Migrações na pandemia: vidas que não importam

Pessoas vindas de nações devastadas pelo colonialismo experimentam em campos de refugiados na pandemia o aprofundamento da desumanidade,

Refugiadas em campo na Grécia. ARIS MESSINIS / AFP

Refugiadas em campo na Grécia. ARIS MESSINIS / AFP

Mundo,Opinião

A pandemia vem desmascarando os sistemas de continuidades do colonialismo todos os dias e só não vê isso quem não quer. A morte entre a população negra vem aumentando e eu me pergunto como pode o país que vem sendo festejado por ser a maior democracia dos séculos pode acreditar que seja possível haver democracia dentro de um contexto de racismo.

Ou ainda: como pode haver democracia enquanto jovens e crianças estão sendo separados de famílias e colocados em espaços sem condições sanitárias, lugares onde eles são colocados lado a lado e contaminam-se mutuamente não somente com o vírus do Covid-19, mas também com todos os outros que ainda continuam existindo. Essa é a realidade de milhões de pessoas em campos de refugiados, pessoas que saíram de suas casas e nações devastadas pelo colonialismo em busca de sobrevivência.

Nos Estados Unidos, no Brasil ou na Alemanha a migração só é vista como problema quando se trata de pessoas que vêm dos países que foram invadidos e colonizados. Nunca ouvimos falar aqui sobre ser problema quando um francês ou holandês ou inglês decide deixar a terra onde nasceu porque pode estender seus privilégios de Europeu aqui na Alemanha, no Brasil ou nos Estados Unidos.

Como nos mostra a história, a imigração, quando vinda de “lugares certos” é glamourizada. Inclusive aqui na Alemanha, onde resido, há uma outra definição para os alemães que imigram para outros países como, por exemplo, para a ilha de Maiorca, que inclusive é chamada de 17ª unidade Federal da Alemanha, porque a população alemã lá já é quase tão grande quanto a população local, com a diferença de que lá os alemães viraram proprietários de todos os tipos de negócios e a população local são vistos e posicionados como serviçais.

Para este tipo de imigração a televisão fala de “Auswanderer”, ou seja, que se muda de um local para outro, que vai pra fora do país, o antônimo é “Einwanderer”, ou seja quem vem para dentro do país. Entre Aus e Ein – Wanderung, a única diferença é a direção, no entanto a forma como é visto muda completamente. Os “Einwanderer”, os que vêm aqui à busca de segurança fugindo de guerras ou represálias, estes são denominados de migrantes e submetidos a toda sorte de desumanização. Segundo declarou em 2018 o Ministro do Interior e da Segurança da Alemanha, a migração é a mãe de todos os problemas.

Fato é que sem a migração a Alemanha não teria sida reconstruída e sofreria muito mais com a falta de mão de obra qualificada que já vem sofrendo.

No jornal FAZ (Frankfurter Allgemeine), que leio nos fins de semana, deparo-me com o artigo “Amerikas Megrationskrise”, de autoria de Majid Sattar. No artigo o autor descreve que o novo presidente percebeu que há uma grande crise de migração. De um lado, por conta da pandemia, muitos migrantes da América latina estão marchando para as fronteiras dos Estados Unidos na esperança de que consigam adentrar neste país que promete riqueza para todos. Contudo, como fazer quando no país, que promete ser uma democracia e fala em chances, mas onde pessoas não tem direito a um atendimento médico digno, uma vez que o plano de saúde está acoplado ao trabalho?

Assim como os europeus, que empregaram um modelo de devastação nos continentes do Sul do Mundo, os estadunidenses, que através das usurpações de seus antepassados se apossaram de terras e estabelecerem os sistemas discriminatórios que lhes garantem privilégios, querem nos fazer crer de que este é o modelo correto para o mundo.

Vemos, então, como a hipocrisia é um pano de fundo dos debates sobre imigração em países do Norte Global. Sob o peso dessas injustiças, milhões de pessoas em situação de imigração se veem desumanizadas e desprotegidas, cenário ainda mais grave no meio de uma pandemia que hierarquiza vidas, algumas recebendo vacinas e cuidados médicos, ao passo que outras ficam sem atendimento algum.

Sabemos bem quais vidas são essas.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Nascida e criada em Salvador da Bahia. Quinta de oito crianças, formada em Letras Vernáculas pela UFBa. Pós-Graduada em Literatura Contemporânea pela UEFS-Bahia. Formada em Etinologia e Lusitanística pela Johannes-Gutenberg-Universität-Mainz. Fundadora da ONG-BrasilNilê. Embaixadora da Década Internacional dos Afrodescentes na Alemanha.

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