Nikkole Presotto

Fotógrafa e cinegrafista, apaixonada por arte, cinema, rock do fim dos anos 60, poesia e cultura psicodélica. Estudou Direção Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema (AIC).

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‘Medo e Delírio em Las Vegas’ – Catarse psicodélica injetada na retina

Filme de 1998 é baseado em livro de Hunther S. Thompson

‘Medo e Delírio em Las Vegas’ – Catarse psicodélica injetada na retina
‘Medo e Delírio em Las Vegas’ – Catarse psicodélica injetada na retina
Cena de 'Medo e Delírio em Las Vegas' – imagem: reprodução
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No início dos anos 70, a contracultura psicodélica perdeu fôlego. O sonho hippie entrou em ressaca. Ídolos mortos, líderes presos, promessas evaporadas. A expansão infinita revelou seu limite histórico. A onda recuou.

Décadas depois, desse refluxo surge Medo e Delírio em Las Vegas (1998), dirigido por Terry Gilliam e baseado no livro de Hunter S. Thompson. A narrativa nasce de uma cobertura jornalística em Las Vegas — a Mint 400, uma conferência sobre narcóticos — mas implode rapidamente. Fato vira ficção. Ficção vira excesso. O gonzo é essa combustão: exagero como método, distorção como forma de verdade.

Thompson reaparece como Raoul Duke, vivido por Johnny Depp; Oscar Zeta Acosta transforma-se no vulcânico Dr. Gonzo, interpretado por Benicio del Toro. Dois homens atravessam o deserto carregando uma maleta de substâncias e uma pergunta impossível: onde está o coração do sonho americano?

O filme não descreve a lisergia: encena-a. Rostos se deformam, o carpete ondula, o neon pulsa febril. A câmera entorta o espaço, a montagem fratura a continuidade, o som embaralha frequências. Mas a lisergia não cria o caos — ela ilumina o que já apodrecia sob o brilho do neon. Las Vegas não é um mundo estável invadido pelo delírio; é um cenário já grotesco, onde o excesso químico funciona como lente de aumento.

Há humor, mas é bisturi. Rimos do exagero porque ele escancara a farsa. A rebeldia foi reciclada como espetáculo. Liberdade empacotada. Experiência vendida. O sonho americano cintila como miragem elétrica — vibrante, artificial, instável.

Se naquela época dois homens alterados atravessavam um mundo já deformado, hoje a deformação tornou-se atmosfera. Vivemos sob hiperestimulação permanente. Telas, notificações, filtros, ruídos. A realidade chega fragmentada, acelerada, saturada. O neon escapou dos cassinos e colonizou o cotidiano. A percepção já não precisa de ácido para oscilar.

O livro e o filme são desmedidos porque precisam ser. O gonzo amplia para revelar fissuras. Não há apologia nem moralismo — há o retrato de um sonho que implodiu sob sua própria intensidade.

A psicodelia não morreu naquele deserto. Perdeu ingenuidade, ganhou densidade. Rebeldes e psiconautas que sobreviveram à quebra da onda migraram para territórios subterrâneos; outros converteram o excesso em pesquisa, terapia, ciência. A expansão deixou de ser carnaval químico e passou a exigir elaboração.

Expansão sem consciência vira vertigem. Com consciência, torna-se travessia.

Assistir ao filme é experimentar, por duas horas, a instabilidade perceptiva que já nos habita.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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