Lembranças do velho feminismo

'Ele que amava tanto a revolução, que amava tanto o feminismo, vestiu a camisa e foi à luta'

Foto: iStock

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Opinião

Quando o tsunami Betty Friedan varreu o planeta Terra na década de 1960, ele era jovem ainda. Ele que amava tanto a revolução, que amava tanto o feminismo, vestiu a camisa e foi à luta. Remando contra a maré, se ligava nas mulheres que não sabiam coar um café, cozinhar um ovo, fritar um bife.

Ele foi apresentado à vassoura, ao pano de prato, ao fogão. Passou a conviver com o Pinho Sol, o Bombril e a Cera Parquetina. Aprendeu rapidinho a preparar mamadeiras, a trocar fraldas e a passar Hipoglós no bumbum do bebê.

Ele viu com os seus próprios olhos suas colegas de científico arrancar dos peitinhos de pera seus sutiãs De Millus e queimá-los em praça pública. Quando deu conta, as meninas já estavam nos botequins bebendo Caracu, fumando Charm e discutindo futebol.

O feminismo virou uma religião. Alguns anos depois, longe daqui, mandava notícias via Intelsat para os jornais Brasil Mulher, Nós Mulheres e Mulherio. Ele se sentia no mesmo barco que elas, lutando com as armas delas e as de Jorges.

No seu exílio, o trabalho de casa passou a ser dividido com a companheira numa boa, tipo “você lava, eu enxugo”. Virou um ótimo dono-de-casa, a ponto de nunca colocar na máquina de lavar roupas brancas e coloridas juntas. A ponto de fazer um arroz bem soltinho, ter sempre o armário em ordem e saber que para obter um ovo quente perfeito é necessário cozinhar durante exatos dois minutos e oito segundos. Mas isso era dentro de casa.

Fora dela, no olho da rua, saia em passeatas organizadas pela editora Des Femmes exigindo salários iguais para homens e mulheres. Fazia saraus na Casa do Brasil, discutindo os boletins do Women’s Liberation Front que chegavam da América do Norte.

No subsolo da livraria Joie de Lire, no coração do Quartier Latin, promovia encontros com as mulheres da América Latina, que viviam oprimidas pelas ditaduras militares e por maridos machistas. Brasileiros, uruguaios, argentinos, chilenos, peruanos.

Tudo isso acontecia enquanto a vaidade do seu pai, homem com H, se resumia a um pequeno vidro de brilhantina Myrurgia, um vidro de água de colônia Pinho Campos do Jordão e um pente Flamengo que ele guardava no bolso de trás da calça de tropical inglês. A brilhantina, ele guardava no banheirinho do armário e só usava uma vez por dia, de manhã, depois do banho.

O mundo hoje é outro.

Mas ele sabe que muita coisa tem de mudar ainda. Decidiu parar a crônica por aqui quando escreveu dono-de-casa e o corretor do Google corrigiu para dona-de-casa.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

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