Alberto Villas

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

Opinião

Minhas cidades

Fui crescendo junto com Beagá e sonhando em morar, um dia, numa metrópole bem agitada, transbordando de gente e automóveis

Igreja da Pampulha, em Belo Horizonte. Foto: iStock
Igreja da Pampulha, em Belo Horizonte. Foto: iStock
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Nasci na provinciana Belo Horizonte, hoje Beagá, no primeiro ano da década de 1950. A cidade era quase uma aldeia. Não tinha prédios, os motoristas de táxi andavam de sapatos engraxados, paletó, gravata, quepe e eram chamados de chauffeur. Quando queríamos comprar um sapato, uma roupa, um manteau, dizíamos: vamos na cidade fazer compras.

Fui crescendo junto com Beagá e sonhando em morar, um dia, numa metrópole bem agitada, transbordando de gente e automóveis.

Menino ainda, acompanhei os meus pais numa aventura chamada Brasília, cidade planejada plantada no Planalto Central do País. Até que gostei, vi ali a possibilidade de um novo tempo. Foi um tempo curto e logo voltamos pra nossa Belo Horizonte, que crescia a olhos vistos.

Aos vinte dois anos, abandonei tudo, meio aflito e apressado, e voei para Paris, a cidade luz. Lá, vivi uma década, uma outra história cheia de alegrias misturadas com saudade e melancolia.

Mas nesse meio tempo, outras cidades passaram pela minha vida e pela minha cabeça.

Cataguases, na Zona da Mata mineira, por exemplo. Cidade do interior que me enchia de lembranças há dez mil quilômetros de onde vivia. Saudade do leite batido que o meu irmão tomava no Mocambo, a banca dos irmãos Reis que vendia revistas novas e velhas, fotonovelas, quadrinhos e fascículos com discos de vinil.

Saudade do Grande Hotel Villas, do bife acebolado passado pelo meu Izidro que chegava fumegando ao prato. Saudade do potinho de vidro de manteiga que ficava escondido debaixo da xícara quando sentávamos para o café da manhã.

Saudade do cheiro do jambo e da carambola na chácara de Dona Catarina, do primeiro beijo na Praça Santa Rita, do trem que cruzava a cidade, do velho maquinista e seu boné.

Ouro Preto, com os seus festivais de Inverno, o Living Theatre, as performances de Julien Beck e Judith Malina, o primeiro gole de cachaça Massangano, as folhas do Diário de Minas enrolando as pernas para aliviar o frio das madrugadas.

Ponte Nova e o Armazém de Zezé Santana, onde de tudo havia. De bala Chita ao Guarapan.

Diamantina, onde fotografava os casarões coloniais, flagrava o reflexo do sol nas pedras incertas forrando o chão da cidade.

O Rio de Janeiro, sempre lindo, onde provava a água do mar de Copacabana cada vez que ali chegava, só pra conferir se continuava salgada.

As passagens por Formiga, Alfenas, Uberaba, Uberlândia, Moeda, Milho Verde, Maria da Fé, Ibirité, até o sonho nunca realizado de conhecer Conceição do Mato Dentro.

Hoje vivo em São Paulo e não reclamo. É aqui nessa confusão urbana, cheia de pessoas de todos os cantos, de automóveis e poluição que guardo todas essas lembranças.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Alberto Villas

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