Colunas
Inteligência Artificial: uma bolha?
Ela é hoje a única determinação da hierarquia dos retornos globais e é difícil lembrar de uma época em que os mercados estivessem tão obcecados pela mesma narrativa
Em sua coluna no Financial Times, o presidente do Instituto Rockefeller, Ruchir Sharma, fala de uma nova ordem mundial baseada em IA: “Um único fator agora determina a hierarquia dos retornos globais. É difícil lembrar de uma época em que os mercados globais estivessem tão obcecados por uma única narrativa”.
Na visão de Sharma, a esplendorosa bolha da IA é tão poderosa e disseminada que está suplantando todos os demais fatores que determinam as taxas de retorno das empresas. Ele assegura que, em sua caminhada tecnológica e financeira, a Inteligência Artificial está moldando uma nova ordem. “O desempenho relativo dos principais mercados de ações mundiais no último ano pode ser explicado por sua exposição à IA. Países com forte presença no conjunto de indústrias que desenvolvem infraestrutura e serviços de IA estão apresentando um desempenho muito superior, enquanto aqueles sem essa presença estão ficando para trás por margens recordes.”
Karl Marx estudou as “manias” que afetaram o desempenho das economias do século XIX: “O mundo já padeceu uma sucessão de manias: especulação com o preço do trigo, manias com ferrovias, minérios e teares de algodão. A especulação de hoje não se restringe a um setor ou a uma mercadoria específica. Estamos diante de um fenômeno novo, “especular com a especulação”.
Vamos seguir Charles Kindleberger em seu admirado livro Manias, Crashes and Panics : “A palavra ‘mania’ sugere uma perda de conexão com a racionalidade, talvez uma histeria coletiva. A perda de conexão com a racionalidade reflete o fato de que investidores, credores, tomadores de empréstimos, bancos e reguladores financeiros não reconhecem que um crash é sempre o resultado final de uma mania. A história econômica está repleta de manias que envolveram a construção de canais, ferrovias, casas e propriedades comerciais, e os preços das ações”.
As crises financeiras do capitalismo, desde a sua versão mercantil dos séculos XVII e XVIII até os terremotos do Terceiro Milênio, sempre envolveram o crédito fácil e a explosão de preços de um ativo – real ou financeiro – escolhido como sedutor dos cobiçosos e servidor do enriquecimento ilimitado. É necessário esclarecer que, na economia monetária-financeira capitalista, todos os ativos são avaliados pelo mesmo critério. A euforia da valorização dos ativos gera desequilíbrios perigosos nos balanços de empresas ditas “produtivas”, bancos, governos e famílias.
O filósofo-especulador George Soros, em depoimento ao Congresso norte-americano, desautorizou as teorias que tratam de analisar os mercados financeiros partindo dos pressupostos da “eficiência”, ou seja, do comportamento racional dos investidores que avaliam a formação de preços dos ativos a partir dos “fundamentos”. Soros sustenta que “percepções equivocadas podem levar à formação de bolhas… e tais movimentos reforçam as tendências prevalecentes até que a distância entre a realidade e a percepção da realidade pelo mercado se torna insustentável”.
No livro já mencionado, Charles Kindleberger faz uma autópsia dos processos maníacos que, inevitavelmente, terminam no colapso de preços e nas crises de crédito. Assim foi em Amsterdã, no episódio da Tulipomania, um antepassado modesto dos grandes crashes dos séculos XX e XXI. Entre 1634 e 1637, os investidores holandeses, muitos de classe média, especularam furiosamente com a possibilidade de negociar, a preços cada vez mais elevados, os bulbos de tulipa, que, ademais, tinham a vantagem de exigir muito pouco, ou até nada, para a sua reprodução. Na base das expectativas exacerbadas a respeito da evolução do preço das tulipas estavam o Banco de Amsterdã e sua capacidade de estender o crédito e suportar o avanço da especulação.
Na história das finanças, é comum a imagem de investidores inconformados com os resultados da própria cupidez. Desde a Tulipomania de 1634, passando pelas crises cada vez mais frequentes do século XVIII (como a Bolha dos Mares do Sul, em 1720), e, chegando aos desastres financeiros dos séculos XX e XXI, o que mais impressiona o observador é a semelhança entre episódios tão diferentes.
Primeiro é a fantasia do enriquecimento rápido, sem causa, milagroso, fruto de alguma esperteza inata ou habilidade singular; segundo, a formação de um consenso sobre o ineditismo das circunstâncias que parecem justificar a valorização rápida dos papéis; terceiro, o envolvimento dos bancos na especulação, fornecendo crédito abundante para alimentar a euforia; quarto, o avanço do endividamento dos investidores, disfarçado pelos valores cada vez mais inflados da riqueza financeira ou imobiliária; quinto, a “correção de preços”, decepção e quebradeira. •
Publicado na edição n° 1420 de CartaCapital, em 08 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Inteligência Artificial: uma bolha?’
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.



