Guilherme Boulos

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Coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Foi candidato à Presidência da República em 2018, pelo PSOL.

Opinião

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Massacre do Pinheirinho, 10 anos: Alckmin foi responsável direto pelo violento despejo

Na política, a capacidade de diálogo não pode ser confundida com perda de memória

Destroços do que foi o assentamento Pinheirinho, em São José dos Campos. Foto: Murilo Machado
Destroços do que foi o assentamento Pinheirinho, em São José dos Campos. Foto: Murilo Machado
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Dia 22 de janeiro de 2012. A comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos, interior de São Paulo, amanheceu sitiada pela polícia. Iniciava-se ali um dos despejos mais violentos da história, que desalojou milhares de famílias, incendiou casas e deixou sequelas físicas e psicológicas. Eu estava lá e pude presenciar o desespero de mães, crianças e idosos que simplesmente não tinham para onde ir, após terem suas casas derrubadas. Houve, inclusive, um caso de abuso sexual, posteriormente denunciado ao Ministério Público, a envolver policiais da Rota.

Na noite anterior, por incrível que pareça, havia ocorrido uma grande festa no Pinheirinho. E com razão: os moradores tinham conseguido uma decisão da Justiça Federal que suspendia a ordem de despejo, anteriormente emitida pela Justiça de São Paulo. Ocorreu, então, o que se chama no Direito de “conflito de competências” entre duas decisões contrárias. Coube ao então governador, Geraldo Alckmin, tomar a decisão política de fazer o despejo e ignorar a determinação da Justiça Federal. Sem qualquer aviso prévio, a polícia tomou a comunidade antes das 6 da manhã.

Hoje cotado para vice de Lula, ­Alckmin carrega essa mancha inesquecível, dentre tantas outras, aliás. No Pinheirinho, foi o pivô de uma operação de guerra, em aliança com o então prefeito de São José dos Campos, Eduardo Cury, também do PSDB, setores do Judiciário paulista e o especulador Naji Nahas, proprietário da área. O terreno, diga-se, continua vazio, ainda com sinais de ruínas das casas que um dia existiram por lá.

Na política, a capacidade de diálogo não pode ser confundida com perda de memória. Alckmin representou em São Paulo, durante seus três mandatos, a política antipopular e de violência contra os mais pobres, que teve um grande símbolo no massacre do Pinheirinho. E que também se expressou no aumento de assassinatos de jovens negros e periféricos pela polícia, na tentativa do fechamento de escolas, na reiterada repressão a manifestações de professores por melhores salários e no recorde de construção de presídios no estado de São Paulo. A memória de famílias que perderam violentamente suas casas ou de mães que perderam seus filhos não se apaga.

Lembro-me que, após o despejo, os moradores foram jogados em ginásios e galpões e muitos perderam tudo que tinham. Ficaram durante quatro anos em situação de precariedade, a depender de auxílio-aluguel ou em casas de parentes, até a inauguração do conjunto Pinheirinho dos Palmares, numa região bem mais distante e menos valorizada, em São José. O conjunto, aliás, foi feito pelo programa federal Minha Casa Minha Vida, ainda no governo Dilma, e não pelos responsáveis políticos pelo despejo.

Estive algumas vezes no conjunto Pinheirinho dos Palmares e tive a oportunidade de conversar com moradores. Muitos ainda carregam consigo as cicatrizes daquele despejo. Trabalhadores que perderam o emprego, crianças que perderam o ano escolar, famílias desfeitas, casos de depressão e alcoolismo após o trauma. Uma senhora relatou que, ainda hoje, acorda com qualquer barulho durante a noite, com o pensamento de que é a polícia para despejá-la novamente.

Dez anos após aquela manhã trágica, podemos ver que a saga do Pinheirinho, se revelou a covardia das autoridades, revelou também a incrível capacidade de resistência daquele povo. Mesmo abatidos e desnorteados com o despejo, os sem-teto se organizaram, fizeram manifestações, denúncias públicas e conquistaram a construção do conjunto habitacional. Marrom, principal liderança da ocupação, não perdeu a fala mansa e suas piadas seguiram divertindo as assembleias. A comunidade transformou o trauma em luta e terminou por inspirar outras batalhas por moradia popular.

Em 2019, o MTST inaugurou o conjunto Novo Pinheirinho, em Santo André, conquistado por moradores de uma ocupação, com o mesmo nome, que foi feita logo após o despejo de São José dos Campos. Nessa, e em tantas outras lutas, a memória do Pinheirinho segue viva. E, por mais tempo que passe, não esqueceremos quem foram os responsáveis por esse gesto de barbárie. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1192 DE CARTACAPITAL, EM 26 DE JANEIRO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Massacre do Pinheirinho, 10 anos”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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