Maria Inês Nassif

Jornalista e cientista social. Trabalhou nos principais jornais do país. Foi assessora do Instituto Lula.

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“Isto está uma zona”

A declaração é de um proxeneta que foi à manifestação de 15 de março de 2016 pelo impeachment de Dilma

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A introdução de Palmério Dória e Mylton Severiano ao livro Golpe de Estado: o Espírito e a Herança de 1964 Ainda Ameaçam o Brasil, de ambos, editado em 2015 pela Geração Editorial, é uma obra-prima. Uma caminhada pela manifestação de 15 de março daquele ano, na Avenida Paulista, com olhos atentos e discernimento para pinçar na multidão fatos e personagens definidores do momento político. Não é apenas um relato, mas quase um corte sociológico. Se fosse uma pintura, seria sobre o Dia D dos contínuos movimentos contra a democracia brasileira. Mas é História, e o relato de um enredo definidor de uma classe economicamente dominante e politicamente incrustrada na alma do País, um parasita em permanente processo de proliferação e com capacidade de debilitar todo o corpo vivo da nação.

Os personagens são caricaturas dessa classe dominante e do lumpesinato que a ela se mistura, e a ela é servil. São relatos sobre a naturalidade com que convivem e partilham ideais a mulher do banqueiro, o torturador que carrega sua biografia com orgulho e é reverenciado pelos presentes, ou do dono de boate e proxeneta que, juntamente de suas “meninas”, define o momento: “Isto está uma zona. E de putaria eu entendo”. O retrato do recém-nomeado pela mídia como líder jovem, que também é preto e pobre e, do alto de um caminhão de som, grita, histérico: “Golpe! Golpe! Golpe”.

É a alegria exultante do líder de extrema-direita que, acompanhado de toda a família, deixou o Centro-Oeste, rumo à Paulista, e lá exibiria seu mais largo sorriso, uma camiseta onde estava estampada a mão de Luiz Inácio Lula da Silva (sem o dedo mindinho, é claro) e o sonho de tornar-se presidente da República – que virou uma candidatura ao governo de seu Estado pouco tempo depois, após ser denunciado por corrupção por um ex-seguidor. Ou o pedido para que um futuro presidente da República, na época deputado, subisse no caminhão de som, mas não falasse, para não dizer besteiras. Ou um “carinhosamente” chamado Vovô Metralha, torturador que era o braço-direito do delegado Sérgio Paranhos Fleury e, ao lado dele, deteve ilegalmente, torturou e executou presos políticos. “Faria tudo de novo”, dizia a quem perguntasse (e provavelmente a quem não perguntou) confortável e feliz. Ou ainda os fantasmas do passado, que levavam, com orgulho, capacetes de voluntários do movimento de 1932 e bandeiras da Tradição, Família e Propriedade (TFP) de Plínio Salgado, o introdutor da ideologia fascista no Brasil, na década de 30 do século passado.

O relato de Dória e Severiano é o prefácio de catástrofe anunciada. O golpe contra Dilma Rousseff era apenas o início da desconstrução por uma elite sem qualquer compromisso com o seu país e o seu povo. Michel Temer, que ganhou de graça dois anos de governo, destruiu o futuro ao iniciar o desmonte da Petrobras e garfar o Fundo Soberano. Jair Bolsonaro, presidente da República a partir de 2019, praticamente colocou abaixo os avanços obtidos nos anos de governo de esquerda. E não apenas. O desmonte dos princípios econômicos e sociais da Constituinte começaram nos governos de Fernando Henrique Cardoso, mas o tiro de misericórdia veio após a queda de Dilma.

A Constituição Cidadã de Ulysses Guimarães foi destruída diariamente, sistematicamente, calculadamente. E hoje temos um presidente da República eleito, de esquerda, que resiste, mais do que governa. E uma elite que perdeu a eleição de 2022, mas governa. E um Congresso majoritariamente conservador, envolto em negócios escusos, que ganhou vida própria e é uma ameaça constante a um governo eleito pelo voto direto. Existe uma aliança clara entre esses parlamentares e os interesses econômicos que financiaram e militaram para Dilma perder o mandato e um capitão defensor da ditadura se tornar presidente em 2018. Eles dividem o butim e mantêm um governo de esquerda, eleito pelo voto direto, em permanente instabilidade. E que se dane o povo que não foi para a Paulista em 15 de março de 2016.

O Brasil passa por um momento sombrio de desconstrução que não foi interrompido no terceiro governo Lula. O presidente da República às vezes vence, às vezes se torna refém, e é permanentemente chantageado pelo público do 15 de março. Como no terceiro mandato, Lula, se reeleito, fará novamente um governo de resistência. Agora não só aos banqueiros e representantes do agronegócio que querem chegar à Presidência e acabar com os intermediários, mas a uma estratégia permanente de desvio de todos os recursos nacionais, financeiros e legais, que possam beneficiar a população. E a divisão desses benefícios com um imperialismo chamado à cena do crime pelos próprios brasileiros. •

Publicado na edição n° 1422 de CartaCapital, em 22 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘“Isto está uma zona”’

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