Na crise do coronavírus, Bolsonaro e seu desgoverno estão do lado da morte

Do lado da vida, a sociedade civil organizada, prefeitos, governadores, igrejas, universidades, entre outros segmentos

(Foto: Governo do Estado de São Paulo)

(Foto: Governo do Estado de São Paulo)

Opinião

“…os homens não vão perdoa-lo. Porque a história nos ensina que os homens gostam mais de castigar do que de aceitar, de ferir do que de aliviar as dores dos outros, de acusar do que de compreender. E ainda mais se tiverem algum poder. Mas Deus é outra coisa: ele encarna a misericórdia. E seu problema, como o meu, é com Deus, e não com os rabinos. E Deus, lembre-se, também está dentro de nós, sobretudo dentro de nós.”

Leonardo Padura, “Hereges”

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Esta quarentena pode ser um momento de reflexão.

Que tipo de sociedade queremos? Alegre ou triste, compreensiva ou punitiva, real ou virtual?

Poderíamos adicionar: cosmopolita ou provinciana?

No Brasil, estamos vivendo momento de luta titânica entre a vida e a morte: do lado da morte, o presidente ilegítimo e o desgoverno dele, igualmente ilegítimo.

Do lado da vida, a sociedade civil organizada, prefeitos, governadores, igrejas, universidades entre outros.

Trata-se de mudança muito importante: com o governo federal nas mãos dos promotores da necropolítica, a sociedade e os entes federados deram-se conta de que deveriam prover à própria defesa contra a pandemia.

Uma organização política da sociedade, de baixo para cima, como a sociedade argentina promovera após a ditadura militar.

Resulta que hoje a Argentina é um dos modelos no enfrentamento do coronavírus, com um governo que nos desperta a mais saudável inveja, em variados campos, que vão das questões de gênero (criou ministério de gêneros) à cooperação internacional (acaba de receber brigada de médicos cubanos para auxiliar na prevenção da covid-19).

Poucas vezes na história do Brasil tivemos organização política tão ampla, partindo da base da sociedade.

Uma construção em forma piramidal, saudável e estável como as montanhas, diriam os chineses.

Com efeito, enquanto assistimos ao desaparecimento do sinistro da justiça, que editara decreto para prender quem descumprisse a quarentena, mas nada fez contra o presidente demente que a descumpriu ou contra as carreatas da morte, pelo fim do confinamento. Por outro lado, vemos o tráfico proibindo bailes funk e ameaçando quem aumentar os preços do álcool gel.

Bem ou mal, é a sociedade buscando respostas, na ausência do poder federal.

Simbolicamente, vemos no estado da federação que mais votou no 17, Santa Catarina, um governador – bombeiro de profissão – tentar afrouxar as regras da quarentena, sendo impedido pela reação contrária dos prefeitos e gestores municipais. Como um profissional da área de desastres pode ser tão leviano é a pergunta que devemos fazer a nós mesmos, responsáveis por sua formação.

Também neste caso a sociedade civil – catarinense – soube reagir à altura: recebeu a carreata suicida com generosas porções de esterco animal. Belas imagens, ainda que escatológicas.

Mas a morte não tem intermitências, para aludir ao belíssimo título de José Saramago.

O chefe do SNI, em plena quarentena, editou portaria para a remoção dos quilombolas de Alcântara, a fim de que ali se instale a base norte-americana de lançamento de satélites.

A medida contraria frontalmente a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que prevê a consulta prévia, livre e informada de comunidades ameaçadas por remoções. Afronta, igualmente, as Diretrizes Voluntárias para a Governança da Terra, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Esperar reação do sinistro da justiça? Ele acaba de fechar as fronteiras com os países que já haviam fechado suas fronteiras com o Brasil… Seria bem cômico, se não fosse trágico, ter tamanha incompetência em um posto tão importante neste momento. Certamente, entrará para o anedotário diplomático internacional e, ao menos, as gerações futuras poderão rir de tamanho parvo.

À propósito daquele papalvo, cito Ronaldo Vainfas, em “Jerusalém Colonial” (Editora Civilização Brasileira): “…na Inquisição os réus eram considerados culpados até provar sua inocência – e não o contrário… Um conceito de justiça que desconhecia “direitos humanos” e pressupunha que os homens eram desiguais perante a lei, uns porque eram nobres, outros porque plebeus, uns porque tinham sangue limpo, outros porque o tinham “infecto”. Um conceito de justiça que podia condenar por presunção de culpa, dispensando provas, ao arbítrio dos juízes. Um conceito de justiça que mal se diferenciava da ideia de castigo. Justitia, castigo. Justiçar, castigar.”

Com o golpe de 2016 e a Lava Jato, regressamos, portanto, a algumas das práticas de maior injustiça que a história registra, as da Inquisição, magistralmente descritas acima. Retrocedemos cinco séculos. Não é pouco.

Essa viagem no tempo nos remete à peste negra na Europa, no século XVI, e à oração solitária do Papa Francisco na Praça São Pedro, na semana passada, em frente do crucifixo milagroso que libertara Roma da endemia.

Como bem disse Francisco, estamos todos na mesma barca, mas, se enfrentarmos o medo, até o mar revolto nos será favorável.

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da Organização das Nações Unidas (ONU) e representante, alterno, do Ministério das Relações Exteriores no extinto Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

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