Afonsinho

Médico e ex-jogador de futebol brasileiro

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Ladeira abaixo

O placar do jogo entre Manchester City e Fluminense funciona como um instantâneo que revela, em close, a imagem da nossa realidade

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Foto: Giuseppe Cacece/AFP
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Começamos 2024 com o esporte brasileiro – salvo honrosas exceções, como surfe, skate e tênis – em situação, para dizer o mínimo, difícil. No caso do futebol, especificamente, os resultados dentro e fora do País levam ao desencanto dos torcedores.

Aqui, o que mais se vê é a desilusão com os jogadores. Acredito que isso seja consequência do “esquemão” em que estamos metidos.

O rumo que o esporte tem tomado mostra que os dirigentes e os donos do dinheiro tendem a esquecer que o que desperta o interesse das pessoas é a criatividade em campo, o encantamento que certas jogadas são capazes de gerar.

Não nego que, a esta altura, tenho a velha preocupação levantada lá atrás pelo visionário João Saldanha: “Vão acabar matando a galinha dos ovos de ouro”.

Mas, como bem sabemos, neste momento, a cegueira gerada pela busca do lucro a qualquer custo toma todos os setores da vida – a tal ponto que coloca em risco a nossa própria sobrevivência, dada a calamidade ambiental.

A vitória do City por 4 a 0 sobre o Fluminense, na partida que fechou 2023, pode ser um marco divisório para o nosso futuro. A depender da maneira como o futebol brasileiro for levado, o desenvolvimento dos times estará em risco.

O placar, decepcionante para todos que torcíamos para o tricolor, funciona como um instantâneo que registra, em close, a imagem reveladora da nossa realidade.

Deu a lógica mais pura, e sem nenhuma graça, como se fosse um jogo de cartas marcadas ou apenas o cumprimento de uma formalidade.

Salvou-se o comportamento do Fluminense que, diante do pior cenário possível – ou seja, sofrer um gol logo de cara e, em seguida, outro contra – seguiu sua própria opção de jogo. Opção que era, aliás, a mesma do adversário e que determinou o resultado final.

Com um modo de jogar semelhante, prevaleceu a maior estabilidade do City, que vem adotando esse modelo instalado por Pepe Guardiola, que o trouxe do Barcelona de anos passados.

Cabe lembrar que, segundo o próprio Guardiola, essa maneira de jogar foi inspirada no toque de bola do futebol sul-americano. Em resumo, estamos em um mato sem cachorro.

No plano imediato, a Confederação Brasileira da Futebol (CBF) anda às voltas com o afastamento de mais um presidente da entidade – desta vez, Ednaldo Rodrigues – por suspeitas de irregularidades.

Acredito, porém, que haja outros graúdos por trás. Inclusive, comentei, na última coluna de 2023, que uma das coisas que chamam atenção é o fato de um órgão de tamanha relevância ser dirigido de maneira assim descompromissada.

Se 2023 termina com a derrota do Fluminense e o vexame da CBF, 2024 começa com a notícia da renovação de Ancelotti com o Real Madrid. Trata-se, mais uma vez, de um fato que obedece à lógica.

A vinda do prestigioso técnico italiano para a Seleção Brasileira só faria sentido com uma administração que lhe oferecesse, no mínimo, garantias de estabilidade. E o que temos é exatamente o contrário disso.

No fim do ano, o baiano Vampeta, comparando a Seleção atual com a de outros momentos, lembrou que chegamos a ter uma equipe que contava, em suas linhas, com quatro ou cinco jogadores consagrados, os chamados “Bola de Ouro”. Agora, não temos um sequer. Como ganhar assim uma Copa no curto prazo?

E o raciocínio de Vampeta me leva a outro. Em 1950, perdemos uma Copa do Mundo em casa, com uma Seleção recheada de jogadores extraordinários, provavelmente o melhor elenco da Copa.

Fomos alcançar nosso primeiro Mundial oito anos mais tarde, depois de terem sido colocadas em prática mudanças determinantes na administração do nosso futebol, com uma modernização que incluía uma comissão técnica da qual faziam parte recursos de psicologia, odontologia etc.

Hoje, as circunstâncias são outras e, além de uma direção consistente, precisaríamos enfrentar a reconstrução do padrão brasileiro de jogo – ponto de vista, diga-se, defendido por Fernando Diniz.

Para terminar, digo apenas que um ano sem Pelé e a queda do Santos para a Série B sintetizam muito disso tudo que tento dizer. •

Publicado na edição n° 1292 de CartaCapital, em 10 de janeiro de 2024.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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