Afonsinho

Médico e ex-jogador de futebol brasileiro

Opinião

assine e leia

Lições da Supercopa

O Flamengo se precipitou na escalação de Lucas Paquetá, recém-repatriado. E o futebol brasileiro padece com a escassez de meias-armadores

Lições da Supercopa
Lições da Supercopa
Torcedores se reúnem no Rio de Janeiro para a chegada do Flamengo após o título da Copa Libertadores de 2025. Créditos: Pablo PORCIUNCULA / AFP
Apoie Siga-nos no

O ano mal começou e já tivemos uma grande decisão, com a eletrizante disputa da Supercopa do Reflamengoi. Flamengo, atual vencedor do Campeonato Brasileiro de 2025, e ­Corinthians, vitorioso na Copa do Brasil, enfrentaram-se em campo neutro, no Estádio Mané Garrincha, em Brasília. Apesar da distância de mais de mil quilômetros entre a capital federal e as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, a partida registrou público de 71,2 mil torcedores. Um feito, mesmo para as duas maiores torcidas do Brasil.

O resultado do jogo – segunda derrota seguida do time rubro-negro – deixou a impressão de excesso de confiança imprudente do Flamengo, sabidamente dono do melhor elenco do nosso futebol atualmente. O clube da Gávea foi melhor nas duas últimas partidas, mas perdeu ambas.

A derrota para o Corinthians por 2 a 0 ofuscou a estreia do meia Lucas Paquetá, recém-repatriado. O Flamengo talvez tenha se precipitado na escalação do atleta, que não jogava desde 6 de janeiro, quando seu antigo clube, o inglês West Ham, perdeu para o Nottingham Forest, pela ­Premier League. Agora, na final da Supercopa, teve uma atuação apagada. Curiosamente, o jogador entrou em campo antes mesmo do anúncio oficial de sua contratação.

É compreensível um desempenho abaixo da média no início de temporada. A maioria dos atletas voltou de férias há pouco tempo, cada um com uma condição física diferente. Ainda assim, enfrentam a superexposição a diversas competições simultâneas. O Campeonato Brasileiro estreou em 28 de janeiro, com os torneios estaduais ainda em andamento. A Libertadores da América começou na terça-feira 3.

Diante do calendário insano, as comissões técnicas precisam quebrar a cabeça para revezar o elenco, por vezes recorrendo aos atletas da base, para não correr o risco de perder titulares por lesões. Mas a torcida não costuma perdoar atuações decepcionantes, como vimos nas vaias ao Vasco após o empate com o Madureira. O time somou apenas 1 ponto no Cariocão e agora precisa de uma vitória na última rodada para garantir a classificação às quartas de final sem depender do tropeço de adversários. Eis mais uma competição estadual que parece minguar aos poucos.

A presença de Paquetá na final da Supercopa, sem estar nas melhores condições, trouxe desgaste desnecessário para o clube e o jogador, que devem superar esse tropeço ao longo da temporada. O jogo em si apresentou, desde o começo, um perde-ganha de passes simples, demonstrando a insegurança dos jogadores. Teve ainda a polêmica expulsão de Carrascal.

O jogador do Flamengo deu uma cotovelada no rosto de Breno Bidon no apito final do primeiro tempo, bem longe de onde a bola era disputada. Somente no intervalo da partida o árbitro foi alertado pelo VAR sobre a conduta violenta. Por esse motivo, o atleta só foi expulso após voltar do vestiário para o segundo tempo da partida. Quem acompanhava o jogo no estádio – ou mesmo pela tevê e o rádio – ficou sem entender o que se passava, diante do ineditismo da situação: um cartão aplicado com tanto atraso.

Vencendo por 1 a 0 e com um jogador a mais em campo, o Corinthians em nenhum momento fez valer sua superioridade numérica. O Flamengo manteve a pressão até o fim do segundo tempo, com vários atacantes escalados pelo treinador Filipe Luís para o “tudo ou nada”. Sem controle da situação, Dorival Júnior, talvez o melhor dos treinadores brasileiros, arrancava os parcos cabelos à beira do gramado cada vez que o adversário criava uma jogada perigosa contra o Corinthians. Mas a pontaria dos flamenguistas não estava calibrada e o clube da Gávea ainda sofreu um segundo gol nos acréscimos. Yuri Augusto entrou com “bola e tudo” no gol flamenguista.

A partida enseja uma reflexão sobre as opções técnicas e táticas dos clubes, o modelo a ser seguido. A palavra de ordem, no momento, é manter a “intensidade” do jogo. Os times estão sendo escalados com dois volantes, sem aquele “armador clássico” que controlaria o ritmo da partida conforme a situação. O maior exemplo da nossa história ainda é Didi, que esbanjou essa capacidade na Seleção Brasileira durante as Copas de 1958 e 1962.

Entre os jogadores na final da Supercopa destacaram-se os laterais corintianos, mas, de modo especial, o zagueiro ­Gabriel Paulista – além de tudo autor do primeiro gol do Timão. No plano internacional, o ex-palmeirense Endrick voltou a jogar bem e sonha em ser incluído na lista de Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo. •

Publicado na edição n° 1399 de CartaCapital, em 11 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Lições da Supercopa’

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Depois de anos bicudos, voltamos a um Brasil minimamente normal. Este novo normal, contudo, segue repleto de incertezas. A ameaça bolsonarista persiste e os apetites do mercado e do Congresso continuam a pressionar o governo. Lá fora, o avanço global da extrema-direita e a brutalidade em Gaza e na Ucrânia arriscam implodir os frágeis alicerces da governança mundial.

CartaCapital não tem o apoio de bancos e fundações. Sobrevive, unicamente, da venda de anúncios e projetos e das contribuições de seus leitores. E seu apoio, leitor, é cada vez mais fundamental.

Não deixe a Carta parar. Se você valoriza o bom jornalismo, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal da revista ou contribua com o quanto puder.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo