Milton Rondó: As trevas não vencem a luz

São os caminhos de verdade e vida que se constroem em meio à mentira e à morte

(Foto: Pixabay)

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Opinião

“A cultura do encontro e do diálogo é o caminho da paz.”

Papa Francisco

Todos concordamos que falso é antônimo do verdadeiro, seu contrário, a sombra, na atual conjuntura brasileira, própria a treva.

Não se trata de matiz, tom ou variante, trata-se da total contraposição, do oposto: morte que contrasta a vida, a luz, o esclarecimento.

Muitos também concordamos que as últimas eleições presidenciais foram ganhas por manipulação, com notícias falsas, fake news, em inglês, forma menos pesada de dizer que ingressamos em território da não-realidade, da mentira.

O lema do candidato eleito era: “Brasil acima de tudo” (tradução simplória do alemão “Deutschland uber alles”, de Hitler). No entanto, o governo coloca invariavelmente os interesses do Brasil sob aqueles dos Estados Unidos da América (a política externa e a defesa nacional, inclusive, além da economia e do comércio exterior).

Cabe a pergunta, o descaminho leva aonde?

Com certeza, não leva à verdade e, sem esta, sem realidade, não há vida, mas o contrário, morte.

De fato, vemos a liberação de armas para crianças e adolescentes e a liberação da caça de animais selvagens.

Com a infame “reforma” da Previdência, as viúvas – de civis – terão as pensões reduzidas à metade e as aposentadorias deixarão de ser corrigidas pelas perdas da inflação.

Mas, em definitivo, as trevas não vencem a luz.

Em um contexto de universo paralelo, torna-se condição “sine qua non” – de sobrevivência – o questionamento amplo da “realidade” virtual.

O fato de que sejam os estudantes e as estudantes os principais protagonistas da atual contestação ao governo não é casualidade.

Em reação, a falsidade desfecha ataque às universidades, reduzindo de 30 por cento os recursos alocados pelo Ministério da Educação, pois a verdade traz a morte ilumina a mentira.

Por isso, estudantes, professores e professoras lideram as marchas, abrem os caminhos e desfraldam as bandeiras da verdade, para o horror da inverdade – que foge em busca de apoio dos construtores da mentira, do embuste, dos golpes traidores.

Mas a mentira – é da natureza dela – erra o alvo. Não entende que centro e periferia são construções políticas, não são culturais, são artifícios hegemônicos para a manutenção da dominação.

De fato, a riqueza cultural não se presta à verticalidade – pela própria natureza é horizontal. Há tanta cultura em Francisco Morato – periferia da grande São Paulo, mas única cidade do Estado que nas eleições passadas conseguiu distinguir a verdade da mentira – quanto em Nova York.

Com efeito, a visão da periferia de uma grande cidade não deve nos enganar. Nada há de periférico na verdadeira cultura, apenas a falácia da hegemonia política reduz a riqueza cultural à situação de pobreza socioeconômica e ambiental que nossos olhos percebem.

No caso, a opressão socioeconômica, tentando transformar-se em cultural, é clara: as rodovias que levam a Francisco Morato têm – uma delas, o nome de um ex-presidente cujo neto foi governador de Minas Gerais é notório finório – e a outra, de um bandeirante, ofício de apresador (só o “bandeirante” Morato Coelho teria reduzido à escravidão vinte mil índios guarani, sequestrados à República das Missões).

Recentemente, em conversa com professores e estudantes de colégio de Francisco Morato, no qual estudam mais de dois mil alunos, percebi claramente a riqueza cultural da cidade, “periférica” apenas na geografia da dominação socioeconômica, mas riquíssima em cultura negra, africana e brasileira. Um cadinho de religiões, línguas e etnias, que se reflete nas perguntas pertinentes dos alunos e professores. Ali, lutar é real; nada a ver com a covardia dos tiros e golpes, das balas e da exploração das milícias e seus agentes encastelados no estado – alguns, em nível muito alto.

A luta se faz pela avó que precisa cuidar dos netos; pelas mães solteiras chefes de família; por toda a violência de um país que ainda não conseguiu passar a limpo sua história de brutal exclusão socioeconômica e política.

São lutas reais as que fazem pessoas reais e vice-versa. Dados recentemente divulgados pelo deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ) demonstram que 70,2% dos estudantes das universidades federais têm renda inferior a um salário mínimo e meio; 51,2% são negros e 60,4% estudaram em escolas públicas.

Viver com essa renda no Brasil; ser negro e negra em um país em que os escravagistas são nomes de ruas e até de estradas (ditadores também) e estudar em escolas públicas – sendo o público diuturnamente vilipendiado pela mídia local – não é para qualquer um ou qualquer uma. Só os melhores conseguem, graças a professores e servidores que entregam o melhor de suas vidas a verdadeiros filhos adotivos, tais são as carências que são chamados a suprir.

São os caminhos de verdade e vida que se constroem em meio à mentira e à morte, como a luz que atravessa as trevas, qual verdade que enfim liberta pessoas, povos e nações.

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da Organização das Nações Unidas (ONU) e representante, alterno, do Ministério das Relações Exteriores no extinto Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

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