Jair ‘Peace and Love’ ou por que já podemos sentir saudades de 2018

Diante da clara impossibilidade de qualquer terceira via, setores do jornalismo parecem tentar revender a falácia de 2018

O presidente Jair Bolsonaro em ato de apoiadores no Dia da Independência. Foto: Clauber Cleber Caetano/PR

O presidente Jair Bolsonaro em ato de apoiadores no Dia da Independência. Foto: Clauber Cleber Caetano/PR

Opinião

Como era esperado entre os não muito afeitos a ingenuidade, a manobra de Jair Bolsonaro no pós 7 de Setembro lhe rendeu dividendos consideráveis. Não por conta de sua destreza tática e da excelente jogada de colocar, na linha de frente de seu armistício cínico, um ex-presidente-tampão que ocupou a cadeira presidencial e por lá foi mantido graças a uma coalização de forças políticas, econômicas, comerciais e mediáticas. Mas porque soube acionar, na hora certa, um princípio básico que rege sua relação com setores poderosos da sociedade brasileira, dispostos não apenas a comprar qualquer simulação de recuos e arrependimentos, mas também de rapidamente revendê-la como fato.

 

 

O governo Bolsonaro é amplamente tratado como um governo como outro qualquer. E Jair Bolsonaro, como qualquer outro ocupante da cadeira presidencial na Nova República. Mesmo diante de uma política de desmatamento e queimadas no Meio Ambiente, na implosão de políticas culturais e educacionais, passando pelo morticínio na gestão da Saúde e a sabotagem do Censo/IBGE, chegamos ao absurdo de um processo de impeachment se tornar discutível. Chegamos ao ponto de evidência cabal do que setores econômicos e politicamente poderosos toleram ou não.

E não sejamos ingênuos de achar que um impeachment só não acontece porque temos um PGR que resolveu desbancar o Geraldo Brindeiro de Fernando Henrique Cardoso. Ou porque na Câmara senta-se em cima de uma pilha de pedidos de impeachment para preservar acesso a fatias generosas do orçamento público. Não é isso. Fica claro quando recordamos o longo processo que culmina em 2016. Amplos setores da sociedade, com graus variados de engajamento, empreenderam um movimento pelo impeachment de Dilma Rousseff. Há, para qualquer um a quem ainda reste alguma lucidez e honestidade intelectual, alguma comparação entre a atual gestão e aquela interrompida para que Michel Temer assumisse a presidência.

Aos fatos que importam no momento: há sete dias, o jornal O Globo publicou um editorial que emulava aquilo que Luciano Huck afirmou em 2018: Bolsonaro tem a chance de ressignificar a política. Às vésperas do discurso do ex-capitão na abertura da Assembleia Geral da ONU, o jornal disse que Jair Bolsonaro tinha a chance de “reparar a imagem do Brasil”. Embora desfiasse uma quantidade repugnante dos serviços prestados por esse senhor em quase três anos de presidência, O Globo concluiu que Bolsonaro possui um lado “Peace and Love” que poderia ser explorado na ONU. Um acinte, para ficarmos na crítica elegante. Mas, também, um claríssimo sinal da boa vontade que se tem com o governo Bolsonaro. A mensagem é: Jair, ajude-nos a lhe ajudar. É só fingir que o resto a gente ajeita.

Não foi diferente com a capa de Veja desta semana. Em que pese, como n’O Globo, uma pequena recapitulação das desgraças que nos são entregue diariamente desde janeiro de 2019, lá está Jair Bolsonaro, registrado em fotos bonitas, com cara de estadista e com uma legenda típica do enfadonho jornalismo declaratório que se tornou um padrão na cobertura da política brasileira. Basicamente, temos o presidente contando as habituais mentiras sem quaisquer filtros, confrontações ou ponderações jornalísticas. Nada rigorosamente diferente de suas lives.

Não que a essa altura do campeonato eu mantenha algum otimismo ou mesmo cultive expectativas – ao contrário. No entanto, parece-me claro que, conforme vai se consolidando um cenário de disputa entre Lula e Bolsonaro e diante da clara e evidente impossibilidade de qualquer terceira via, amplos setores do jornalismo brasileiro parecem tentar revender a falácia quase criminosa de 2018 sobre a natureza, o caráter e as intenções do sujeito que nos tem governado em direção às trevas. Para não falar das falsas simetrias, como se houvesse algo simétrico a Jair Bolsonaro em termos de moral, política e gestão. Parece, da mesma forma, que Bolsonaro está sendo convencido a se tornar um candidato, digamos, normal, como já é o seu governo por tantos.

Para quem achava que 2018 tinha acabado, eu temo em reafirmar: não acabou e, pelo visto, pode piorar. E muito. Lembro-me de um editorial de Folha de S. Paulo de novembro de 2019. Já tínhamos visto um quantidade recorde de absurdos autoritários e fisiológicos, mas o jornal nos dizia que estávamos “na direção correta”. Até agora não vi um editorial dizendo que, não. Não estávamos. Que estávamos na direção errada. Nada, rigorosamente nada mudou na política econômica de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes na economia. Hoje temos açougue vendendo ossos porque aumentou a procura pelo nobre artigo no meio de mais da metade da população passando por algum tipo de insegurança alimentar.

Para que eu não termine falando apenas da imprensa e de setores políticos e econômicos bastante alinhados a amplos setores do nosso jornalismo da grande imprensa, vamos à última pesquisa do instituto Ipec que aponta a reprovação recorde ao Governo Bolsonaro: 53% da população o avalia como ruim ou péssimo. Há quem solte fogos. Eu prefiro a cautela e os olhos atentos no porvir de 2022. Não há mais nada de pior que o governo Bolsonaro possa entregar à população brasileira que já não tenha entregado. Não obstante isto, 22% da população considera essa lama ótima ou boa. Generosos 23% jugam que vivemos anos de normalidade. De regularidade.

Metodologicamente, não cabe somar esses percentuais, mas dá uma olhada no percentual da população que vai do ótimo/bom ao regular, apesar de tudo. Agora imaginem com uma boa força de boa vontade amplamente disponível, de uma comunicação amiga e de um bom marketing político. Quem acha que 2022 tem alguma coisa de garantido, ainda não compreendeu o bolsonarismo, que é, tão e somente, compreender o Brasil. Agora imaginem o que esse país já fez, justificou e legitimou para evitar que Lula se tornasse presidente. Não subestimem nossa capacidade de sermos imorais e cínicos. Há muito que 2018 nos ensinou sobre nossas qualidades como país. E continuamos nos superando. Temo muito por 2022, afinal, com sempre gosta de lembrar Eymael, nosso eterno democrata cristão: Sinais! Fortes Sinais!

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, membro do Grupos de Pesquisa em Democracia e Justiça (Margem) e pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD).

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