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Opinião

Ministério da (má-)fé

Estamos diante de uma espécie  de clerocracia, uma forma corrupta de teocracia na qual os sacerdotes – no caso, o pastor Milton Ribeiro e seu gabinete paralelo de pastores – exercem a gestão em interesse próprio

Créditos: EBC
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Por Gilson Reis*

Foi o escândalo — mais um — desta semana: em áudio obtido pelo jornal Folha de S. Paulo e divulgado no site do veículo, o ministro da Educação, Milton Ribeiro, afirmou que o governo federal prioriza prefeituras cujos pedidos de liberação de recursos tenham sido negociados pelos pastores Gilmar Santos e Arilton Moura. Sem cargo oficial, ambos atuam num esquema informal de obtenção de verbas do Ministério da Educação. Nas palavras do ministro citadas na imprensa, praticamente a confissão do crime de desvio de verbas, “é apoio sobre a construção das igrejas”.

Não foi a primeira reportagem sobre o caso. Na última semana, o Estadão também tinha noticiado que religiosos ligados ao ministro têm livre circulação na pasta, formando uma espécie de gabinete paralelo responsável por fazer essa intermediação, obviamente não sem interesse entre o ministério e prefeitos em busca de recursos supostamente destinados para a educação. Já no dia 22 de março, o mesmo jornal veiculou que reuniões marcadas por Santos e Moura resultaram em empenhos de R$ 9,7 milhões e que os dois pastores conseguem liberação em prazo recorde de até 16 dias.

Se estivéssemos sob um governo sobre o qual se pudesse cogitar boa-fé, Milton Ribeiro talvez estivesse apenas confuso a respeito das denotações e conotações da palavra que dá nome a seu cargo. Num país, ministério é o conjunto dos ministros de Estado que constituem um gabinete governamental; ou é parte da administração dos negócios do Estado atribuída a cada ministro; ou, ainda, é cada instituição do governo representada por seu ministro e seus funcionários. Ribeiro, porém, é, ele mesmo, um pastor, possivelmente mais acostumado a tratar ministério em seu outro sentido, o de trabalho exercido na igreja por aqueles que recebem as ordens sacramentais.

Não por acaso Milton Ribeiro fala em “atender a todos os que são amigos do pastor Gilmar”, referindo-se, precisamente, a Gilmar Santos, líder, vejam só, do Ministério Cristo para Todos, uma das igrejas evangélicas da Assembleia de Deus em Goiânia. Estaria o ministro da educação desnorteado sobre o ministério ao qual serve? Certamente não. A realidade é que o lugar-comum de agora há pouco foi inapropriado: se o MEC foi transformado num Ministério da Fé, é da má. Também de acordo com o veiculado no último dia 22 pelo Estadão, o prefeito do município de Luis Domingues (MA), Gilberto Braga (PSDB), declarou que Arilton Moura solicitou R$ 15 mil antecipados para protocolar as demandas da cidade junto ao MEC, além do pagamento em um quilo de ouro após a liberação dos recursos para construção de escolas e creches.

Não se trata, portanto, de uma confusão lexical, porque, tanto num Estado quanto numa igreja, a raiz etimológica é a mesma. “Ministerium”, no latim, era a função de servidor, uma função servil, daquele que está ao serviço dos outros. E, portanto, um ministério é algo que o atual ministro da Educação, a despeito do cargo, não exerce, porque, flagrado em tamanho esquema de corrupção, não está a serviço da sociedade nem do respeito à educação como dever do Estado e direito de cada cidadão e cidadã. Da mesma forma, não estão a serviço da comunidade pastores evangélicos que cobram propina em ouro; ao contrário, para manter a analogia religiosa, estão mais para vendilhões do templo.

Não é de hoje a influência dos evangélicos na condução de políticas públicas de educação. Outros escândalos também antecederam o de agora, como em junho do ano passado, quando a imprensa noticiou a nomeação, pelo MEC, do pastor Roque do Nascimento Albuquerque e do tenente do Exército Matheus Coimbra Martins de Aguiar, deputado estadual pelo PSL e autor da lei de implementação das escolas cívico-militares em São Paulo, como membros do Conselho Consultivo do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), autarquia responsável pelo Exame Nacional do Ensino Médio e pesquisas em educação.

Vale lembrar ainda que, do mesmo Fórum Nacional de Educação (FNE) do qual a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee) foi destituída, ainda no governo Temer, juntamente com outras entidades defensoras da educação pública, gratuita, democrática e laica, hoje faz parte a Associação Brasileira de Instituições Educacionais Evangélicas (ABIEE). Isso sem falar em instituições confessionais conveniadas que recebem recursos públicos que deveriam ser destinados à educação pública nos estados e municípios.

Por fim, destaca-se que grande parte da perseguição ideológica empreendida pelo movimento Escola Sem Partido foi orquestrada por esse grupo, que promoveu uma cruzada contra a discussão de questões de gênero nas escolas, por exemplo, no mesmo compasso em que adotava — e segue adotando, como a pandemia escancarou — uma radical postura anticiência.

Não se trata, porém, de uma administração teocrática; é ainda pior. Estamos diante de uma espécie  de clerocracia, uma forma corrupta de teocracia na qual os sacerdotes — no caso, o pastor Milton Ribeiro e seu gabinete paralelo de pastores — exercem a gestão em interesse próprio. Os canalhas e usurpadores da fé humana, que criaram a famigerada Escola Sem Partido, agora desviam recursos da educação para construção de templos religiosos. Isso é crime, roubo, desvio de dinheiro público, charlatanismo, depravação e indecência. Milton Ribeiro deve ser preso!

*Gilson Reis é coordenador-geral da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino — Contee

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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