Renato Meirelles

Comunicólogo, presidente do Instituto Locomotiva e fundador do Data Favela, autor de 'Um País Chamado Favela' e 'Como Ser Uma Empresa Antirracista'

Opinião

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Mulheres e assédio no carnaval

Em uma celebração que deveria ampliar a liberdade, parte das brasileiras precisa negociar limites o tempo todo para se manter segura

Mulheres e assédio no carnaval
Mulheres e assédio no carnaval
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
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aPoucas experiências dizem tanto sobre o Brasil quanto o carnaval. É a síntese de uma cultura que sabe transformar dificuldade em invenção, que ocupa a rua como palco e como encontro, que cria pertencimento onde antes havia só passagem. O paí­s que muitas vezes se enxerga dividido encontra, nesses dias, uma linguagem comum. A festa movimenta a economia, sustenta cadeias de trabalho temporário, organiza territórios, ativa pequenos negócios, reafirma identidades e, acima de tudo, lembra que o espaço público também pode ser lugar de alegria.

O carnaval também funciona como um grande termômetro social. Revela como as cidades se organizam, como o Poder Público se faz presente e como diferentes grupos convivem quando a rua deixa de ser apenas passagem e vira permanência. É um período no qual desigualdades estruturais ficam mais visíveis, porque a ocupação do espaço público deixa de ser neutra e passa a expor quem circula com liberdade e quem precisa negociar cada passo.

É justamente por essa grandeza que vale olhar com seriedade para a contradição que acompanha a folia. Uma pesquisaaass do Instituto Locomotiva mostra que quase metade das brasileiras já passou por situações de assédio no carnaval. Estamos falando de milhões de mulheres. O dado seguinte aprofunda o quadro. A grande maioria das mulheres teme sofrer assédio nesse período. Quando o medo se torna parte do planejamento, a experiência da festa muda de natureza.

O carnaval é o mesmo para todos no calendário, mas não é vivido da mesma forma no corpo. Para muitos homens, a rua é território de entrega e leveza. Para muitas mulheres, a rua exige gestão de risco. A alegria existe, mas convive com estratégias de proteção. Andar em grupo, evitar certos trajetos, escolher horários, antecipar saídas, reduzir a exposição. Em uma celebração que deveria ampliar a liberdade, parte das brasileiras precisa negociar limites o tempo todo para se manter segura.

A pesquisa também aponta um elemento importante para entender por que essa contradição persiste. A população reconhece amplamente que o assédio existe e que combatê-lo é responsabilidade coletiva. Há um consenso moral que deveria favorecer avanços. Ao mesmo tempo, o País ainda convive com crenças que normalizam a invasão. Ainda há quem interprete mulher sozinha como sinal de disponibilidade, quem leia roupa como autorização e quem trate o beijo forçado como brincadeira. Essa combinação cria um ambiente em que a reprovação formal convive com permissões implícitas.

Esse descompasso ajuda a entender por que a ocupação do espaço público se dá de forma tão desigual mesmo nos momentos de celebração. A rua, que deveria funcionar como território comum, acaba por impor custos distintos a quem a frequenta. Para alguns, ela amplia possibilidades. Para outros, exige atenção constante, autocontrole e cálculo. Isso altera a forma de viver a cidade e limita o acesso pleno a uma experiência que deveria ser compartilhada.

Há, portanto, um desafio de organização que vai além da experiência individual. O carnaval é uma festa de massa planejada, autorizada e viabilizada por uma rede de atores públicos e privados. Quando situações de assédio se repetem, isso revela limites na forma como a festa é pensada, regulada e cuidada. A responsabilidade não pode recair apenas sobre quem sofre a violência ou sobre escolhas pessoais de proteção. Ela envolve a presença do Estado, a atuação dos organizadores, a comunicação clara de regras e a existência de respostas rápidas. Tratar o assédio como um problema estrutural da festa é reconhecer que garantir respeito também faz parte da sua gestão.

Esse debate ganha ainda mais relevância em um país que depende da rua como espaço de convivência e expressão cultural. O modo como cuidamos desse espaço diz muito sobre quem é convidado a permanecer e quem aprende a se retirar antes da hora.

O carnaval é um território em que o Brasil se vê de perto. E, quando isso acontece, também ficam mais evidentes os ajustes necessários. Defender a festa é defender o direito de vivê-la sem medo. Isso não se resolve com moralismo nem com restrição da rua. Avança quando há regra clara, mensagem direta, estrutura pública e consequência. Campanhas de prevenção ajudam a estabelecer referências comuns, mas precisam estar articuladas a acolhimento, orientação e resposta rápida.

A força do carnaval não se mede apenas pelo tamanho da festa. Ela se mede pela capacidade de incluir. O país que canta junto também precisa garantir que todos possam ocupar o espaço público com dignidade. Quanto mais o carnaval conseguir alinhar liberdade e respeito, mais ele preserva o que tem de mais precioso. A alegria como direito, não como privilégio. •

Publicado na edição n° 1400 de CartaCapital, em 18 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Mulheres e assédio no carnaval’

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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