Aldo Fornazieri

Doutor em Ciência Política pela USP. Foi Diretor Acadêmico da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), onde é professor. Autor de 'Liderança e Poder'

Opinião

Moro é muito mais perigoso do que Bolsonaro

Ao contrário do ex-capitão, o ex-ministro é sistemático, calculista e persecutório

Moro quer se livrar do intermediário. (FOTO: Mateus Bonomi/Agif/AFP)
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Uma comparação ­entre Jair Bolsonaro e Sergio Moro pode encontrar algumas semelhanças, mas também muitas diferenças. Ambos têm pendores fascistoides. Os de Bolsonaro são atabalhoados, caóticos, refletem o quadro de sua desorganização intelectual. Nesse sentido, podem gerar consequências perniciosas, mas, no geral, produzem mais inconsequências, desorganização, incompetência administrativa, incapacidade de alcançar objetivos. É um tipo de fascismo mais de palavras do que de ação. É mais desorganizador do Estado, como se viu, em áreas como a saúde, a educação, a cultura etc.

Moro é metódico, sistemático, persecutório, com ações orientadas para alcançar seus objetivos. A forma como ele se conduziu na Lava Jato é uma prova dessa sistematicidade. Colocou na cadeia o ex-presidente Lula, o líder mais popular da história do País, juntamente com Getúlio Vargas. Não foi pouca coisa. Tinha como outro objetivo destruir a competitividade eleitoral do PT. Foi patrono da vitória de Bolsonaro em 2018.

Moro é muito mais perigoso do que Bolsonaro, em dois sentidos: porque tem método na busca de seus objetivos e porque consegue agregar um corpo auxiliar de capacidade operacional sob seu tacão, como se evidenciou na Lava Jato, ao comandar procuradores, cooptar desembargadores do TRF4 e estender seus tentáculos no próprio Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro não consegue agregar força organizada operacional em torno de si: reúne sua família, seus amigos, seus apaniguados. Quando não são familiares, amigos e oportunistas, recruta desqualificados, a exemplo do ministro da Educação. Seus conselheiros mais próximos provêm dessas relações e disso decorre também sua incompetência administrativa e operacional. O fato de Moro conseguir agregar militares que apoiaram Bolsonaro comprova essa tese. Comprova também que os militares não aprendem nada com seus erros.

Bolsonaro é mais parecido com aqueles ditadores exóticos e folclóricos do rea­lismo fantástico de Gabriel García Márquez. Apresenta-se como um grande valentão, mas chora escondido no banheiro, chora ao implorar a um ministro do STF pela sorte do filho, confessa suas fraquezas publicamente. Moro tem uma mente persecutória, vontade de suprimir seus inimigos, a frieza calculista da maldade sistemática. Nenhum dos dois tem ilustração intelectual. No caso de Bolsonaro, isso é evidente. Moro conseguiu disfarçar seu caráter grotesco. Mas as ­suas sentenças, as suas entrevistas e outras manifestações revelaram suas deficiências intelectuais.

Moro é mais perigoso do que Bolsonaro também em outro ponto: o eleitoral. Aqui se revela a costumeira ingenuidade­ de setores de esquerda que torcem pela candidatura de Moro, porque isso dividiria o bolsonarismo.

Ocorre que, na reta final da campanha, quando ficar evidente que Bolsonaro não vencerá Lula nem ninguém no segundo turno, o eleitorado de direita se movimentará rumo a um candidato mais competitivo de centro-direita ou direita. Esse candidato poderá ser Sergio Moro. Seria um adversário mais perigoso do que Bolsonaro, conseguindo mais votos nos setores médios.

Nas deficiências intelectuais, os dois são muito parecidos

Não resta dúvida de que Moro foi um juiz parcial. O próprio STF o disse. Muito se escreveu e se imaginou que os julgamentos e as parcialidades se deviam ao seu moralismo, à substituição do julgamento imparcial segundo a lei por um julgamento segundo seus valores morais. Hoje é possível dizer que esta é uma avaliação enganosa. Moro substituiu o julgamento imparcial segundo a lei por um julgamento parcial orientado por uma astúcia criminosa guiada pelos seus interesses e objetivos políticos. Nisso residiu seu fascismo jurídico.

Escrevi várias vezes acerca do fato de que Moro adotou, em decisões, um método nazista, chamado de “lei do movimento” por Hannah Arendt. Esse método implica não proceder e não julgar segundo a lei estabelecida, mas por meio da criação de procedimentos jurídicos à margem da lei, conforme o desenrolar dos acontecimentos. De acordo com esse método, não se julgam os fatos segundo a lei, mas se definem procedimentos jurídicos a partir dos interesses do juiz suscitados pelos fatos.

 

Para relembrar, Moro promoveu um vendaval de conduções coercitivas, inclusive a de Lula, prisões preventivas prolongadas e ilegais para arrancar delações mentirosas, pressões ilegais visando delações interessadas, grampeou ilegalmente a presidente Dilma Rousseff, e por aí vai. Mais que isso: foi chefe da Lava Jato, elevando-se à condição de promotor e juiz ao mesmo tempo, algo típico de regimes nazifascistas.

Diante de tantas arbitrariedades, Moro foi declarado parcial. Mas, antes disso, foi integrar o governo de um presidente fascista. Os processos de Lula foram anulados, o que equivale dizer que ele é inocente porque não é um condenado pela Justiça, e que Moro é culpado porque sua culpabilidade e parcialidade foram declaradas pelo STF.

Moro é um corrupto: corrompeu os princípios da Constituição e das leis, e portador de uma moral corrompida, um falso moralismo. Moro é um corrupto no sentido pecuniário do termo: embolsou dinheiro público muito acima do teto salarial do serviço público, o que é, além de clara forma de corrupção, uma prática imoral. Durante este processo pré-eleitoral e eleitoral, Moro precisa ser desmascarado, pois ainda tem gente enganada, que acredita nele. Por vários motivos, ele é uma mentira maior e pior do que a mentira Bolsonaro. É um dever impedir que o embuste continue a governar o Brasil.

Publicado na edição nº 1183 de CartaCapital, em 11 de novembro de 2021.

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