Isso é coisa de gente velha

Os velhos de hoje ficaram ligeiramente modernos, mas continuam guardando coisas

Foto: iStock

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Opinião

O meu avô não jogava nada fora, na lata de lixo. Depois de uma certa idade, ele guardava tudo: prego enferrujado, parafuso torto, pedacinho de madeira, saquinhos, vidrinhos, potinhos, o papel cinza que embalava o pão de meio quilo.

Pedacinhos de barbante, garrafas de Crush, enfeite quebrado, tubo de pasta de dente vazio, até mesmo palito de fósforo Beija-Flor queimado voltava pra dentro da caixinha.

Todo mundo implicava com ele, mas minha mãe nos dizia que isso é coisa de gente velha.

De repente, baixou o espírito de Antoine-Laurent de Lavoisier nele e o velho acreditava piamente que nada se perdia, tudo se aproveitava. Só que nunca ele aproveitava um prego enferrujado ou um parafuso torto. Mas ia guardando tudo.

Guardava saquinhos de leite vazios porque, um dia, disseram a ele que juntando não sei quantos mil, era possível trocar por uma cadeira de rodas.

Guardava em gavetas, em caixinhas, em vidrinhos e ai de quem jogasse uma caixa de sapato vazia no lixo.

Sim, velho tem suas manias. Mania de achar que tudo custa caro, mania de ficar apagando as luzes da casa, varrer calçada, regar plantas, organizar contas de luz desde 1974, acordar com as galinhas e dormir com elas.

Nos dias de hoje, velho digita mensagem no celular com um dedo e bem devagar, catando milho. Chega no banco e logo procura a mocinha que veste um colete escrito atrás: posso ajudar?

Velho que ainda dirige, nunca enche o tanque porque acha que encher tanque custa uma fortuna. Velho toda vez que desce do carro, dá uma volta completa em torno dele para ver se tem algum sujinho, algum amassadinho.

Velho de hoje tem saudade do Orkut, de ferver leite, da agenda de papel, da caneta tinteiro, de quarar roupa, do lanterninha do cinema, do morango com gosto, da banana ouro, do azeite com cheiro.

Sim, os velhos de hoje ficaram ligeiramente modernos. Já aceitam a namorada da filha, o cabelo roxo do filho, o beijo gay na TV, a neta dormir com o namorado e o netinho de três anos passar o dia inteiro no celular.

Mas continuam guardando coisas. Conheço uma senhora aqui na Lapa que tem três filtros Europa estragados, guardados dentro do armário há anos, esperando conserto. No mesmo armário, ela guarda uma impressora escangalhada, uma vitrolinha cuja agulha está fora de linha e mais recentemente enfiou lá um aparelho de fax que o genro descartou.

Aqui em casa, a gente se policia. Todo dia lembramos do tal isso é coisa de gente velha. Por isso, ontem joguei fora dezoito vidrinhos, dez de geleia e oito de requeijão, seis tupperwares sem tampa, uma latinha de Fanta Pêssego, doze hashis ainda dentro da embalagem, uma meia dúzia de biscoitinhos da sorte já murchos do Lig-Lig e uma caixa de sapato cheia de pacotinhos de ketchup, de mostarda e de maionese, todos vazios.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

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