Créditos: EBC
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Embora defenda o fortalecimento de uma oposição no campo da socialdemocracia, ele reconhece que a direita liberal no Brasil é repleta de flertes históricos com agendas antiliberais. Na rabeira do iluminismo, os liberais brasileiros não teriam conseguido se desprender da gaiola do conservadorismo autoritário e do patrimonialismo. Da República Velha, passando por Vargas e pelo golpe de 1964, é esse o padrão comportamental da nossa direita.
Na visão de Fausto, o crescimento da aceitação de valores característicos da direita liberal – meritocracia, empreendedorismo, preferência pelo setor privado, etc – foi deturpado pela “enzima do antipetismo”, que os acoplou a pautas que não dialogam com essa visão de mundo. Deixa a entender que, se estivéssemos em condições normais de temperatura e pressão, o reino liberal, em todas as suas formas de vida, poderia muito bem ter vindo a reboque da saída de Dilma. O idealismo é um elemento que atravessa todo o texto.
Na fauna partidária, o autor reputa ao DEM, ao NOVO e ao MBL uma maior coerência com as abstrações ideológicas liberais, pois possuiriam feições “moderadas e democráticas” que os credenciariam a fazer frente à direita bolsonarista: punitivista, sectária e anti-direitos humanos. O MBL parece concordar – e vem demonstrando ter sentido o cheiro de sangue. Notando o crescimento de uma direita órfã do bolsonarismo, passou a moderar seu discurso e a jogar as fichas na estratégia de trazer os arrependidos para o seu colo já nas próximas eleições. Não há princípios nessa escolha, contudo. Há cálculo eleitoral. E só.
É comum que liberais e fascistas troquem olhares na mesma trincheira. Fausto aponta para esse traço da direita brasileira. Erra feio, entretanto, quem acha que ela o monopoliza.
A “enzima do antipetismo” foi apenas o álibi da vez para que uma direita que se diz liberal abraçasse a conveniência de trocar Rousseau por Mussolini. Se há pouca ou nenhuma diferença entre um burguês assustado e um fascista, como disse Brecht, é com o porrete que se lida com movimentos que saem do controle – mesmo que permaneçam dentro da ordem.
Não é preciso ir muito longe. Foi com sua vida que o congolês Patrice Lumumba pagou o preço de ter sido eleito para o cargo de primeiro-ministro de seu país em 1960. O script impunha a vitória de um yorkshire do imperialismo belga e norte-americano, assim como a docilidade dos povos argentino, chileno e equatoriano estava no roteiro dos sacrifícios de direitos no altar recente do neoliberalismo.
A ideologia que esclarece também ofusca. São as platitudes idealistas de Fausto que o impedem de identificar o caricato bolsonarismo do NOVO, sigla preposta do mercado financeiro que vem se alinhando ao presidente mais do que seu próprio partido e ainda antes do Delegado Waldir, seu ex-líder na Câmara, chamá-lo carinhosamente de “vagabundo”.
Da mesma forma, o golpismo adolescente do MBL não é captado pelo seu radar, que ignora o miolo ideológico do movimento: um ajuntamento de velhas crianças propagadoras de fakenews, repetidoras de chavões da economia neoclássica e adesistas saudosas do mundo pré-iluminista. Já o DEM, que há alguns anos era o Partido da Frente Liberal (PFL), possui o DNA autoritário da ARENA. Sua diferença dos outros dois está somente na ausência de pares de sapatênis em seu guarda-roupa.

Fausto resolve puxar orelhas em determinados momentos. Além de fazer apontamentos sobre os potenciais faróis do iluminismo brasileiro, lança-se na tarefa de corrigir os desleixos da direita com os protocolos do liberalismo político: “a direita liberal fará vista grossa ao bolsonarismo, no que ele tem de profundamente autoritário e mesmo incivilizado, em nome de uma agenda econômica que também é sua?”.
Mas quando não foi assim?
Em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, Marx analisa como a melhor maneira encontrada para salvar a acumulação capitalista foi terceirizando sua gestão para um aristocrata que nada tinha de liberal, burguês e tampouco de democrata. Para manter os níveis de expropriação, foi necessário que se abrisse mão dos valores consagrados em 1789 pelos jacobinos, o que levou à restauração do próprio regime monárquico.
A incompatibilidade entre liberalismo e autoritarismo só existe em postulações teóricas.
Fausto em nenhum momento esboça ir além delas. A ascensão de Hitler, que contou com o entusiasmo das corporações alemãs, só foi possível, dentre outras coisas, em razão do extermínio dos comunistas pelas mãos dos socialdemocratas, que acreditavam que tirá-los do jogo os faria a principal força política da Alemanha. Tragédia e farsa. Dado o golpe de 2016, o PSDB, ansioso para colher os louros eleitorais da derrubada do PT, associou-se de imediato ao consórcio golpista que passou a ocupar o Planalto. Em ambos os casos, deu no que deu.
No Brasil, grandes referências do pensamento liberal ocuparam espaços estratégicos na ditadura militar. Mario Henrique Simonsen e Roberto Campos foram fiéis aos generais, enquanto Paulo Guedes até hoje acha irrelevante o fato do Chile ter vivido uma ditadura sob Pinochet – por mais que tenha resolvido fugir do país quando se deparou com seu apartamento sendo vasculhado pela polícia política chilena. O laboratório do neoliberalismo na América Latina jamais seria possível sem o golpe de Estado simbolizado pelo cadáver de Salvador Allende e os escombros do Palácio La Moneda. Ou seja: jamais seria possível se a democracia fosse respeitada.
Hoje, Guedes trabalha para o governo Bolsonaro, sendo costumeiramente apontado como o responsável pela tardia entrada do mandatário no clube dos Chicago Boys. Fausto discorda de Guedes em vários pontos. Posiciona-se, por exemplo, contra a informalidade excessiva defendida por Bolsonaro e melhor representada pela uberização das relações de trabalho, que qualifica como uma “utopia regressiva alimentada por tendências reais”. Reconhece, em uma concessão atípica, que a desigualdade social está colocando em xeque a legitimidade do capitalismo liberal. Só os “moderados” e “democratas” do NOVO se dispõem a bater nas estatísticas atualizadas da PNAD, que apontam que metade dos brasileiros vive com apenas R$ 413,00 por mês em um contexto de aumento da renda dos ricos e diminuição da dos pobres.
No frigir dos ovos, o que Fausto defende é algo como um bolsonarismo sem Bolsonaro: light, humanizado e ciente de que a Terra é redonda.
Um mundo de fadas e unicórnios no qual o liberalismo quebre os diques da economia e se lance sobre a política, como se uma das grandes contradições do modo de produção capitalista não fosse a rasteira nas liberdades políticas quando estas se mostram um obstáculo ao que chamam de “liberdades econômicas”.
Mas será possível um retorno a uma socialdemocracia que o Brasil nunca teve? Ou, como Fausto deixa implícito, ao modelo liberalizante que atingiu seu ápice nas gestões tucanas as quais, diferentemente do atual governo, prestam suas homenagens a valores civilizatórios inegociáveis, como o respeito aos direitos humanos e às liberdades individuais? Suas intenções se alinham às do movimento Direitos Já, composto por personalidades que, tirando os obscurantismos autoritários do presidente, não veem tantos problemas em todo o resto.
Tragédia e farsa, mais uma vez. Na Constituinte de 1946, liberdades como a de imprensa e de culto foram bandeiras não de parlamentares identificados com as ideias liberais, mas de membros do PCB, em especial Carlos Marighella e Jorge Amado. Não há notícias de vozes liberais organizadas e consistentes favoráveis às lutas anticoloniais, de independência e de libertação nacional do século XX, ao passo que, no escravismo de modo geral, liberais e conservadores convergiam sobre a ausência de incompatibilidade desta prática com o ideário professado por John Locke – este, um acionista da Royal African Company, monopolista do comércio de escravos no século XV.
No artigo “O pior estar por vir”, publicado na edição da 146 da Piauí, a jornalista Anne Applebaum lamenta a conversão de seus amigos democratas à extrema-direita de Jarosław Kaczyński, atual presidente da Polônia. A exemplo de Fausto, Applebaum se aflige por não existir em seu país uma alternativa que se situe mais ao centro do espectro ideológico.
A principal convergência entre ambos, contudo, é a miopia quanto aos limites emancipatórios da democracia liberal ou parlamentar burguesa, acreditando ser possível restaurá-la por meio do retorno de uma direita civilizada ao poder (no Brasil, essa direita é aparentemente o PSDB, que não aceitou o resultado das urnas e, apenas para “encher o saco” do PT, tentou tirar Dilma no tapetão após sua vitória em 2014).
“De imediato, a direita liberal precisa se diferenciar da direita predatória e da direita lunática, irmanadas no bolsonarismo”, conclui Fausto. Faltou perceber que as três são cabeças do mesmo corpo.
Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.
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Advogado, mestre em direito constitucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte