Paulo Nogueira Batista Jr.

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Economista. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, e diretor-executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países

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Lula joga sozinho

O adversário não pode escalar nosso time

Lula joga sozinho
Lula joga sozinho
O presidente Lula (PT), durante coletiva de imprensa nos Estados Unidos. Foto: Andrew Harnik/Getty Images/AFP
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Eleições 2026

Um tema do momento é a dificuldade de traduzir os resultados econômicos do governo Lula em intenções de voto para outubro. Entendo pouco ou nada de eleições, mas posso arriscar algumas conjecturas? (Hoje em dia, todos falam de tudo.)

O Lula 3 produziu, de fato, resultados razoáveis, até bons, na área econômica – crescimento do PIB (ainda que modesto), desemprego em queda (para os menores níveis registrados), inflação controlada (embora com preços elevados de produtos críticos, como alimentos), entre outros feitos. É nítida a melhora em relação à situação que vigorava nos governos Temer e Bolsonaro.

But it’s not the economy, stupid! (Mas não é a economia, estúpido!), poderíamos dizer, invertendo o célebre chavão oriundo dos Estados Unidos. E mesmo a economia não está lá essas coisas – vide os juros escorchantes, o endividamento das famílias, as políticas governamentais inibidas pelo arcabouço fiscal, o reduzido investimento público e privado etc.

Mas, para além da economia, falta algo fundamental – o governo não tem marca, não tem audácia, não tem alma. E que falta faz uma alma!

Desde o seu início, em 2023, o governo federal e a sua precária base parlamentar estão infestados de gente que pouco ou nada tem a ver com a transformação real do País. Temos de tudo: neoliberais, carreiristas, fisiológicos, e até sionistas. E, meio perdidos nesse ambiente hostil, uma minoria de brasileiros que luta no governo para defender e mudar o Brasil.

Nem preciso dar exemplos, mas vamos lá. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio ficou quase totalmente dominado por neoliberais. O Itamaraty, apesar dos esforços de muitos bons diplomatas, ficou prejudicado pela presença insuficiente de quadros ligados à tradição nacional-desenvolvimentista, que foi tão forte na casa. No Ministério da Fazenda, também faz falta a presença de quadros menos comprometidos com o neoliberalismo e o carreirismo. No Ministério do Planejamento, ao menos no tempo da ministra Simone Tebet­, que deixou o cargo há pouco, a equipe quase inteira, com poucas exceções, era de orientação neoliberal – e se existe algo que não combina de jeito nenhum com planejamento é precisamente o neoliberalismo. E do Banco Central, bem, deste nem preciso falar. Já tratei dele no meu artigo anterior aqui na CartaCapital (Ato de traição?, edição de 6 maio).

Meu pai, que morreu em 1994, costumava dizer: “O problema do Brasil é que deixamos o adversário escalar nosso time”. Esse problema crônico, que se manifestou, em maior ou menor medida, em todos os governos nas décadas recentes, aparece claramente no atual. Meu pai era ele mesmo um caso notável. Um dos maiores diplomatas, se não o maior da sua geração, ele teve carreira brilhante, mas nunca chegou a ser ministro de Estado nem secretário-geral. E, no entanto, posso dizer com tranquilidade, e sem favor de filho para pai: ele era, como diplomata e homem público, muito superior à maioria daqueles que exerceram essas funções. Havia um problema, entretanto. A sua nomeação incomodaria os nossos amigos do Norte. Melhor não arriscar, pensaram sucessivos presidentes.

Imagine, leitor ou leitora, quantos brasileiros e brasileiras existem em todas as áreas que não são convocados por serem honestos demais, independentes demais, combativos demais. São vetados por políticos venais, por interesses econômicos e por forças estrangeiras e seus aliados domésticos. Refiro-me ao sistema financeiro e outros lobbies empresariais, à mídia corporativa e a entidades locais que representam ou são controladas por ideologias e interesses estrangeiros. Da Febraban à Conib, da Fiesp à Rede Globo, da CNA à CNI.

Resultado: o time escalado fica, na melhor das hipóteses, repleto de nomes hábeis, jeitosos, mas sem coragem e imaginação. São poucos os que entram em bola dividida. No fundo, no fundo, infelizmente, a escalação é a própria imagem do Brasil – país em que sobra jogo de cintura, mas falta espinha dorsal.

Na nossa seleção atual, temos como centroavante e capitão do time um presidente da República experiente, tarimbado, um jogador de fama internacional. Perde uns gols incríveis, é verdade, mas a sua capacidade é inegável. Eis o problema, porém: a bola chega nele? Ou ele é forçado a voltar à intermediária para buscá-la? A verdade é que o centroavante acaba sem opções de jogo, uma vez que boa parte do resto do time passa a bola para o lado ou para trás, quando não faz gol contra!

E fica assim a nossa seleção – jogando para empate ou até para perder de pouco. Com esse tipo de time, claro, não se ganha partida nenhuma e muito menos campeonatos. •

Publicado na edição n° 1413 de CartaCapital, em 20 de maio de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Lula joga sozinho’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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