Alberto Villas

villasnews@uol.com.br

Jornalista e escritor, edita a newsletter 'O Sol' e está escrevendo o livro 'O ano em que você nasceu'

Opinião

Mensagem apagada

‘Eu fico tenso porque passo um tempão imaginando o que estaria escrito ali naquela mensagem que meu amigo ou minha amiga desistiu de me enviar

Mensagem apagada
Mensagem apagada
Foto: iStock
Apoie Siga-nos no

Acho até que me dei razoavelmente bem ao me transferir do mundo analógico para o virtual. No princípio, foi o caos. Quando o computador chegou e tive que deixar a velha Remington de lado, tinha pânico de clicar numa tecla e tirar a TV Globo do ar. Se não, explodir uma segunda bomba sob Hiroshima.

Aos poucos, fui percebendo que não era bem assim.

Para passar do telefone fixo, preto, pesado, no canto da sala, foi um pulo. Num piscar de olhos, já estava esticando a anteninha pra falar no celular. Depois vieram as mensagens e as fotografias. As mensagens, confesso que eu, datilógrafo diplomado, até hoje tenho dificuldade de escrever. Continuo catando milho com os dois dedos.

Abandonar a velha Nikon também não foi muito difícil. Senti um certo alívio de me livrar daqueles filmes Kodak Ektacrome que eu sempre me atrapalhava na hora de colocar dentro da máquina.

E assim o mundo, juntamente comigo, foi caminhando. Me adaptei à caixa eletrônica, a comprar livros na Amazon, digitar na tecla do computador, tanto é que hoje sinto a munheca doendo sempre que tenho de pegar a caneta e escrever mais do cinco palavras.

Confesso que tem coisas que não faço. Chamar um Uber, por exemplo. Minha mulher me ensinou, eu achei que tinha aprendido, mas fiquei traumatizado quando fui, sozinho, colocar em prática os meus conhecimentos. Apertei tanto confirma que, de repente, o porteiro do meu prédio me ligou dizendo que tinha seis carros lá embaixo me esperando. Foi um vexame e eu nunca mais pedi um Uber.

Irritado ainda fico quando ligo pra assistência de qualquer eletrodoméstico e o robô começa a perguntar o tipo da máquina de lavar louça, a marca, o código, e o que é o pior: qual é o defeito. Nunca sei. Só sei que ela não funciona.

Irritado fiquei também um dia quando liguei para uma mega loja de material de construção para comprar uma latinha de tinta e aquela voz metálica começou a me bombardear: se for látex disque 1, se for acrílica disque 2, se for cor disque 3, se for Suvinil, disque 4, Coral disque 5… Desliguei e fui lá comprar a latinha de tinta branca.

Mas hoje, o que me atormenta, não é nada disso. O que me deixa tenso é quando abro o meu WhatsApp e encontro uma mensagem apagada. Meu Deus, a pessoa devia apagar e pronto. Já imaginou se naquelas provas de matemática, quando você errava e apagava uma equação, tivesse que escrever: cálculo apagado?

Eu fico tenso porque passo um tempão imaginando o que estaria escrito ali naquela mensagem apagada que meu amigo, minha amiga desistiu de me enviar. Será que era uma Fake News, que ele ficou sabendo que era Fake News, foi lá e apagou? Seria talvez um pedido de empréstimo, que ele acabou ficando encabulado de pedir e apagou? Será uma reunião marcada que acabou sendo cancelada? Será que não era um recado para outra pessoa, que veio errado? Fico horas tentando decifrar o enigma da mensagem apagada.

Outro dia fiquei pensando se não seria simplesmente um eu te amo, que ela mandou e, em seguida, se arrependeu de me mandar e apagou. Será?

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

ENTENDA MAIS SOBRE: , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Depois de anos bicudos, voltamos a um Brasil minimamente normal. Este novo normal, contudo, segue repleto de incertezas. A ameaça bolsonarista persiste e os apetites do mercado e do Congresso continuam a pressionar o governo. Lá fora, o avanço global da extrema-direita e a brutalidade em Gaza e na Ucrânia arriscam implodir os frágeis alicerces da governança mundial.

CartaCapital não tem o apoio de bancos e fundações. Sobrevive, unicamente, da venda de anúncios e projetos e das contribuições de seus leitores. E seu apoio, leitor, é cada vez mais fundamental.

Não deixe a Carta parar. Se você valoriza o bom jornalismo, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal da revista ou contribua com o quanto puder.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo