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Limites éticos
O organoide, um pequeno cérebro que cresce no interior de um frasco de laboratório, desperta a curiosidade e o medo do desconhecido
Organoides são pequenas esferas formadas por células humanas semeadas em placas de cultura. Oriundas de células-tronco com potencial para se multiplicar e formar qualquer tecido, elas podem diferenciar-se em miniórgãos: fígado, músculo cardíaco ou cérebro.
Células-tronco isoladas do cérebro humano tratadas com fatores de crescimento específicos para elas formam estruturas tridimensionais quando colocadas em placas ricas de nutrientes.
Chamadas de organoides, essas estruturas se auto-organizam de tal forma que se prestam a grande variedade de experimentos biológicos. Por exemplo, acompanhar a sequência dos passos moleculares executados durante o desenvolvimento do cérebro humano e de outros animais, desde a vida intrauterina.
O avanço dessa tecnologia tem possibilitado a elucidação de detalhes do funcionamento de várias áreas cerebrais, da influência dos fatores genéticos e dos neurotransmissores envolvidos na emissão dos sinais entre os neurônios. Esses conhecimentos levarão a novos tratamentos e à possibilidade de corrigir defeitos genéticos causadores de condições neurológicas devastadoras.
A revista Nature acaba de publicar um editorial sobre os aspectos éticos criados por essas técnicas. Afinal, um pequeno cérebro crescendo no interior de um frasco desperta a curiosidade e o medo do desconhecido. Pode ser retratado como uma “força maligna” capaz de interferir com o comportamento humano.
O editorial considera essa uma “fantasia não plausível” e define essa tecnologia como uma “força do bem” para a medicina, que nos ajudará a entender melhor a neurobiologia da condição humana. No entanto, reconhece que mimetizar sistemas cerebrais em laboratório coloca os neurocientistas diante de questões éticas e sociais que merecem atenção. Razão pela qual é preciso discutir com a sociedade a criação de protocolos éticos.
O primeiro problema é o de que a sobrevivência do organoide em placas de cultura se mantém por tempo limitado. Para aumentar sua longevidade, muitos pesquisadores transplantam o organoide para o cérebro de camundongos. Ainda não temos experiência suficiente com as interações entre os neurônios humanos e os dos roedores nesses experimentos laboratoriais. O editorial ressalta a importância da realização de pesquisas para determinar limites éticos o quanto antes, enquanto os estudos ainda estão em fases iniciais.
Uma preocupação que, por enquanto, pertence aos domínios da ficção científica é a da possibilidade de emergirem funções mentais mais complexas nesses organoides, entre elas a consciência. Claro que estamos a anos de distância de um achado desses, mas muitos consideram importante que organismos científicos internacionais monitorem continuamente essas experiências.
Num exercício de futurologia, o editorial faz outras considerações éticas: “Seria possível integrar organoides cerebrais com computadores e Inteligência Artificial? Quais seriam as consequências? O doador das células teria direito de autorizar determinados usos e negar licença para outros?” E volta a insistir que as regras sejam definidas antes de surgirem os primeiros problemas éticos.
Por mais precoces que pareçam, preocupações desse tipo levaram à realização de uma conferência internacional, em novembro do ano passado, que reuniu advogados, investidores, cientistas, especialistas em ética, pacientes e organizações defensoras de seus interesses, com a finalidade de preparar uma legislação internacional destinada a regulamentar as pesquisas com organoides.
Na década de 1970, a tecnologia do DNA recombinante que criou a possibilidade de manipular genes levantou temores de que seríamos capazes de interferir com o genoma humano, inventar novas formas de vida e produzir clones de seres humanos obedientes.
A onda de medo que se disseminou pela sociedade fez com que os biólogos moleculares da área decretassem uma moratória em seus experimentos até que surgissem salvaguardas capazes de trazer segurança contra o mau uso dessa tecnologia.
A partir de uma conferência realizada na Califórnia, em 1975, os National Institutes of Health e diversas organizações internacionais de outros países definiram os preceitos éticos a serem adotados, para que as pesquisas pudessem prosseguir com segurança. O resultado foi a revolução genética que modificou a história da biologia. •
Publicado na edição n° 1414 de CartaCapital, em 27 de maio de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Limites éticos’
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