Alberto Villas

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

Opinião

Meu canudo de papel, parte 1

Quando via aquele pessoal do sindicato no meio da redação, falando no tal DRT, ficava quietinho quietinho

Foto: Agência Brasil
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Faltavam apenas três disciplinas para que eu completasse o curso de Jornalismo quando resolvi pegar o primeiro avião com destino a felicidade. Nem me lembro mais quais eram elas, sei que Psicologia era uma.

Na minha mochila cheia de ilusão, levei aquela papelada toda da UFMG, tudo traduzido por um tradutor juramentado para que eu pudesse me matricular numa universidade em Paris.

Antes de colocar aquela pasta enorme em cima do balcão da secretaria do Institut Français de Presse, passei um ano inteirinho estudando francês 24 horas por dia. Minha turma tinha vinte e cinco chineses e aprender francês junto aqueles que não conseguiam soletrar bonjour, não foi fácil. Mas isso é outra história.

Arranhando um francês meio macarrônico, com sotaque chinês, lá fui eu me matricular no curso de Jornalismo na Sorbonne Nouvelle. De nada adiantaram aquelas folhas e mais folhas de A4. A madame sequer quis passar os olhos. Mas eu acabei me matriculando.

Passei uma temporada ali num curso cem por cento teórico, aprendendo tudo sobre a imprensa turca, grega, asiática, americana, comunista, católica, judia.

Fiquei ali assistindo àquelas aulas intermináveis de Monsieur Pierre Albert, até chegar a hora de apresentar a minha tese sobre a censura de imprensa no Brasil, tese que fiz com muito afinco e uma francesinha ao lado para não deixar escapar uma vírgula errada.

Felicidade! Deu certo! Fui aprovado e, no mesmo dia, saí daquele prédio na Rue D’Assas com o meu canudo de papel debaixo do braço.

Depois de quase uma década sem pisar em terras brasileiras, voltei para a minha aldeia, mas a vontade era de trabalhar em São Paulo. Peguei um ônibus da Itapemirim e baixei na casa de um amigo para procurar emprego. De cara, fiquei sabendo que o Jornal da República tinha acabado de fechar e os cinquenta melhores jornalistas da cidade estavam no olho da rua, também procurando emprego.

Não sei se por sorte, ou sorte mesmo, consegui um emprego no Estadão. Você começa amanhã! Foi assim que comecei, separando telex, trabalhando entre cinco da tarde e uma da madrugada.

Estreei no Estadão sem passar no RH, sem levar documentos, nada nada, o que me foi pedido alguns dias depois. Era uma lista de uns dez itens, entre eles, fotocópia autenticada do diploma e o DRT. Gelei.

O meu diploma era francês e DRT, eu nem sabia o que era. Alguém lá me tranquilizou. É bico, basta ir na USP pra validar o diploma e tirar o DRT.

No dia seguinte, cedo, estava eu lá no campus e vi que não era bem aquilo. Além do diploma, me pediram todo o currículo que havia feito em Paris, traduzido, é claro.

Avisei ao Estadão e eles ficaram esperando sentados os documentos, durante sete anos, tempo que trabalhei lá.

Tinha épocas que eu desencanava, outras tremia. Quando via aquele pessoal do sindicato no meio da redação, falando no tal DRT. Ficava quietinho quietinho.

Do Estadão, pulei para a TV Bandeirantes, que nunca me pediu diploma. Depois SBT, Abril Vídeo, TV Manchete, revista Vogue, Folha de S.Paulo e, por incrível que pareça, ninguém nunca me pediu o tal canudo de papel.

Me esqueci de contar que a USP simplesmente negou a validação do diploma. Se quisesse ser jornalista, tinha de começar tudo de novo e pelo vestibular.

Foi quando fui convidado para ir trabalhar na Globo.

[Continua semana que vem]

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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