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Musk, o homem-PIB
O primeiro trilionário da história e o Estado que quase ninguém enxerga
Em 12 de junho, a SpaceX estreou na Nasdaq sob o código SPCX. A ação abriu a 150 dólares, saltou 23% no pregão e passou a ser negociada perto de 166, levando a empresa a um valor de mercado acima de 2 trilhões de dólares e ao posto de sexta maior companhia dos Estados Unidos. A operação levantou perto de 75 bilhões de dólares, maior IPO registrado na história. No instante em que o sino tocou, Elon Musk virou aquilo que por décadas pareceu uma abstração matemática: o primeiro trilionário do mundo, com patrimônio em torno de 1,05 trilhão de dólares, somando uma fatia na SpaceX avaliada em mais de 766 bilhões e uma participação na Tesla de cerca de 280 bilhões.
O que significa um único indivíduo concentrar uma riqueza maior do que aquela de muitos países? Significa romper a escala em que pensamos a economia. A fortuna pessoal de Musk hoje é maior do que o PIB nacional de Taiwan, da Irlanda ou da Suécia, e supera a soma dos cinco bilionários seguintes na lista dos mais ricos do planeta. Para dar uma dimensão mais concreta: com 1 trilhão de dólares, Musk tem cerca de 200 bilhões a mais do que a própria Nasa gastou desde a sua fundação, em 1958, e poderia cobrir todo o orçamento da agência do ano passado, de 24,6 bilhões, usando menos de 3% de seu patrimônio. Quando uma pessoa física dispõe de mais recursos do que a agência espacial de uma superpotência, a fronteira entre poder privado e Poder Público deixa de ser nítida.
Aqui mora o ponto que o mito do gênio solitário esconde. A narrativa do “homem que se fez sozinho” trata Musk como uma força da natureza, surgida do nada pela pura genialidade empreendedora. A história real é outra, e bem mais interessante. Ele construiu seu império sobre décadas de pesquisa pública e subsídios diretos do governo norte-americano. A SpaceX não decolou apenas com capital de risco e foguetes reutilizáveis. Decolou com a Nasa. Foi a agência que, por meio do programa Commercial Orbital Transportation Services (COTS), concedeu contratos para que a empresa desenvolvesse a capacidade de levar carga, e depois tripulação, à Estação Espacial Internacional. Em 2012, a Dragon se tornou a primeira nave privada a atracar na ISS. Em 2020, a Crew Dragon levou astronautas norte-americanos ao espaço, encerrando a dependência das cápsulas russas Soyuz. Sem os contratos, o financiamento e, sobretudo, a validação técnica e institucional da Nasa, a SpaceX dificilmente teria sobrevivido aos seus primeiros anos.
Com a Tesla, o roteiro se repete. Em 2009, à beira de dificuldades financeiras, a empresa obteve um empréstimo de 465 milhões de dólares do Departamento de Energia dos EUA, parte do programa Advanced Technology Vehicles Manufacturing. O dinheiro público permitiu equipar a fábrica de Fremont e lançar o Model S. A Tesla quitou o empréstimo antes do prazo, em 2013, e isso vira munição para a versão liberal da história – “viu, não precisou do Estado”. Mas precisou, sim, no momento decisivo. E continuou a beneficiar-se dos créditos tributários federais para veículos elétricos, que sustentaram suas vendas por anos.
Por trás de tudo isso há algo ainda maior: todo o ecossistema de pesquisa dos Estados Unidos. A internet nasceu da Arpanet, financiada pelo Pentágono. O GPS que orienta cada carro e cada foguete é militar. As baterias, os semicondutores, os materiais avançados e a própria base científica da exploração espacial vêm de décadas de investimento público em universidades, laboratórios nacionais e agências como Darpa, Nasa e NSF. É o que Mariana Mazzucato chamou de “Estado empreendedor”: o ator que banca o risco radical, de retorno incerto e prazo longo, que nenhum investidor privado toparia financiar sozinho. O empreendedor entra depois, monta o produto, captura o valor e leva a fama.
E é justamente esse o paradoxo que o IPO de 2 trilhões de dólares expõe com brutal clareza. A SpaceX faturou 18,67 bilhões em 2025, alta de 33%, mas transformou um lucro de 791 milhões no ano anterior em um prejuízo líquido de 4,94 bilhões de dólares. O mercado precificou não o presente, mas a promessa – Starlink, Mars, data centers espaciais de IA. Promessa essa erguida sobre fundações construídas com dinheiro do contribuinte norte-americano. Socializaram-se os riscos, privatizou-se, em escala inédita na história humana, o ganho. O primeiro trilionário do mundo não é a refutação do Estado. É, talvez, o seu produto mais espetacular. E mais mal compreendido. •
Publicado na edição n° 1418 de CartaCapital, em 24 de junho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Musk, o homem-PIB’
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