Renato Meirelles

Comunicólogo, presidente do Instituto Locomotiva e fundador do Data Favela, autor de 'Um País Chamado Favela' e 'Como Ser Uma Empresa Antirracista'

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Mudança de hábito

Como as canetas emagrecedoras afetam o modo de consumo da classe C

Mudança de hábito
Mudança de hábito
Ozempic, um dos medicamentos mais vendidos da farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk — Foto: Adobe Stock
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Outro dia, em um dos papos que batemos em nossas pesquisas, ouvi uma frase que vale mais do que gráfico. Uma mulher me disse que, depois de começar a usar a caneta emagrecedora, a geladeira da casa mudou de humor. O refrigerante parou de desaparecer tão rápido, o pacote de salgadinho ficou mais tempo fechado, o chocolate deixou de ser reposição automática na compra do mês. Em compensação, entraram mais frutas, mais proteína, mais água, mais chá. Não era discurso de nutricionista. Era descrição de rotina. E rotina, no Brasil, é onde a opinião pública vira comportamento.

É esse o ponto central que a pesquisa do Instituto Locomotiva ilumina. A discussão sobre as canetas emagrecedoras não pode ficar restrita ao consultório. O que está diante do País é um fenômeno de consumo. Um medicamento que altera o apetite altera a lista de compras, a ida ao restaurante, o pedido de delivery e, no limite, a circulação do dinheiro em casa.

Os dados mostram isso com clareza. Em um terço dos domicílios pesquisados houve ou há alguém usando canetas emagrecedoras. Não se trata mais de um assunto de nicho, restrito a bairros ricos ou a celebridades. Quando um tema chega à mesa de jantar e ao carrinho do atacarejo, virou cotidiano. E, no cotidiano, o impacto é concreto: 80% dos lares com usuários perceberam diminuição de apetite. Em 95%, houve redução no consumo de ao menos uma categoria de alimentos ou bebidas.

O corte aparece justamente naquilo que sempre funcionou como consumo de impulso. Doces, salgadinhos, snacks, refrigerantes, massas, bebida alcoólica e ultraprocessados. É como se uma parte importante da alimentação brasileira, aquela mais guiada pela vontade do momento e pela indulgência, perdesse espaço para uma lógica mais funcional. Ao mesmo tempo, cresce o consumo de proteínas magras, frutas, vegetais, água e chás sem açúcar. Não é apenas comer menos. É reorganizar a relação com a comida.

Isso explica por que o efeito não fica dentro do supermercado. Ele escorre para o resto da economia do prato. Mais da metade dos domicílios com usuários reduziu a frequência de compra de delivery e fast-food, e quase metade diminuiu a ida a restaurantes. Existe uma mudança de hábito que atinge o varejo alimentar e a alimentação fora do lar ao mesmo tempo. O dinheiro que antes passava pela sobremesa, pelo lanche da pressa ou pelo almoço fora de casa começa a ser redirecionado.

E aqui entra um aspecto decisivo, especialmente para quem quer entender o Brasil real: remédio caro também mexe no orçamento. No país do dinheiro contado, toda despesa recorrente empurra outra para fora da mesa. Por isso, a caneta não muda só o que o brasileiro come, ela muda onde ele gasta. Em parte dos lares pesquisados, houve até redução dos gastos totais com alimentação em mercados, supermercados e atacados. O consumo encolhe em algumas frentes e se recompõe em outras, mas o saldo para vários segmentos do mercado de alimentos é de alerta.

Talvez o dado mais revelador seja outro: esse fenômeno desceu a pirâmide. Nas classes A e B, 39% disseram que alguém do domicílio usa ou já usou a caneta. Nas classes C, D e E, o número já chega a 30%. Isso desmonta a leitura preguiçosa de que se trata apenas de uma moda cara, limitada ao topo da renda. O Brasil da classe C foi tocado por esse movimento. E quando a classe C muda hábito, o País inteiro sente. Porque é ela que transforma tendência em escala.

Mas a disseminação não acontece só pelos caminhos formais. Nossa pesquisa mostra que uma parcela expressiva dos usuários recorreu a compras sem receita, pela internet ou até fora do País. Isso revela a existência de um mercado ilegal que cresce juntamente com a demanda. Não é um detalhe lateral. É parte da fotografia. Sempre que o desejo de consumo corre mais rápido do que o acesso regular, o atalho aparece. Foi assim com tantos outros produtos no Brasil. Agora, acontece também nesse mercado.

Não cabe moralismo nem torcida. O papel da pesquisa é menos dizer ao brasileiro o que pensar e mais mostrar o que está acontecendo na vida dele. E o que está acontecendo é simples de entender: as canetas emagrecedoras estão mexendo na fome, no carrinho e no bolso. Estão alterando hábitos alimentares, reorganizando gastos e criando um mercado paralelo que precisa ser enxergado sem ingenuidade.

No fim das contas, a história daquela geladeira mudou porque a rotina mudou. E, quando a rotina muda em milhões de casas, não se está mais diante de uma novidade. Está-se diante de uma transformação social em andamento. •

Publicado na edição n° 1408 de CartaCapital, em 15 de abril de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Mudança de hábito’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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