Paulo Nogueira Batista Jr.

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Economista. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, e diretor-executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países

Opinião

Lula está errado, a situação das contas externas dá margem de manobra na economia

Apesar dessas ressalvas, o ponto a reter é que o Brasil, em um aspecto crucial, está em posição consideravelmente melhor do que já esteve – não só em 2002, mas em boa parte das décadas de 1980 e 1990

O ex-presidente Lula. Foto: Ricardo Stuckert
O ex-presidente Lula. Foto: Ricardo Stuckert
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Que economia herdará o futuro presidente? Vamos dizer que seja o Lula. Ele tem dito que pegará, se eleito, um país muito pior do que em 2003, quando chegou à Presidência da República pela primeira vez.

Será verdadeira essa afirmativa de Lula para o campo econômico? Para algumas áreas sim, mas não para todas, e em especial não para uma que é de importância estratégica: a situação das contas externas, crucial para definir a vulnerabilidade do País a pressões estrangeiras. Sem levar esse aspecto na devida conta, não se forma uma avaliação realista das opções que se oferecem a um novo governo.

Em 2002, Fernando Henrique Cardoso deixava a Presidência depois de oito anos no poder. Os resultados na área econômica foram sofríveis, de modo geral. FHC controlou a inflação, sim, mas deixou tudo mais pendurado por barbante. No final, até a inflação já escapava do controle.

A fragilidade externa brasileira, durante o período FHC, de 1995 a 2002, decorria de um substancial déficit em conta corrente, da dependência de capitais externos, da liberalização prematura dos movimentos de capital e do nível reduzido das reservas internacionais. As reservas brasileiras ficaram em torno de 30 bilhões a 35 bilhões de dólares no período 1999-2001. Quando a crise se agravou, em 2002, em parte por causa dos receios da vitória de Lula, o Banco Central estava sem bala na agulha. Não aproveitara os períodos de relativa tranquilidade para reforçar o seu caixa em moeda estrangeira. A solução melancólica foi recorrer mais uma vez ao FMI. Em dezembro de 2002, no fim do governo FHC, as reservas líquidas, deduzidas as obrigações com o Fundo, eram de apenas 17 bilhões.

Como está o quadro hoje? A situação externa do Brasil é muito melhor do que era em 2002. O déficit em transações correntes (balança comercial, serviços e rendas) é pequeno, de 1,7% do PIB em 2021. O investimento direto líquido (descontado o investimento de residentes no exterior), que é uma forma mais estável de capital, cobre a quase totalidade do déficit corrente.

O ponto central é o elevado estoque de reservas internacionais, resultado do esforço de acumulação realizado nos governos Lula e Dilma. Com muita demora, as autoridades econômicas brasileiras começaram a fortalecer as reservas de modo expressivo a partir de 2006 (outros países em desenvolvimento, notadamente na Ásia, começaram muito antes, na década de 1990). Nos governos Temer e Bolsonaro, o nível de reservas ficou estável. Pelo menos nesse ponto não houve estrago no período pós-golpe. No fim de 2021, as reservas estavam em 362 bilhões de dólares. A posição brasileira é muito mais confortável do que a de outros países emergentes, a Argentina e a Turquia, por exemplo.

Não quero, leitor, passar a impressão de que a nossa posição externa é invulnerável. Há pontos de fragilidade. Por exemplo, o que aconteceria com o déficit em transações correntes, que mede a dependência líquida de capitais externos, se houvesse retomada do crescimento da economia, especialmente em combinação com apreciação cambial? Em outras palavras, o déficit ajustado para excluir tanto efeitos cíclicos como uma depreciação cambial talvez exagerada é maior do que o déficit observado.

Outro problema potencial: o que aconteceria com a posição externa da economia no caso de uma redução abrupta da liquidez internacional provocada por um endurecimento da política monetária dos Estados Unidos? Com uma conta de capitais muito aberta, o resultado seria uma forte pressão sobre a taxa de câmbio. O câmbio flutuante confere alguma proteção, livrando o Banco Central de defender determinada meta cambial. As reservas também são uma garantia contra ameaças externas.

Porém, uma depreciação cambial adicional dificultaria o controle da inflação. E as reservas já não são mais o que foram em períodos anteriores. Elas devem ser avaliadas não apenas em termos absolutos, mas também em relação a outros indicadores relevantes. Desde 2015, elas vêm caindo gradualmente relativamente às importações de bens e serviços, em relação a um agregado monetário amplo (M2) e comparadas à dívida externa de curto prazo (por maturidade residual).

Apesar dessas ressalvas, o ponto a reter é que o Brasil, em um aspecto crucial, está em posição consideravelmente melhor do que já esteve – não só em 2002, mas em boa parte das décadas de 1980 e 1990.

Isso confere margem de manobra ao governo brasileiro, atual e futuro. O ­atual governo não sabe o que fazer com isso. O futuro governo saberá? •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1196 DE CARTACAPITAL, EM 23 DE FEVEREIRO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Lula está errado”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Paulo Nogueira Batista Jr.

Paulo Nogueira Batista Jr.
Economista. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, e diretor-executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países

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