emergencial aos moldes da arquitetura financeira do pós-guerra delineada na Conferência de Breton Woods, em 1944 -, a classe dominante se articulou com os mercenários da classe política brasileira e se alinhou à Indonésia, Índia e Filipinas e na última semana aprovou no Congresso Nacional a compra de vacinas contra a Covid-19 pela iniciativa privada.

Em um país que está longe de ter vacinado 10% da população, a justificativa para a criação de uma fila VIP e dupla na vacinação é escandalosa: é preciso vacinar os trabalhadores dos empregos que não foram criados nos últimos anos. Cínicos, querem furar a fila da vacinação porque as mortes têm atingido seus familiares.

Infelizmente pessoas de vários setores da sociedade estão morrendo aos milhares e os comércios não podem funcionar porque o atual presidente Jair Bolsonaro não comprou vacinas no ano passado e foi ovacionado por isso por empresários. Infelizmente, milhares pessoas estão famintas e sem ter o que comer porque a classe dominante brasileira, apoiada por seus porta-vozes da imprensa, jogou fora o mercado consumidor que os governos petistas lhes deram de presente ao oPTar pelo lucro rápido do rentismo viabilizado pela necropolítica do atual governo no lugar de fortalecer seu mercado interno.

Por tudo isso, termino essa coluna concordando em partes com o editorial da “Gazeta do Povo”: o maior atraso brasileiro é a sua classe dominante que se pensa liberal, mas ainda mantém relações pré-capitalistas e servis com o restante da sociedade. Nesse momento, sejam, ao menos, capitalistas, senhores. Pela sobrevida desse país.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Professora do departamento de História da Universidade Federal da Bahia.

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