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Mais mulheres na política

É preciso ampliar o espaço feminino no poder, para que as demandas populares por igualdade e justiça se tornem efetivas. Os casos recentes de violência só reforçam a urgência de se garantir essa maior participação

 Foto: Pablo Valadares/Agência Câmara
Foto: Pablo Valadares/Agência Câmara
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As propagandas partidárias, sobretudo aquelas das siglas do campo progressista e de esquerda, repetem exaustivamente o mantra de que é preciso ter mais mulheres na política. Muitos dos argumentos são de que somos a maioria da população e também a maior parte dos eleitores, o que é uma grande verdade. Entretanto, por conta do fisiologismo generalizado e o fato de outras legendas não apresentarem candidaturas femininas defendendo as causas de gênero, mas sim aquelas do interesse econômico e muitas vezes familiar, as discussões sobre a nossa participação nos espaços de poder acabam por ocorrer dentro ou gravitando sempre em torno da mesma bolha.

Mas os acontecimentos da última semana colocam novamente na ordem do dia a necessidade do debate sobre a importância de elegermos mulheres para a Câmara dos Deputados e também para o Senado Federal. Mesmo com uma aguerrida bancada feminina nas duas casas legislativas, com parlamentares combativas, ainda é possível ver uma juíza julgar contra os interesses do bom senso e “condenar” uma menina de 11 anos de idade a prosseguir com uma gestação que foi fruto de um estupro. Ou seja: a garota, que já havia sido vítima de uma tremenda atrocidade, foi punida por quem deveria defendê-la, o próprio Estado, por meio de uma legítima representante do Tribunal de Justiça. (Nota da redação: O Ministério Público Federal informou nesta quinta-feira 23 que a menina conseguiu fazer o aborto)

Outra cena lamentável foi a de uma procuradora do interior de São Paulo covardemente agredida por um homem que era seu colega de trabalho. O vídeo que mostrou Gabriela Samadello Monteiro de Barros, do município de Registro, sendo espancada pelo também procurador Demetrius Oliveira Macedo foi exaustivamente postado nas redes sociais e a foto da agente pública, com um dos olhos completamente lesionado e o rosto encharcado de sangue, nos chocou a todas, inclusive repórteres mulheres que cobriram tamanho absurdo. (Nota da redação: O homem foi preso nesta quinta-feira 23 em São Paulo).

Para encerrar a semana de horrores vivida por mulheres brasileiras, isso somente para mencionar dois episódios sobre os quais a gente teve notícia, houve ainda o relato de uma cabeleireira que teve vídeos vazados do momento em que foi estuprada por desconhecidos em um festival de música no estado de Goiás. A mulher, que contou ter “apagado” após tomar uma bebida, relatou ainda que foi dissuadida por policiais de prestar queixa em uma delegacia. Após a repercussão do caso, as autoridades goianas aceitaram o registro do crime. A mulher sofreu, no entanto, prejuízos psicológicos, financeiros e de imagem, pois perdeu inúmeros clientes em função do trágico episódio.

Lembro-me que em 1988 tivemos avanços importantes com a Constituição e eu integrava, então, a chamada “Bancada do Batom”. A principal conquista foi de que “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações”, segundo o Artigo 5º da Carta Magna promulgada. Isso foi possível porque eram poucas, mas tínhamos mulheres na Câmara dos Deputados. Sem a nossa presença, haveria mais dificuldades na conquista de direitos.

Na última eleição, tivemos um grande avanço com o fundo eleitoral para financiar 30% de candidaturas de mulheres. A bancada feminina na Câmara saiu de 51 para 77 deputadas e isso ocorreu após consulta que fizemos (na época como senadora) à ministra ­Rosa ­Weber, então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ou seja, houve um esforço concentrado de mulheres para que pudéssemos estabelecer um equilíbrio nas regras do jogo eleitoral.

Mais recentemente, conseguimos aprovar, de autoria do nosso mandato, a Lei Mariana Ferrer, um grande avanço para as mulheres vítimas de violência sexual. Inclusive, a própria Mariana, que dá nome à lei, foi ofendida e constrangida durante julgamento em que era vítima.

Por todos esses fatos, precisamos e vamos seguir sempre repetindo o mantra de que é preciso, sim, aumentar a participação da mulher nos espaços de poder, sobretudo no Senado e na Câmara dos Deputados. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1214 DE CARTACAPITAL, EM 29 DE JUNHO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Mais mulheres na política”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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Lídice da Mata

Lídice da Mata
Deputada Federal (PSB-BA)

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